sexta-feira, 31 de julho de 2026

'Plantação de vigarices', por Augusto Nunes e Eliziário Goulart Rocha

 A “colheta” só existe na cabeça baldia de Lula


Presidente Lula | Foto: Reuters/Anadolu 


E m 23 de janeiro de 2024, o presidente Lula estava grávido de entusiasmo com o desempenho do governo no ano anterior. “Digo que o ano de 2023 foi um ano que a gente arô a terra, jogô adubo, que a gente jogô a semente, que a gente cobriu a semente”, animou-se o exterminador de esses e erres já no começo da entrevista a um jornalista estatizado. “Esse ano de 2024 é o ano que a gente qué colhê. É o ano da colheta daquilo que a gente plantou em 2023, e eu tô na expectativa de colhê mais desenvolvimento, de colhê mais emprego, de colhê melhor saúde, de, sabe, mais educação, de colhê mais investimento em cultura, mais investimento em tudo que pode significar melhoria do povo brasileiro”. 

Conversa fiada. Como ocorreu nos dois primeiros mandatos, o presidente orientou-se por uma curta frase: “Gasto é vida”. Dita por candidatos a herdeiro de fortunas familiares, tal maluquice identifica outro perdulário patológico implorando por interdição judicial. 

“Insanidade”, disse Albert Einstein, “é fazer sempre a mesma coisa e esperar resultados diferentes”. Em 2023, Lula foi mais Lula do que nunca. Aumentou para 38 o número de ministérios ou órgãos com status ministerial. (Eram 23 no governo de Jair Bolsonaro). Como sempre, convocou para comandá-los mediocridades notórias, doutores em vigarice ou nulidades ainda imersas no anonimato. Anielle Franco, por exemplo, virou ministra da Igualdade Racial por ser irmã de Marielle. Sílvio Almeida foi encarregado de cuidar dos Direitos Humanos e da Cidadania por ser negro. Os dois conseguiram espaço no noticiário só quando Anielle revelou que Sílvio não parava de assediá-la — nem mesmo em reuniões do ministério.

No primeiro ano do Lula 3, a política externa voltou a escolher invariavelmente o lado errado. O presidente culpou a Ucrânia por ter reagido à invasão ordenada pelo parceiro russo Vladimir Putin. “Quando um não quer, dois não brigam”, filosofou. Qualificou de “ato terrorista” o revide de Israel ao ataque do Hamas. E depositou no colo de Roberto Campos Neto, presidente do Banco Central, todos os males da economia — passados, presentes e futuros. “Ele tem compromisso com o outro governo, que o indicou”, decidiu o palanque ambulante. “E tem compromisso com aqueles que gostam de juro alto”. 

Quando 2023 terminou, a dívida pública alcançara R$ 230,5 bilhões, a segunda maior da história. Instigado pela terceira mulher, a “Janja”, Lula visitou 24 países, voou o suficiente para completar seis voltas ao redor do mundo e ficou fora do Brasil 62 dias. Colher o quê? Só em dezembro de 2024 o milagreiro de botequim avisou que a safra incomparável seria colhida em 2025. “Nós ainda temos muita coisa pra fazê, mas nós já fizemo tudo que nós tínhamo que fazê pra consertá o que a gente recebeu e pra plantá o que a gente tem que entregá”, alegou o palanque ambulante. “Mas a partir de 1º de janeiro do ano que vem a gente só tem de fazer colheta daquilo que foi plantado. Agora 2025 é ano da colheta. E as coisas vão acontecê nesse país”. 

Em 30 de janeiro, reincidiu na fantasia: “Eu digo pra todo mundo que este ano é o ano mais importante do governo, porque é o ano em que a gente começa a grande colheta de tudo que foi plantado em 2023 e 2024”. Nada aconteceu, e o vendedor de terrenos na Lua adiou a inauguração do paraíso de araque para 2026, último ano do terceiro mandato. “Mas tudo tá plantado”, insistiu o mago das “colhetas” que ignora a diferença entre um machado e um avestruz.

“Eu disse o seguinte: que 2026 era o ano da colheta”, mentiu de novo.

“Nós reconstruímo, preparamo a terra e plantamo. Agora o que que eu tenho dito? Pra que que eu quero um quarto mandato? Pra que que eu preciso dum quarto mandato? Eu tenho na cabeça de que é importante que a gente dê um salto de qualidade, porque a gente discute muitos efeitos e não discute causa. Eu acho que tá na hora da gente debatê as causa dos problemas brasileiro pra gente poder mudá”. A tapeação seguiu seu curso em 20 de janeiro de 2026, quando o discurso sobre o nada se transformou em palavrório eleitoreiro.

