sexta-feira, 17 de julho de 2026

Adalberto Piotto e 'O desprezo der Lula pelos brasileiros'

 As novas tarifas aplicadas pelos EUA e as compras mais caras nos supermercados mostram que o presidente não está nem aí para o país. Só governa para ele 



Presidente Lula fala com repórteres após reunião na Casa Branca com o presidente dos EUA, Donald Trump, na Embaixada do Brasil em Washington, DC, EUA (07/05/2026) -  Foto: Reuters/Elizabeth Frantz


Na quinta-feira, 16 de julho, o Brasil acordou com a realidade de uma nova tarifa do governo norte-americano sobre as exportações nacionais. Em que pese o fato de haver várias exceções como suco de laranja, carne bovina, café, peças de aviões, petróleo e celulose, ainda assim a tarifa de 25% sobre as exportações brasileiras pode atingir mais de 40% de tudo o que vendemos aos Estados Unidos. E atinge sobretudo produtos manufaturados industriais, de maior valor agregado. Isso significa atingir a indústria nacional, a parte que mostrou competência para se inserir na cadeia produtiva americana e que paga melhores salários aqui no país. 

Não por acaso, a nota da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo é dura e aponta o dedo para o governo Lula. O trecho a seguir revela o desprezo de Lula em defender os negócios e os empregos brasileiros porque aposta em supostos ganhos eleitorais. 

“Em um momento de extrema sensibilidade econômica mundial, a opção do governo brasileiro por ruídos diplomáticos desnecessários, críticas personalistas, discursos eleitorais e desalinhamento político com Washington acabou por minar vínculos construídos ao longo de mais de 200 anos de cooperação bilateral.” 

O comunicado, que ainda reclama da falta de uma condução diplomática técnica e pragmática por parte do governo federal, expõe o ambiente deteriorado da economia brasileira sob Lula numa declaração do próprio presidente da entidade, Paulo Skaf: 

“O mercado norte-americano é o principal destino de produtos brasileiros de alto valor agregado. Esse novo pedágio’ imposto às exportações se soma à crônica realidade enfrentada pelas nossas empresas, que convivem com alta carga tributária e com as taxas de juros reais mais elevadas do mundo, entre outros desafios”. 

Em um post na plataforma X, o secretário de Estado Marco Rubio, outro a quem o presidente brasileiro se dedica a desdenhar com a verborragia inconsequente de sempre, disse que “o presidente Lula e seu governo não negociaram com os EUA de boa-fé”. Mais adiante, disse que “Lula colocou seu próprio ego à frente de fazer um acordo pelo bem-estar do povo brasileiro”. 

O segundo homem mais importante da maior economia do planeta, que compra quase US$ 4 trilhões do mundo, entendeu o Brasil e chegou à mesma conclusão que maioria dos brasileiros. Segundo a pesquisa Quaest divulgada na última quarta-feira, o instituto que quase sempre traz levantamentos favoráveis ao governo, desta vez demonstrou que 51% dos entrevistados dizem que Lula não merece um novo mandato. 

Esse número é bem maior que isso, sabemos. Assim como não para em pé que a mesma pesquisa tenha trazido um aumento na diferença das intenções de voto no segundo turno a favor de Lula de 8 pontos em relação a Flávio Bolsonaro.

No dia anterior, a Futura/Apex mostrava empate técnico com diferença de 0,2 ponto percentual a favor de Lula numa simulação de segundo turno. Nesta quinta, o PoderData mostrou que ambos estão em empate técnico com diferença de apenas 2 pontos. 

Não existe eleição ganha de véspera. E desta vez é bem improvável que a tarifa americana gere dividendos eleitorais ao governo. Fadiga de narrativa cansada. Não cola mais. Até porque a conta do supermercado grita. Na lista de produtos da cesta básica, tomate, cenoura e batatainglesa mais que dobraram de preço entre janeiro e junho deste ano. Feijão (+52,8%) e leite (+22%) são outros exemplos. Quem teve aumentos salariais nessa proporção? Embora a inflação oficial de 4,64% registrada pelo IPCA de junho (bem acima do teto da meta) seja uma média ponderada de vários produtos, alimentação é o que mais pesa no orçamento doméstico dos mais pobres. 

