
Janaína Figueiredo - O Globo
Em meio ao escândalo pela descoberta por parte da Justiça do luxuoso patrimônio do empresário Lázaro Báez, amigo e sócio da família Kirchner, preso e investigado por suposta lavagem de dinheiro, o promotor federal Carlos Rívolo ordenou a abertura de um novo processo envolvendo a ex-presidente Cristina Kirchner e seu filho, o deputado Máximo Kirchner, acusados de suposto enriquecimento ilícito e falsificação de documentos públicos. Atualmente, a ex-chefe de Estado está sendo investigada em mais de cinco processos em mãos dos tribunais de Buenos Aires, por denúncias de lavagem de dinheiro, não cumprimento dos deveres de funcionário público e participação numa associação ilícita que provocou prejuízo de cerca de R$ 7 bilhões ao Banco Central do país, entre outros delitos.
Rívolo está atuando no caso Los Sauces, nome de uma das empresas da família Kirchner, que administra alguns de seus hotéis na Patagônia. A denúncia foi apresentada pela deputada e ex-candidata presidencial Margarita Stolbizer, uma das congressistas mais ativas no combate à corrupção. Segundo Margarita, a sociedade Los Sauces foi usada para lavar dinheiro através do aluguem de imóveis que pertencem à ex-família presidencial.
— Os imóveis (dos Kirchner) foram alugados a empresas de Lázaro Báez e Cristóbal López (outro empresário que multiplicou sua fortuna durante os governos Kirchner) — explicou a deputada.
Báez está preso desde o começo de abril passado, por decisão do juiz Sebastián Casanello, encarregado de investigar a chamada "rota do dinheiro K". Nos dois processos, as famílias Báez e Kirchner aparecem relacionadas através de contratos imobiliários que, de acordo com Margarita, "provam claramente as operações de lavagem de dinheiro, que vinha de obras públicas, ou seja, do Estado". Na denúncia, a deputada afirma que nos últimos anos o faturamento do Los Sauces incluiu, unicamente, pagamentos das companhias de Báez e López.
Cabe agora ao juiz Claudio Bonadio, antigo desafeto dos Kirchner e que investiga aliados da ex-presidente em diferentes casos, dar prosseguimento à acusação e exigir depoimento da parte da ex-mandatária. Há poucas semanas, Cristina prestou depoimento a ele, por escrito, no caso sobre supostas irregularidades na venda de dólar futuro no Banco Central. Um de seus assessores jurídicos, o ex-magistrado da Corte Suprema de Justiça, Eugenio Zaffaroni, admitiu que Bonadio provavelmente vai processar a ex-presidente no outro caso.
— Aconselho a Lázaro e a Martín (seu filho, também investigado) que falem o que sabem e colaborem. A relação entre Lázaro e Cristina depois da morte de Néstor está demonstrada, porque ela não fez o que devia: acabar con os negócios. Teve atitude de encobrimento — disse Fariña, sob proteção policial, numa prévia de entrevista ao "Clarín". — Roubaram o PIB de um ano, mais de US$ 100 bilhões.
EM BUSCA DE REAÇÃO NAS RUAS E URNAS
O cerco judicial da Cristina é cada vez maior. Depois de ter passado vários dias na capital argentina participando de reuniões com parlamentares e aliados políticos, a ex-presidente voltou a refugiar-se na província de Santa Cruz. Através de alguns de seus colaboradores, a ex-chefe de Estado manifestou sua satisfação pela manifestação realizada sexta-feira passada pelos cinco principais sindicatos da Argentina, que exigiram medidas de combate ao desemprego e à inflação ao governo Macri.
Apesar dos problemas que enfrenta nos tribunais, Cristina tem, segundo versões publicadas pela imprensa local, a firme intenção de lançar uma candidatura para as eleições legislativas de 2017, já pensando em disputar novamente a Presidência da Argentina, em 2019.
Para o jornalista Jorge Lanata, que fez algumas das principais denúncias de corrupção contra os governos Kirchner, a ex-presidente "não será presa". Lanata é um dos que critica publicamente as ações de Casanello, um dos juízes que poderia complicar a situação de Cristina.
— A Justiça está fazendo as coisas erradas, deveriam investigar o delito que precedeu a lavagem de dinheiro e não fazer um inventário dos bens de Báez. Desse jeito, não acho que Cristina possa terminar presa — assegurou o jornalista.