Final da Copa do Mundo da FIFA 2026: a Espanha conquistou o título ao derrotar a Argentina na decisão, disputada no Estádio de Nova YorkNova Jersey, em Nova York, EUA - Foto: Reuters/Ayman Aref/NurPhoto
D urante algumas semanas, os Estados Unidos voltaram a ocupar o centro do mundo esportivo. Milhões de pessoas atravessaram o país, estádios acolheram multidões, cidades se prepararam para partidas acompanhadas em praticamente todos os continentes e, mais uma vez, um grande evento internacional produziu imagens que só o esporte parece capaz de oferecer. Bandeiras diferentes dividindo as mesmas arquibancadas, línguas distintas cantando as mesmas músicas e torcedores vindos dos quatro cantos do planeta revelaram uma América que já possuía, antes mesmo de a bola começar a rolar, praticamente tudo o que precisava para receber uma competição com tais dimensões.
É justamente aí que está uma das lições mais interessantes deixadas pela Copa e pelos americanos. De novo. Quando o último torcedor vai embora, quando os refletores se apagam e quando as delegações retornam para casa, começa o verdadeiro teste de um grande evento esportivo. Não se trata mais da beleza da cerimônia, da emoção de uma final ou da eficiência da organização durante algumas semanas. A pergunta passa a ser outra: o que ficou?
Para os brasileiros, essa pergunta deveria provocar algum desconforto. Num intervalo de apenas dois anos, o Brasil recebeu os maiores eventos esportivos do planeta. Em 2014, o país sediou uma Copa do Mundo. Em 2016, os Jogos Olímpicos chegaram ao Rio de Janeiro. Durante anos, ouvimos que aqueles eventos transformariam o país. Falou-se incessantemente de infraestrutura, modernização e desenvolvimento. Sobretudo, o noticiário foi dominado por uma palavra quase obrigatória em discursos oficiais: legado. O legado mostrou-se bem diferente do prometido.
Anfitrião da Copa de 2014, o Brasil consumiu bilhões na construção e reforma de estádios, alguns deles localizados em cidades sem demanda esportiva capaz de justificar arenas com tamanho porte. Oficialmente, foram investidos cerca de R$ 8,3 bilhões (algo em torno de US$ 3,6 bilhões na época) em doze arenas — cinco novas e sete reformadas. A maior parte desse dinheiro saiu dos cofres públicos: governos estaduais, prefeituras e financiamentos do BNDES. A participação privada ficou em torno de apenas 7%.
O Estádio Mané Garrincha, em Brasília, tornou-se um dos símbolos mais evidentes desse desperdício. Construído em uma cidade sem um grande clube de futebol, seu custo disparou. A previsão inicial era de cerca de R$ 700 milhões. O valor oficial chegou a R$ 1,4 bilhão. Auditorias posteriores apontaram indícios de superfaturamento e elevaram o montante final para perto de R$ 2 bilhões. Quase três vezes a estimativa original — quase tudo financiado por recursos públicos.
O problema não foi a realização de uma Copa do Mundo no Brasil. Um país apaixonado por futebol merece celebrar a chance de sediar o maior torneio do esporte associado à própria identidade nacional. O problema foi o modelo adotado para organizar o evento.
No Brasil, esse modelo consiste em construir. Construir muito, construir caro e construir com dinheiro público — portas escancaradas para desvios e roubalheira. Como se a grandeza do evento precisasse ser demonstrada pela quantidade de concreto, pelo número de obras e pelo tamanho das cifras. O pagador de impostos financia o espetáculo antes mesmo de comprar o ingresso. Quando as câmeras desaparecem, surge outra pergunta: o que fazer com tudo aquilo?
Dois anos mais tarde, os Jogos Olímpicos do Rio provocaram a mesma discussão. Novamente, o país ouviu promessas de transformação urbana e de um legado que deslumbraria várias gerações. Grandes estruturas foram erguidas para atender às necessidades temporárias de um evento esportivo extraordinário. Mais uma vez, ao entusiasmo seguiram-se problemas de manutenção, instalações subutilizadas, dificuldades financeiras e investigações envolvendo corrupção e gastos públicos abusivos. A promessa de transformação colidiu com a realidade de um país que atravessava uma profunda crise econômica e política.