Apesar do sofrimento de quem mais precisa que a economia funcione de fato, gerando renda e mantendo estabilidade de preços, Lula faz de conta que esse Brasil não existe e vive obcecado com a eleição de outubro em um projeto de poder que atropela tudo o que vê pela frente. Da ética ao bom senso e da necessidade de governar à obrigação de fazer diplomacia pragmática, nada resiste ao desastre institucional do terceiro mandato do petista. Lula é ele e só. Às favas com o país e os brasileiros que trabalham. O populismo de programas sociais ineficientes que aumentam a pobreza é método. O gasto irresponsável do dinheiro do pagador de impostos, um mero meio para se manter no poder.

Em consórcio com o Supremo Tribunal Federal, que acossa e mantém sob controle os dois presidentes do Congresso, estabeleceu uma ditadura tipo jabuticaba e sabor democracia. Mas democracia não tem meio termo: ou é ou não é. E não temos sido desde, é sempre necessário lembrar, a instalação do malfadado inquérito 4.781, aquele de 2019, os das Fake News, que já dura mais de sete anos e não tem fim. É o “do Fim do Mundo”, como apelidou o então ministro Marco Aurélio Mello, espantado com tantos abusos e ilegalidades. Absurdos que fizeram Alexandre de Moraes se tornar o ministro superpoderoso e incontrolável que acaba de proibir Flávio Bolsonaro de visitar o pai até o fim do primeiro turno.



Gilmar Mendes, Alexandre de Moraes, Luiz Inácio Lula da Silva e Paulo Gonet, em solenidade comemorativa ao Dia do Soldado, em 2024, Brasília - Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil 


É nesse ponto que o Brasil está. Como um governo que é fonte dos maiores escândalos de corrupção, que promoveu o maior retrocesso institucional de nossa história, e se beneficia dele, sobretudo com perseguições à oposição, ainda se mantém? Justamente porque a sociedade que deveria reagir não o fez na medida e quando deveria ter feito. 

À exceção da parte que tira enorme proveito desse absurdo estado de coisas — como o lulismo e seus puxadinhos nos Três Poderes, nas entidades de classe, na mídia e nas universidades, porque ganha dinheiro com isso —, a outra parte da sociedade precisa reagir, porque é quem paga a conta. A nota da Fiesp é um alento diante disso tudo. De histórico poder político e participação no debate nacional, ficou inerte por anos durante o pífio mandato de Josué Gomes, filho de José Alencar, o vice de Lula nos dois primeiros mandatos.

Antes, ainda sob a gestão de Paulo Skaf, a Fiesp colocou um pato inflável gigante em frente à sede da entidade na Avenida Paulista, a mais importante do país, em protesto contra o aumento da carga tributária e o desgoverno de Dilma, que endividava o país com gastos descontrolados fora do orçamento, tal como Lula repete agora. O ano era 2016 e se tornou símbolo do impeachment da ex-presidente.

Falei disso outro dia. É preciso que mais gente fale. A nota de agora da Federação das Indústrias de São Paulo, novamente sob o comando de Skaf, não é ainda um novo pato, mas dá sinais de que a sociedade organizada começa a reagir à destruição dos valores nacionais: a democracia e a estabilidade econômica, o compromisso com a lisura pública — catapultada pela Operação Lava Jato — e a diplomacia técnica e de sucesso que marcou o Itamaraty até a chegada do PT ao poder. Na seara econômica, há números e evidências de que o Brasil precisa reagir ao buraco que ameaça o futuro de todos. 

