Emanuel Alencar - O Globo
Depois de 38 anos, loja de bicicleta não resiste à alta dos aluguéis

Na tarde da última quarta-feira, o português Manuel Azevedo, de 69 anos, interrompeu a conversa com a equipe de reportagem e se escorou na enorme porta de ferro de sua velha loja, na Rua Dias Ferreira. Com os olhos marejados, disse não ter condições de tocar num assunto que lhe doía o coração. Depois de 38 anos capitaneando uma das mais tradicionais lojas de conserto de bicicleta do Leblon, ele vai deixar o negócio. Não tem condições de pagar um reajuste de 112% no aluguel, que subiu para R$ 10 mil. Manuel revelou não saber o que fará para sobreviver. Seu caso faz parte de um processo que nos últimos anos vem mudando o perfil do bairro, para tristeza de antigos moradores.
— Recentemente, uma loja de conserto de pequenos eletrodomésticos na Praça Antero de Quental fechou as portas. É claro que faz falta. Mas vários tipos de serviços vêm sendo substituídos pela tecnologia. Hoje, quem conserta um ferro de passar roupas? Os tempos são outros. Sapatarias, armarinhos e lojas de consertos de eletrodomésticos viraram estabelecimentos difíceis de ser ver. A presidente da Associação de Moradores do Leblon, Evelyn Rosenzweig, enxerga esse cenário como algo inexorável:
ONDE SE PAGA O METRO QUADRADO MAIS CARO DO RIO
O processo de mudanças no perfil do comércio do Leblon não acontece, é claro, apenas no bairro retratado com glamour nas novelas de Manoel Carlos. Mas é lá que essa dinâmica encontra sua expressão mais significativa. A escalada dos preços de aluguel se tornou tão avassaladora que não são raros os casos de imóveis fechados há um bom tempo por falta de interessados. Um exemplo é a sala ocupada até janeiro de 2011 pela livraria Letras e Expressões, no número 1.292 da Avenida Ataulfo de Paiva, quase na esquina com a Rua Dias Ferreira. Os donos não abrem mão de luvas de R$ 180 mil e aluguel de R$ 24 mil por mês. Candidatos aparecem, porém, até hoje, nenhum contrato foi assinado.
Enquanto isso, o Embalo Bar, pé-sujo que funciona desde a década de 60 na Dias Ferreira, resiste às mudanças. Um dos garçons, Luiz Carlos de Souza, há 30 anos funcionário, teme o futuro:
— Vi muita coisa fechar. Aqui ao lado funcionava uma floricultura, que virou restaurante. Fiquei até com medo de algo parecido acontecer com a gente.
O presidente da Associação Comercial do Rio (ACRJ), Antenor Barros Leal, diz que as modificações são parte do progresso.
— Na Rocinha, os aluguéis rivalizam com os de Copacabana. A Lapa não valia nada, hoje se valorizou. Dentro do mercado imobiliário, não cabe caridade — diz Leal, ressaltando que as lojas do Leblon têm o metro quadrado mais caro da cidade.
NA COBAL, ESPAÇOS VAZIOS
Os argumentos não são bem encarados por uma turma que fincou os pés há três décadas na Cobal. Atualmente, o espaço sofre com o esvaziamento: mais da metade das 142 lojas está fechada. Nesse caso, dizem comerciantes, o revés não está associado ao preço dos aluguéis, mas a um modelo ultrapassado de gestão.
— Ninguém vem porque não tem infraestrutura. A Cobal deixou de ter sua função social, que é ser um entreposto. O ideal seria repassar a administração da União à prefeitura — diz a doceira Lena Maria Maina, que está de mudança para Copacabana:
A Companhia Nacional de Abastecimento diz que não há interesse no repasse e que está elaborando um edital de licitação para a ocupação dos espaços.