sexta-feira, 17 de julho de 2026

Augusto Nunes: 'É hora de criar juízo'

 Monumento à insensatez: três antipetistas disputam duas vagas no Senado 


Luiz Marinho, Alexandre Padilha, José Dirceu e Aloizio Mercadante, da esquerda para a direita - Foto: Montagem Revista Oeste/Agência Brasil 


Aberto por Lula em 1982, o desfile dos companheiros que disputaram o governo de São Paulo informa que, no principal Estado da federação, o Partido dos Trabalhadores não lança candidatos; lança ameaças. A passagem do bloco formado por 10 perigos confirma a sensatez do eleitorado residente em território paulista. Além de Lula, foram impedidos de homiziar-se no Palácio dos Bandeirantes Plínio de Arruda Sampaio, Eduardo Suplicy, José Dirceu, Marta Suplicy, José Genoíno, Aloizio Mercadante, Luiz Marinho, Alexandre Padilha e Fernando Haddad. Parece chamada no pátio do presídio para verificar se alguém fugiu.

Por determinação do presidente da República (e único deus da seita disfarçada de partido), Haddad deixou o Ministério da Fazenda para reprisar o fiasco ocorrido há quatro anos. Vai igualar-se a Mercadante, até agora o único a naufragar em duas eleições sucessivas. Em 2022, Haddad conseguiu arrastar-se até o segundo turno, quando foi massacrado por Tarcísio de Freitas, vencedor da primeira rodada. Nas duas etapas da campanha, Haddad apostou todas as fichas na certidão de nascimento: não poderia governar São Paulo um carioca que transferira seu domicílio eleitoral poucos meses antes. O argumento foi pulverizado pelo apoio do presidente Jair Bolsonaro e pelo desempenho de Tarcísio no comando do Ministério da Infraestrutura


Eduardo Suplicy e Marta Suplicy foram candidatos ao governo de São Paulo - Foto: Montagem/Pedro França/Moreira Mariz/Agência Senado

Passados quatro anos, o governador eleito pelo que fizera em vários pontos do Brasil será reeleito — com o apoio de Bolsonaro — pelo que fez na mais desenvolvida unidade da federação. Pelo andar da carruagem, a disputa vai encerrar-se já no primeiro turno. Graças às obras executadas ou em trabalhos de parto, São Paulo está com cara de Estado americano. Ao rejeitar a candidatura à Presidência, o grande administrador esbanjou talento político. Fora do páreo, livrou-se do fogo amigo e livrará São Paulo de outra ameaça lançada pelo PT. Em 2030, vai confirmar que um segundo mandato é mesmo, neste momento, a mais segura das rotas que levam ao Palácio do Planalto. 

Ironicamente, Haddad vai travar o segundo duelo em companhia de duas forasteiras em busca de uma vaga no Senado. Marina Silva nasceu num seringal do Acre e começou a vida política na Câmara dos Vereadores de Rio Branco. Fantasiada de Madre Marina da Floresta, foi senadora e disputou duas vezes a Presidência da República. Simone Tebet nasceu em Três Lagoas, no interior de Mato Grosso do Sul. Foi prefeita, deputada estadual, senadora e, em 2022, candidata à Presidência. Antes de dezembro de 2023, ambas louvaram a Operação Lava Jato e afirmaram mais de uma vez que Lula é corrupto. Esqueceram o que disseram no momento em que o presidente eleito lhes ofertou uma vaga no ministério.

São Paulo costuma acolher com generosidade brasileiros oriundos de outros Estados que decidem começar a carreira política no maior colégio eleitoral do país. Foi assim, por exemplo, com Washington Luiz (o “paulista de Macaé”), com o mato-grossense Jânio Quadros, com o carioca Fernando Henrique Cardoso, com o pernambucano Lula e com Tarcísio de Freitas. Mas São Paulo é pouco receptivo quando alguém muda de endereço para escapar da derrota onde nasceu politicamente. 

O palavrório sobre a Revolução de 1932 avisa que Simone não se livraria de um zero com louvor caso tivesse de escrever 20 linhas sobre qualquer episódio relevante da história de São Paulo. Marina até conseguiu elegerse deputada federal, mas não iria além disso mesmo se descobrisse que Campinas fica mais perto de Jundiaí que de Fortaleza. 

A dupla estaria condenada ao naufrágio pilotado por Haddad se os eleitores decididos a manter Tarcísio no cargo não fossem confrontados Fundação Padre Anchieta é parcialmente ou totalmente … com um monumento ao amadorismo político. Como sabe até o gramado da Praça dos Três Poderes, não existe segundo turno na eleição dos senadores. Em outubro, cada Estado preencherá duas vagas, e todo eleitor poderá votar em dois candidatos. Os devotos de Lula obedecerão à ordem da divindade de botequim: apoiarão Marina e Simone. 

A maioria liberal-conservadora distribuirá seus votos por três candidatos: Guilherme Derrite (PP), Ricardo Sales (Novo) e André do Prado (PL). Todas as pesquisas de intenção de voto vêm avisando que essa divisão absurda poderá resultar na vitória da indecente dobradinha concebida por Lula. Nessa hipótese, o Brasil que pensa e presta perderá duas cadeiras, e terá de enfrentar os alcolumbres e calheiros sem o apoio dos dois novos representantes de São Paulo. 

Tanto os candidatos quanto seus padrinhos precisam ser menos ambiciosos, menos açodados — e mais compassivos com o povo brasileiro. Também para a insensatez existem limites. Estão faltando adultos na sala. 

É hora de criar juízo.


Fernando Haddad, ex-ministro da Fazenda e o presidente Lula = Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil 


Augusto Nunes - Revista Oeste