Os números podem ser relativizados, até manipulados por análises tortas. A realidade, não. Segundo dados do próprio governo aferidos pelo CadÚnico, a população de rua praticamente dobrou nos três anos e meio deste terceiro mandato de Lula. Saiu de 198 mil, em dezembro de 2022, para 392 mil, em junho deste ano. Um aumento de 97,4% de cidadãos brasileiros transformados em zumbis sociais por falta de crescimento econômico real. 

Como pode a taxa de desemprego estar em seu patamar mais baixo? Que medição é essa? O desalento está visível nas ruas, assim como 50 milhões de brasileiros dependem do Bolsa Família, o maior programa social do país, que se transformou em mero assistencialismo porque não tem porta de saída. Programa social que gera dependência eterna é cabresto eleitoral. Fato é que os números do IBGE mostram um dado. Seus olhos, a vida real. Não existe programa social ou de mitigação de pobreza mais eficiente que emprego.

E para se ter emprego é preciso um ambiente saudável para investir e democracia de verdade. Com a maior taxa real de juros do mundo — porque Lula promove uma bomba fiscal que vai explodir ainda este ano ou no colo do próximo presidente, e insegurança jurídica monstruosa somada a uma das maiores cargas tributárias do planeta —, o governo impede a recuperação econômica. Crédito caro e escasso, por causa dos juros altos e porque o governo suga a poupança nacional para financiar seus próprios déficits, afasta investidores e reduz o investimento privado, justamente o que geraria receita saudável e empregos.


Trump e Lula se reúnem à margem da 47ª cúpula da Associação das Nações do Sudeste Asiático (Asean) em Kuala Lumpur, Malásia – 26/10/2025 - Foto: Evelyn Hockstein/Reuters

Ao não negociar com os Estados Unidos por picuinha eleitoreira, Lula coloca em risco os empregos formais e bem pagos das indústrias exportadoras. Os empregos dos brasileiros. Até porque, sufocados no Brasil pela sanha arrecadatória de Lula e de seu ex-ministro da Fazenda, Fernando Haddad, cada vez mais empresários estão se mudando para o Paraguai e gerando empregos lá. 

O que antes era mera expansão dos negócios, algo normal no setor, tem se revelado busca pela sobrevivência. Cerca de 70% das empresas inseridas no regime de Maquila — tributação menor e simplificada, mão de obra mais acessível e com menos impostos e custo de energia 60% menor — são brasileiras. A tarifa dos Estados Unidos é só um lado da moeda. A China, aliada comunista do governo Lula, impôs cota de exportação para a carne brasileira para proteger seu mercado interno. Na ausência de pragmatismo e diplomacia apartidária, e com o fim da cota já em julho, os produtores brasileiros viram a tarifa de 12% ser elevada para 67%. 

Os Estados Unidos, uma nação democrática, esperaram o Brasil para negociação desde o primeiro tarifaço em abril de 2025, quando o mundo todo foi atingido. Enquanto diplomatas e negociadores da Europa, das Américas e da Ásia faziam check-in em hotéis de Washington, esperando para negociar com a Casa Branca, Lula desdenhou e preferiu o palanque interno. Mesmo agora, com a investigação da Seção 301, que resultou na tarifa de 25%, quando era possível negociar novamente, o governo brasileiro abdicou de defender a indústria nacional. De novo, apostou no confronto de um falastrão só vagando pelo país em cerimônias com plateias amestradas. 

A diferença no caso das exportações de carne para a China é reveladora. Pequim, capital de uma ditadura de esquerda, simplesmente aumentou alíquotas unilateralmente. E Lula continuou falando muito e fazendo nada. Sem um aceno de atuação mais eficiente do governo federal, frigoríficos já diminuíram os abates. Perdem os exportadores, perde a balança comercial, perdem os trabalhadores e perde o país.

Mas Lula quer ganhar a eleição de outubro. Depende dos brasileiros. De cada um.


Adalberto Piotto - Revista Oeste