sexta-feira, 28 de fevereiro de 2025

'Ele está de volta… e, ainda, está aqui', por Tiago Pavinatto

A comovente história real levada ao cinema vem sendo utilizada, no Brasil e no mundo, como peça de propaganda em favor das medidas de exceção adotadas por Alexandre de Moraes


O ministro do STF Alexandre de Moraes e a atriz Fernanda Torres, indicada ao Oscar de Melhor Atriz | Foto: Montagem Revista Oeste/Shutterstock 

A lfred Theodor Paul Riefenstahl era um empresário do ramo de calefação muito bem-sucedido, mas preocupado com a continuidade de seu legado. Apesar de todo o incentivo, não conseguiu fazer da sua filha mais velha, Helene, a sucessora com que tanto sonhava. A bela Helene Bertha Amalie queria ser bailarina, mas uma lesão no joelho a levou para o cinema. Os filmes e documentários de Leni, já aclamada cineasta, foram propagados, com entusiasmo sem precedentes, pelo mandatário maior da Alemanha a partir de 1933. Premiada na França, na Suécia e nos Estados Unidos, sua obra de maior sucesso, Triumph des Willens (Triunfo da Vontade), foi lançada em 1935. 



Noventa anos mais tarde, no Brasil, com uma premiação nos Estados Unidos, onde também foi indicado ao Oscar, Ainda Estou Aqui parece ter se tornado o magnum opus do cineasta brasileiro Walter Moreira Salles Júnior, o bilionário herdeiro do famoso banqueiro, empresário, diplomata e advogado Walther Moreira Salles, que fez do filho (“legítimo”) mais velho, Pedro, o seu sucessor. Aclamado mundialmente, o referido filme de Walter Salles vem sendo propagado pelo presidente Lula, que chegou a exibi-lo no Palácio da Alvorada em uma sessão na última segunda-feira, 24 de fevereiro, com a presença de próceres da República brasileira.




De fato, a comovente história real levada ao cinema vem sendo utilizada, no Brasil e no mundo, como peça de propaganda em favor não apenas do controverso presidente brasileiro, mas também das medidas de exceção adotadas pelo ministro Alexandre de Moraes, métodos estranhos ao Direito avalizados por seus colegas do Supremo Tribunal Federal (STF). 

Em entrevista concedida a Christiane Amanpour, da CNN americana, o bilionário Walter Salles afiança a perseguição política contra a direita brasileira e seu líder Jair Bolsonaro quando confessa ter feito “um filme para os dias atuais, e não apenas um filme voltado para o passado da ditadura brasileira”.

\


O bilionário, nessa oportunidade, exaltou o triunfo da vontade brasileira com os seguintes argumentos, tão verídicos quanto aqueles outrora empregados por sua colega de profissão alemã:

“Durante quatro anos, o país virou para a extrema direita e nunca teríamos tido a possibilidade de filmar durante esse período. Portanto, o filme é produto do retorno da democracia ao Brasil. É realmente interessante o presidente Lula. E é realmente seu retorno à Presidência, e o retorno da democracia, que permitiu que o filme existisse. Filmamos, em 2023, sem ter a menor ideia de que tinha havido uma tentativa fracassada de golpe de Estado.” 

No próximo domingo, 2 de março (mês no qual Triumph des Willens completa 90 anos), Ainda Estou Aqui concorrerá ao Oscar na mesma categoria à qual um filme alemão foi indicado há 19 edições, isto é, em 2006: Sophie Scholl — Die letzten Tage (“Sophie Scholl — Os Últimos Dias”, disponibilizado no Brasil em plataforma de streaming sob o título Uma Mulher Contra Hitler).




Diferentemente dos herdeiros Leni e Walter, o diretor Marc Rothemund levou às telas um registro histórico dos últimos dias da jovem alemã Sophie Scholl, única mulher a integrar um grupo de resistência aos nazistas em Munique e uma das poucas mulheres da Alemanha a lutarem ativamente contra o regime de Hitler. O filme retrata o intenso, ininterrupto e cruel interrogatório ao qual Sophie — presa com o seu irmão, Hans Scholl, pela Gestapo em 1943 — foi submetida dias a fio para que revelasse os membros e os planos do movimento golpista Rosa Branca. Ao final, “condenada” por traição, foi guilhotinada em 22 de fevereiro de 1943. 

