segunda-feira, 7 de maio de 2018

López Obrador lidera pesquisas para Presidência do México, mas enfrenta conservadores


Terceira tentativa. López Obrador concorreu em 2006 e 2012, mas nas duas eleições perdeu fôlego ao longo da campanha; agora, está conseguindo manter a dianteira - CARLOS JASSO / REUTERS

Henrique Gomes Batista, O Globo


WASHINGTON - Com pouco mais de um mês de campanha, e a menos de dois meses da eleição presidencial mexicana de 1º de julho, o candidato de esquerda Andrés Manuel López Obrador, conhecido como AMLO (das iniciais do seu nome), consolida sua liderança: tem 48% dos votos úteis, segundo a última pesquisa do jornal “Reforma”. O favoritismo de AMLO, considerado populista e demagogo por boa parte da elite mexicana, já leva seus rivais a se movimentarem por uma aliança, transformando a eleição em um referendo sobre o ex-chefe do governo do Distrito Federal, onde está a Cidade do México.
— Os mexicanos querem mudanças, algo diferente, e veem em AMLO alguém que pode trazer essa ruptura — disse Katherine Pereira, especialista em México do centro de estudos Atlantic Council, de Washington. — Todos os demais candidatos estão tentando desconstruí-lo.

O fim do monopólio de 70 anos do Partido Revolucionário Institucional (PRI) na Presidência mexicana, em 2000, levou o conservador PAN (Partido da Ação Nacional) ao governo por dois mandatos consecutivos. Em 2012, com a eleição de Enrique Peña Nieto, os eleitores levaram a velha legenda hegemônica de volta ao poder. Mas a escalada da violência, a ampliação da desigualdade com as reformas econômicas recentes e denúncias de corrupção reforçaram o movimento contra os políticos tradicionais, principal mensagem de López Obrador.

— Ele conseguiu criar bandeiras. Transformou o projeto de construção de um novo aeroporto na Cidade do México em um símbolo da velha política, da burocracia e da corrupção, em um país onde a maioria da população nunca viajou de avião — exemplifica Carlos Bravo Regidor, professor do Centro de Pesquisa Econômica e Ensino (Cide, na sigla em espanhol).

Com a campanha oficialmente nas ruas desde 30 de abril, AMLO tem conseguido manter a fidelidade de seus eleitores, mesmo após os ataques que sofreu no primeiro debate entre candidatos. Renovou promessas genéricas, ao mesmo tempo em que tenta convencer a classe média, o setor financeiro e o empresariado de que não será um “bicho-papão” da esquerda, lembrando que não piorou o ambiente de negócios quando governou a capital. Costuma criticar o regime de Nicolás Maduro na Venezuela com a mesma energia que direciona a Donald Trump por seus discursos contra a imigração mexicana.

UM RIVAL SOBRESSAI

Do lado dos seus adversários, o primeiro mês de campanha serviu para consolidar o segundo nome nas pesquisas: Ricardo Anaya. O jovem advogado, oriundo do PAN e aliado a forças moderadas de esquerda, conseguiu vestir a capa de “anti-AMLO” e, nas pesquisas, tomou distância de José Antonio Meade, do governista PRI. Com um discurso anticorrupção, Anaya também se vende como uma “mudança política” e prometeu prender Peña Nieto caso conquiste o poder. No entanto, um vídeo recente em que admite a possibilidade de negociar uma aliança com o atual presidente arranhou sua imagem, e reforçou a mensagem de López Obrador de que ele é o único candidato diferente de fato nesta eleição.

— A reação de Anaya tem sido oposta à de AMLO: enquanto este tenta passar uma mensagem de moderado, Anaya faz uma promessa por dia, aproximando-o de uma figura populista. Ele defendeu uma renda básica universal para todos os mexicanos como forma de combater a miséria, e isso o tornou popular principalmente entre as mulheres que chefiam famílias — disse Khaterine, do Atlantic Council. — Mas o que vemos até agora é uma migração dos votos de Meade e dos independentes para Anaya, não uma redução significativa da liderança de López Obrador.

As forças políticas do entorno de Meade já falam abertamente em “voto útil” em Anaya. Como no México não há segundo turno, a divisão de um campo político em muitos candidatos pode ser fatal. Mas a dianteira de AMLO dificulta a eficácia dessa estratégia e pode reforçar o argumento de que os dois partidos tradicionais, outrora rivais, estão se unindo contra ele. Dois candidatos que se apresentam como independentes não empolgaram os mexicanos: a ex-primeira-dama Margarita Zavala e o ex-governador Jaime “El Bronco” Rodríguez.

Ainda haverá dois debates entre presidenciáveis até 1º de julho, mas, caso os outros candidatos não ganhem fôlego, a participação eleitoral pode ser chave para a vitória de López Obrador. O risco que ele corre é de uma desmobilização de seu eleitorado, que pode confiar demais no clima de “já ganhou”. Mas a vitória parece cada vez mais provável para um candidato que nos dois pleitos presidenciais anteriores entrou como favorito e foi perdendo fôlego ao longo da campanha.

— AMLO chega com uma vantagem nunca vista, e para muitos mexicanos “este arroz já está cozido” — disse Carlos Bravo Regidor, do Cide.