A estátua de Manuel Borba Gato foi incendiada em São Paulo. Um dos criminosos foi preso
Em junho de 2020, um dos maiores estadistas de todos os tempos, Winston Churchill teve o monumento em sua homenagem pichado com a frase “Was a racist” (Era um racista) durante um protesto em Londres.

Pouco mais de um ano depois, esse tipo de “cancelamento” chegou ao Brasil. Neste sábado, um grupo de vândalos ateou fogo na estátua de Borba Gato, em Santo Amaro, na zona sul de São Paulo. Sob os gritos de “Chora Borba Gato, fascista”, “Já era” e “derruba”, cerca de 15 pessoas desceram de um caminhão, jogaram pneus próximo ao monumento, acenderam as chamas e fugiram. Em frente ao grupo, uma faixa com a inscrição “Revolução periférica”.
O “crime” cometido pela estátua foi representar o bandeirante paulista Manuel de Borba Gato. Os bandeirantes – entre eles Raposo Tavares, Fernão Dias, Cardoso de Almeida, Anhanguera e outros vários nomes que batizam ruas e rodovias paulistas – foram responsáveis por desbravar o interior do Estado e são acusados de escravizar povos indígenas durante essas incursões.
“O passado nos ensina a construir o futuro”, escreveu o agrônomo e ambientalista Xico Graziano em seu Twitter ao comentar o episódio. “Destruí-lo significa ignorância histórica. Borba Gato era bandeirante, abriu fronteiras. A moral do Sec 21 não serve para julga-lo. Nem ao meu avô. Cada um vive a seu tempo”. Paulo Mathias, apresentador do programa Morning Show, da rádio JovemPan, observou: “Os caras queimam a estátua do Borba Gato e defendem o legado do Che Guevara. Vai entender”.
Um suspeito de participar do incêndio foi preso na madrugada deste domingo 25. Ele foi identificado como sendo o motorista do caminhão que conduziu parte do grupo até local e transportou os pneus em que foram ateados fogo. De acordo com a Polícia Civil, a placa do veículo foi adulterada. As investigações prosseguem para identificar e localizar os demais autores.
Em junho de 2020, Oeste publicou uma reportagem sobre os ataques a estátuas e monumentos pelo mundo organizadas pelos grupos Black Lives Matter (Vidas Negras importam) e Antifas (Anti-fascistas).
Naquele mês, os amantes do cinema, da arte e da liberdade também foram surpreendidos com a notícia de que …E o Vento Levou, considerado há 80 anos um dos maiores filmes da história, havia sido retirado do catálogo da HBO Max por ser qualificado de racista. Tão assustadora quanto a notícia foi a informação de que a decisão havia sido tomada sem que o serviço de streaming tivesse sofrido pressão por parte do público. “Essas representações racistas estavam erradas na época e estão erradas hoje”, explicou a empresa, em comunicado. “Acreditamos que mantê-las sem uma explicação e uma denúncia seria irresponsável”.
Tendo como pano de fundo a Guerra Civil Americana, o filme narra o caso de amor entre Scarlett O’Hara (Vivien Leigh), filha de um proprietário rural, e Rhett Butler (Clark Gable), um charmoso aventureiro. Ironicamente, ao retirar o filme de cartaz sob acusação de racismo, a HBO impediu o público de ver a atuação de Hattie McDaniel, a primeira negra a vencer um Oscar.
Winston Churchill
Churchill teve o monumento em sua homenagem pichado com a frase “Was a racist” (Era um racista) em 7 de junho de 2020. Os manifestantes, que pareciam desconhecer a atuação do ex-primeiro-ministro britânico contra o nazismo durante a 2ª Guerra Mundial, o responsabilizavam por injustiças sofridas por africanos e indianos na época em que eram colônias inglesas. Sob o comando de Adolf Hitler, a Alemanha exterminou 6 milhões de judeus, além de incontáveis poloneses, ciganos, homossexuais e negros de todas as nacionalidades antes de ser derrotada pelos aliados.
“Sim, às vezes ele expressava opiniões que eram e são inaceitáveis para nós hoje, mas ele era um herói e merece esse memorial”, escreveu o primeiro-ministro Boris Johnson, no Twitter. “Não podemos tentar editar ou censurar nosso passado. Não podemos fingir que temos uma história diferente”.
https://twitter.com/DawkinsReturns/status/1269794552325582848
Em 12 de junho, diante da expectativa de novos protestos, a estátua, localizada em frente ao parlamento de Londres, foi coberta com tapumes. Nem isso impediu a ação dos vândalos. No dia seguinte, as tábuas de proteção amanheceram com os dizeres “racist inside” (racista dentro) e “don’t open” (não abra).