É impossível olhar para essa experiência sem compará-la ao que os Estados Unidos acabaram de mostrar ao mundo nas últimas semanas.
A Copa de 2026 foi promovida por um país que já possuía infraestrutura esportiva suficiente. Os estádios não precisaram ser inventados. Eles já existiam e eram usados. São casas de franquias da NFL, palcos de grandes jogos, shows e eventos que movimentam bilhões de dólares durante todo o ano.
A final foi disputada numa arena que não nasceu para a Copa e nem será desnecessária depois. Passado o torneio, a vida simplesmente continua. Essa é a diferença fundamental entre os dois modelos.
O Brasil construiu e depois tentou descobrir o que fazer com o que havia construído. Os Estados Unidos usaram estruturas que já existiam. Não é a primeira vez que os EUA oferecem essa lição. Em 1984, Los Angeles recebeu os Jogos Olímpicos num momento singular da história americana.
O presidente Ronald Reagan conduzia uma administração marcada pela defesa da iniciativa privada, pela redução do peso do governo na economia e pela recuperação da confiança na capacidade dos próprios americanos de produzir, empreender e organizar. Os Jogos não foram uma obra da administração Reagan. A organização coube ao comitê liderado por Peter Ueberroth. Mas o modelo adotado em Los Angeles dialogou claramente com o espírito daquela América. Depois dos enormes prejuízos colecionados por edições anteriores do evento, poucas cidades se animaram a assumir o risco financeiro de uma Olimpíada. Los Angeles resolveu percorrer outro caminho.
Em vez de transformar o evento numa gigantesca operação estatal, utilizou instalações que já existiam, apostou em contratos de televisão, patrocínios privados e numa nova estratégia comercial que se tornaria referência para o movimento olímpico. Universidades se transformaram em alojamentos. Nenhuma Vila Olímpica foi construída, nenhum centavo de dinheiro público foi jogado fora.
O resultado foi extraordinário. Em vez de uma montanha de dívidas, Los Angeles 1984 produziu um superávit financeiro de US$ 233 milhões. Parte desse dinheiro deu origem ao patrimônio que permitiu a criação da LA84 Foundation, organização que começou a operar em 1985 e que, mais de quatro décadas depois, continua financiando programas esportivos para crianças e jovens no sul da Califórnia. A fundação já investiu centenas de milhões de dólares e mantém um patrimônio robusto. Isso é legado. O evento terminou, mas o dinheiro seguiu produzindo efeitos
Quarenta e quatro anos depois, Los Angeles abrigará a Olimpíada de 2028. A cidade dispõe de uma infraestrutura esportiva extraordinária. Os organizadores do evento avisaram que não são necessárias novas edificações. O doloroso contraste com o Brasil não é inevitável. Temos clubes centenários, torcidas apaixonadas, atletas extraordinários e uma população capaz de transformar qualquer competição internacional em festa inesquecível.
O que nos falta é respeito pelo dinheiro do pagador de impostos. Dinheiro público não nasce nos cofres do governo. Resulta do trabalho de pessoas. Sai do salário do trabalhador, do esforço do empresário, da produção de quem acorda cedo todos os dias e entrega parte do que ganhou ao Estado. Esses recursos deveriam ser administrados com responsabilidade. Não são, avisam os bilhões desperdiçados em obras mal planejadas, superfaturadas ou sem utilidade permanente. Essa é uma das maiores lições que a Copa nos deixa.
O legado real de um grande evento não pode ser avaliado no dia da abertura. Só começa a ser medida no dia seguinte ao desfile de despedida. Los Angeles mostrou em 1984 que uma Olimpíada podia terminar com dinheiro em caixa e um fundo capaz de beneficiar sucessivas gerações. A América reafirmou, nesta Copa, que uma infraestrutura existe não para atender às necessidades de algumas semanas, mas para servir à sociedade por muitas décadas.
Países enxergam legados num punhado de elefantes brancos. Outros preservam o que realmente importa. Essa é mais uma lição americana que o Brasil teima em não aprender.
Ana Paula Henkel - Revista Oeste