O fidedigno conteúdo dessa atrocidade nazista foi registrado pelo roteiro de Fred Breinersdorfer nos diálogos do infindável e exaustivo interrogatório dramatizado nesse filme. Sophie fora detida em flagrante ato criminoso de disseminar panfletos com conteúdo de ódio a Hitler e notícias “falsas” com o intuito de desmoralizar e deslegitimar as políticas e estratégias militares do Terceiro Reich, e à sua resistência em delatar seus camaradas contrapõem-se as provas obtidas pela devassa da sua vida privada promovida pela investigação que corria simultaneamente ao interrogatório: a mala vazia de Sophie, cujo formato e volume coincidiam, exatamente, com a extensão das duas pilhas de papel que compunham o total de panfletos reproduzidos, espalhados na Universidade de Munique e prontamente recolhidos pela Gestapo; cartas manuscritas; digitais em equipamentos de reprografia; “confissões” de amigos também presos para esclarecimentos; a compra de 10 mil folhas de papel; e, por fim, ter sido vista, certa feita, riscando uma suástica em praça pública. 

Sophie resistiu até o momento no qual seu inquisidor a advertiu de que tamanha relutância em “colaborar” com o regime nazista poderia trazer consequências contra seu pai e sua mãe.


Tudo indica que o bilionário Walter Salles está errado: não é o indicado ao Oscar de Melhor Filme Internacional deste ano que fala “para os dias atuais” do brasileiro, mas, em verdade, aquele filme indicado há 19 anos. 


Ora! Quem — em sã consciência e desde que seja honesto — será incapaz de correlacionar os crimes que condenaram à morte a jovem alemã com a banalização da criminalização de discursos e opiniões críticas contra autoridades brasileiras (em especial aquelas do Poder Judiciário) a título de discurso de ódio, tentativa de abolir o Estado Democrático de Direito ou de golpe em geral por “deslegitimar” ações oficiais, conforme os argumentos explicitados e repetidos à exaustão tanto por ministros do STF quanto por membros do Ministério Público Federal e da Advocacia-Geral da União? 

Entre a Rosa Branca e o Verde-Amarelo, quem, diante do interrogatório infindável promovido pela Gestapo contra a prisioneira Sophie Scholl, não é capaz de lembrar do preso Mauro Cid que, depois de interrogado pela Polícia Federal por 33 horas em quatro sessões, “resolveu” delatar? 

Quem, diante da revelação dos investigadores nazistas sobre a criminosa compra de 10 mil folhas de papel para impressões que visavam a derrubar o legítimo Reich, não vai se lembrar da revelação das mensagens de Cid que versavam sobre R$ 100 mil para alimentar brasileiros desarmados para derrubar o legítimo governo Lula? 

Quem, diante da grave acusação criminal contra aquela mulher alemã por ter riscado uma suástica em praça pública, não é capaz de enxergar a perversidade na atribuição de “alta periculosidade” feita por Alexandre de Moraes a Débora Rodrigues dos Santos, uma mulher brasileira que rabiscou com batom a estátua da Justiça na Praça dos Três Poderes? 


Estátua da Justiça, em frente ao Supremo Tribunal Federal | Foto: Joedson Alvez/Agência Brasil

E quem será capaz de negar que, tal como Sophie Scholl, Mauro Cid somente passou a responder “satisfatoriamente” às perguntas de Moraes depois que ele o advertira sobre as possíveis consequências contra seu pai, sua esposa e sua filha?



Er Ist Wieder Da (Ele Está de Volta) é o título do primeiro e tragicômico romance de Timur Vermes, ex-ghostwriter nascido em Nuremberg. Traduzido em 41 idiomas, o livro publicado em 2012 na Alemanha vendeu, em dois anos, quase 1 milhão e meio de cópias. Transportado à tela dos cinemas em 2015 e disponibilizado ao mundo pela Netflix no ano seguinte, Ele Está de Volta narra a ressurreição (ou o despertar de um sono de 66 anos) de Adolf Hitler em um terreno baldio de Berlim no ano de 2011 e, tornado um estrondoso sucesso nos humorísticos da TV, sua nova ascensão política.




A sátira ficcional da ascensão “democrática” de Hitler na Alemanha do século 21 parece ter perdido tanto a graça quanto a fantasia no Brasil atual. Ao que parece, pois os fatos públicos e notórios assim o comprovam, ele está de volta… e, ainda, está aqui!


Tiago Pavinatto - Revista Oeste