Edward Colston
No mesmo 7 de junho, em Bristol, também na Inglaterra, manifestantes usaram cordas para derrubar uma estátua de bronze de Edward Colston e jogá-la em um rio que corta a cidade. Notório traficante de escravos, o comerciante britânico é considerado um benfeitor da cidade por parte da comunidade branca local por ter construído escolas, igrejas e hospitais.
Acionista da Royal Adventures into Africa (RAC), Colston foi responsável por transportar mais de 80.000 africanos para a América, dos quais cerca de 20.000 morreram durante a travessia.
Marvin Rees, prefeito de Bristol, que é negro, afirmou não apoiar “danos criminais”, mas compreendeu a atitude. “Não posso fingir, como filho de um migrante jamaicano, que a presença da estátua de um comerciante de escravos no meio da cidade não fosse uma afronta pessoal a mim e a pessoas como eu”, disse, em entrevista à emissora Sky News.
Cecil Rhodes
Em 9 de junho de 2020, uma pequena multidão se reuniu na Universidade de Oxford, no Reino Unido, para pedir a retirada da estátua de Cecil Rhodes, fundador da antiga colônia britânica da Rodésia, atual Zimbábue.
https://twitter.com/Dlrdrk1/status/1270385841492369408
Robert Milligan
No mesmo dia, a estátua de Robert Milligan também foi depredada. Comerciante de escravos, ele foi um dos fundadores das Docas das Índias Ocidentais, em Londres, companhia que detinha o monopólio da importação de produtos daquela região.

O monumento, que estava em frente ao Museu das Docas, foi retirado pela instituição. “Neste momento em que o movimento Black Lives Matter demanda o fim de monumentos públicos que celebram donos de escravos, a defesa da remoção da estátua de Robert Milligan por sua ligação com a violência colonial e exploração é ainda mais importante”, afirmou a direção, num comunicado. “O museu reconhece que o monumento é parte de um regime problemático maior de embranquecimento da história”.
Matthias William Baldwin
Em 10 de junho do ano passado, a estátua de Matthias William Baldwin, na Filadélfia, foi pichada com as palavras “assassino” e “colonizador”. Importante construtor de locomotivas, Baldwin foi responsável por impulsionar projetos ferroviários em diversos países.
Jefferson Davis
Outro ato de vandalismo ocorrido no dia 10 de junho foi registrado contra a estátua de Jefferson Davis, derrubada em Richmond, no estado da Virgínia, nos Estados Unidos. Davis foi presidente do Exército Confederado, que defendia a manutenção da escravidão na mesma Guerra Civil retratada em …E o Vento Levou.
Rei Leopoldo 2º
Na quinta-feira, 11, uma estátua do Rei Leopoldo 2º, que governou a Bélgica de 1865 a 1909, foi coberta de tinta e incendiada em Bruxelas. Ele é acusado da morte de milhões de africanos durante a colonização do Congo Belga.
Padre António Vieira
Na madrugada do dia 11 de junho e 2020, manifestantes picharam a estátua do Padre António Vieira, instalada no Largo Trindade Coelho, em Lisboa, com a palavra “descoloniza”. Um dos mais influentes jesuítas do século XVII, António Vieira viveu muitos anos no Brasil, onde empenhou-se na catequização dos índios.
Cristóvão Colombo
Um alvo frequente dos manifestantes são as estátuas de Cristóvão Colombo. O navegador genovês, responsável por liderar a frota de europeus que primeiro pisaram na América, em 1492, foi “incendiado e atirado em um lago” em Richmond, “decapitado” em Boston e “derrubado” em Saint Paul, Minnesota.
Para os manifestantes, Colombo simboliza o “genocídio dos povos americanos nativos, além de ser um retrato da violenta colonização europeia no continente”.
Richmond:
Boston:
Saint Paul:
Naquela época, um abaixo-assinado já pedia a retirada da estátua de Borba Gato. “Vejo nas redes sociais um movimento pela derrubada da estátua do bandeirante Borba Gato situada no bairro de Santo Amaro, em SP. Sou contra”, escreveu o jornalista e historiador Laurentino Gomes, no Twitter, em junho de 2020. “Estátuas, prédios, palácios e outros monumentos são parte do patrimônio histórico. Devem ser preservados como objetos de estudo e reflexão”.
Num trecho do livro 1984, George Orwell descreve as ações do governo totalitário sob o comando do Grande Irmão: “Todos os registros foram destruídos ou falsificados, todos os livros foram reescritos, todos os quadros foram repintados, todas as estátuas, todas as ruas, todos os edifícios foram renomeados, todas as datas foram alteradas”. Por sorte, aqueles que hoje buscam censurar o passado, não serão lembrados nem como asteriscos nos livros de história.
Como escreveu J.R. Guzzo num artigo publicado na revista Oeste, “coragem não é enfrentar com risco de vida, como Churchill, a Alemanha nazista e invencível. É censurar …E o Vento Levou”. Ou destruir estátuas.
Branca Nunes, Revista Oeste