“Passamos o ano inteiro de 2025 recuperando este país, plantando as coisas, cuidando da terra, colocando fertilizante e agora nós vamo começá a colheta. E aí é que eu quero o apoio de vocês. Primeiro: nós precisamo transformá o ano de 2026 no ano da comparação. Vamo pegá a data que foi feito o impeachment da Dilma em 2016. Vamo pegá o governo Temer e o governo Bolsonaro, e vamo fazê uma comparação: o que nós fizemo em três anos com o que eles fizeram em sete anos”.


"Eu disse o seguinte: que 2026 era o ano da colheta”, mentiu de novo | Foto: Ricardo Stuckert/PR

A comparação é uma genuína ideia de jerico. Nos governos mencionados, por exemplo, a política econômica foi tratada com eficácia e em nenhum momento precisou de internação na UTI. No terceiro mandato de Lula, a inexistência de um programa de governo e de um projeto de país somouse à gastança irresponsável e, em decorrência disso, à tributação feroz. De volta ao Planalto, o chefão do PT criou ou aumentou um total de 37 impostos. 

Hostil ao agronegócio, que considera “fascista”, Lula criou um Ministério de Desenvolvimento Agrário controlado pelo MST. Problemas enfrentados por empresários que alimentam o mundo e vivem socorrendo governos perdulários foram agravados por um Plano Safra mambembe. Lula gosta de entregar a gestão da economia a quem nunca lidou com números. No primeiro mandato, o ministro da Fazenda foi o médico Antonio Palocci. Desta vez, escolheu o advogado Fernando Haddad.

Ex-ministro da Educação, Haddad figura entre os alvos de uma frase famosa do dono do PT: “As pessoas que são analfabetas não são analfabetas por sua responsabilidade. As pessoas que são analfabetas ficaram analfabetas porque este país nunca teve um governo que se preocupasse com a educação”, disse Lula.

Até ser dispensado do cargo para sofrer mais uma derrota na disputa pelo governo de São Paulo, Haddad protagonizou duas proezas perturbadoras. A primeira foi a criação de um certo “arcabouço fiscal” que 99,9% dos brasileiros não sabem o que é. Segunda: foi ele a primeira autoridade brasileira a brilhar com os codinomes “Taxad” e “Taxa Humana” no famoso telão da Times Square, em Nova York. A carga tributária subiu consideravelmente. Mas a dívida líquida do governo federal foi de R$ 4,8 trilhões para R$ 7,9 trilhões.



Presidente Lula e Fernando Haddad, durante convenção da Federação Brasil da Esperança, em  Campinas (SP) -\ Foto: Ricardo Stucker


A dívida bruta brasileira vai passar dos R$ 11 trilhões e a recessão vem aí: isso acontece a todo governo que gasta mais do que arrecada. Não há sinais de qualquer obra física em execução. Nada de relevante foi inaugurado. Nada mudou no sistema de saúde. Nenhum investimento importante ocorreu no Brasil. Todos os países desenvolvidos investem em Inteligência Artificial. Aqui, a IA está na mira do ministro Alexandre de Moraes por ter-se metido na campanha de Flávio Bolsonaro. O carcereiro-chefe do Supremo Tribunal Federal pode tentar prendê-la a qualquer momento (e obrigá-la a usar tornozeleira eletrônica). O Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação não sabe direito o que é isso. Como alertou Matt Velloso, engenheiro brasileiro na vanguarda mundial da Inteligência Artificial, o país pode retroceder ao ano 1500 


O que continua crescendo é a ladroagem engravatada. 

Como ocorre desde 2003, quando o PT chegou ao governo federal, o terceiro mandato de Lula manteve a média de um grande escândalo por ano. Só em 2025, duas roubalheiras colossais disputaram a medalha de ouro: o assalto aos aposentados do INSS e o Caso Master. Na primeira, agiram um filho e um irmão de Lula. A segunda já é o maior escândalo financeiro da história do Brasil. Nasceu na Bahia, está no colo do PT e vem provocando estragos sem precedentes no STF. Pelo menos dois togados — Alexandre de Moraes e Dias Toffoli — viraram casos de polícia. Esses já colheram em espécie o resultado das plantações que continuam em preparo na cabeça de Lula.



Alexandre de Moraes e Dias Toffoli, ministros do STF envolvidos no caso do Banco Master - Foto: Rosinei Coutinho/STF 


Logo o eterno candidato à Presidência estará jurando que precisou de quatro anos para preparar uma colheita de dimensões tão espetaculares que outros quatro anos serão necessários para ser desfrutada e consumida. Os devotos da seita lulista, claro, lutam para manter no cargo o recordista mundial de bravata & bazófia. Mas segue em expansão o oceano de eleitores convencidos de que nem mesmo um país que resistiu a cinco anos e meio de Dilma Rousseff conseguirá sobreviver a um quarto mandato do único presidente da República que não sabe escrever, jamais leu um livro e ainda assim capricha na pose de conselheiro de Deus.


Augusto Nunes e Eliziário Goulart Rocha 

Colaboraram Artur Piva e Mateus Conte

Revista Oeste