Lino Rodrigues - O Globo
Agora, associação prevê que produção caia 10% neste ano; antes projeção era de alta de 1,4%
A produção de veículos — caminhões, ônibus e comerciais leves — caiu 23,3% em junho sobre maio no país, informou nesta segunda-feira a Anfavea, que reúne as montadoras. Na comparação com o mesmo mês de 2013, a queda foi ainda maior, de 33%. No acumulado do ano, até junho, o número de veículos que saiu das fábricas encolheu 16,8% ante igual período do ano passado.
A repetição de números negativos desde os primeiros meses do ano levou a Anfavea a revisar para baixo suas previsões para 2014. No início do ano, a entidade previa aumento de 1,4% na produção de veículos. Agora, a projeção é de queda de 10%. Para os licenciamentos, que podem ser lidos como fluxo de vendas, a alta de 1,1% prevista para o ano virou retração de 5,4%.
Ainda assim, Luiz Moan, presidente da Anfavea, espera que os próximos meses sejam melhores. Para a produção no segundo semestre, ele prevê alta de 13,2% na comparação com o primeiro semestre. Para as vendas, Moan prevê a possibilidade de alta de 14,3% entre julho e dezembro. Ele salientou a importância da manutenção da alíquota menor para o Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI) para a inversão do quadro negativo.
— Vamos ter um aumento significativo de agora em diante. Vamos retomar o fluxo normal de vendas neste segundo semestre. Se o IPI tivesse aumentado, o crescimento de 14,3% que prevemos se transformaria numa queda de 10% nas vendas no segundo semestre — afirmou ele, lembrando que o número maior de dias úteis e a sazonalidade também vão ajudar na retomada das vendas no segundo semestre do ano.
O executivo disse ainda que a seletividade e a redução no crédito ainda estão prejudicando as vendas de automóveis no país. Segundo ele, de cada cem pedidos de financiamento, apenas 30 são aprovados pelas financeiras.
O desempenho negativo da indústria do setor também vem reduzindo o número de postos de trabalho nas montadoras e na cadeia automotiva como um todo. Entre janeiro e junho, segundo dados da Anfavea, o nível de emprego foi reduzido em 3,7%, com 5.500 demissões.
BRASIL PERDE LIDERANÇA PARA O MÉXICO
Levantamento preliminar da Força Sindical, que tem vários sindicatos de metalúrgicos filiados em todo o país, aponta que só nos últimos 60 dias as demissões já atingiram mais de dez mil trabalhadores em toda a cadeia automotiva, incluindo-se a dispensa em pequenas e médias empresas de autopeças e fornecedores de equipamentos elétricos e eletrônicos, que estão sofrendo mais com a forte redução nas vendas de automóveis.
Para justificar o benefício da manutenção da alíquota do IPI, a Anfavea apresentou estudo sobre o tamanho da carga tributária que incide sobre os veículos produzidos no país. Em uma simulação levando em conta automóveis flex com motorização ente 1.000 e 2.000 cilindradas, a incidência de impostos (IPI, ICMS, PIS/Cofins e outros tributos “ocultos”) chega a 28% do preço total do carro. O percentual é bem acima dos 18% de um carro vendido na Itália, 7% nos Estados Unidos e 9,9% no Japão.
As dificuldades do setor este ano no país poderão ajudar o México a desbancar o Brasil do posto de maior produtor de automóveis da América Latina. Segundo a consultoria IHS Automotive, a produção das montadoras mexicanas ficou ligeiramente à frente da brasileira nos primeiros cinco meses do ano. Caso a vantagem permaneça até o fim ano, o México ultrapassará o Brasil pela primeira vez desde 2002, quando o a produção nacional teve queda de 41 mil veículos.