quarta-feira, 2 de julho de 2014

Persio Arida: Não se muda expectativa econômica no grito

Um dos 'pais' do Plano Real, o ex-presidente do BC explica ao site de VEJA que a meta do plano era, sobretudo, de modernizar o país; Arida chama atenção ainda para a série de retrocessos que o Brasil presenciou nos últimos anos

 
Talita Fernandes - Veja
 
 
Pérsio Árida, ex-presidente do BC e sócio do banco BTG
Pérsio Árida, ex-presidente do BC e sócio do banco BTG (Daniela Toviansky)


Se no passado trocar de moeda era uma prática comum no Brasil, esse triste passado parece ter ficado para trás, pelo menos por enquanto. Embora o país hoje viva um cenário infinitamente melhor do que o de 1994, quando o Plano Real foi implantado, os indicadores econômicos e a condução da economia não trazem motivos para tranquilidade. A inflação volta a ameaçar encostar no teto da meta (de 6,5%) ao acumular alta de 6,4% nos últimos doze meses e o crescimento deve ficar na faixa de 1% este ano.

Para um dos 'pais' do Plano Real, o ex-presidente do Banco Central Persio Arida, o país sofreu uma série de retrocessos em relação às conquistas do Plano. Arida indica que, não só o cenário atual não é bom como a expectativa não é de melhora. Porém, segundo ele, nem tudo está perdido. É preciso que o governo reconduza a economia de forma a mostrar que haverá, nos próximos anos, "mais crescimento e menos inflação".

Em entrevista ao site de VEJA, ele conta por que o Plano deu certo e mostra que a ideia ia muito além de estabilizar a economia, mas de modernizar o país. Confira os principais trechos da entrevista:

Na visão do senhor, como está a situação econômica do país agora, vinte anos depois da implantação do Plano Real?
Nos anos recentes houve uma série de retrocessos. Primeiro, cristalizou-se uma inflação muito mais alta do que a média. Hoje, não só estamos no patamar inflacionário acima de 6% como as expectativas mostram que a inflação não volta para 4,5%. E temos 6% com muitos preços congelados, se não houvesse isso, a inflação estaria em 8%. Nesse sentido está longe de uma situação confortável do ponto de vista inflacionário. Além disso, a rota de diminuição do tamanho do Estado e de concentração de seus esforços em educação e saúde, que era a ótica inicial, não aconteceu. Tínhamos esse conceito de termos o Estado voltado a suas funções básicas. O que vimos é que o Estado cresceu muito em tamanho em relação ao que tínhamos. O governo já arrecada muito mais do que antes e gasta muito mais do que antes. Muito do gasto público foi destinado para outros fins que não educação e saúde. A independência das agências reguladoras desapareceu, o agigantamento do Estado e a excessiva interferência do Estado na economia acabaram, de um lado, diminuindo a produtividade do país e, por outro, abalaram as expectativas. As expectativas estão muito baixas, o grau de pessimismo é muito grande.

Alguns economistas dizem que vivemos uma crise de expectativas e ainda não estamos em uma crise real. Qual a visão do senhor sobre isso?
Hoje há um certo desencanto: o país cresce pouco, a inflação está no teto. As pessoas não acham que vai haver uma mudança importante na condução da economia do país. As expectativas ruins agravam ainda mais esse cenário. A maneira de reverter isso não é mudar a expectativa no grito, mas encaminhar a política econômica de uma maneira que seja razoável, ou seja, que as pessoas possam esperar mais crescimento e menos inflação. Se houver isso, com certeza a expectativa melhora na hora. No Plano Real as pessoas perceberam que o país se indicou em uma rota certa, apesar de o momento ser complicado. Com isso, as expectativas ficaram favoráveis. A expectativa só muda se houver a percepção de que o país está, de fato, no caminho correto.

Na visão do senhor, por que o Plano Real deu certo? 
O Brasil teve antes do Plano Real uma série de tentativas de estabilização, todas baseadas em congelamento de preços. Essas várias tentativas levaram a uma exaustão desse modelo. Não fazia sentido o país tentar mais uma vez o congelamento de preços. Contudo, os poucos momentos de estabilidade que esses planos anteriores permitiram, mudaram o imaginário coletivo. Criou-se uma vontade de estabilização porque os benefícios foram sentidos. O Plano Real teve uma adesão porque havia essa vontade de estabilização. Além disso, nós fizemos diferente. Invertemos a ordem do que era feito anteriormente: primeiro foi feito um ajuste fiscal e depois foi anunciada a nova moeda.

Se todos os outros planos tinham a proposta de acabar com a inflação e não conseguiram, por que o Plano Real convenceu a população de que seria possível?
Havia um aspecto importante, embora ficasse claro para uns e não para outros, que o Plano Real foi concebido como um projeto de modernização do país. Claro que, por definição, um país com inflação não pode ser um país moderno. Mas o plano não era só inflação. Isso aconteceu aos poucos, as privatizações começaram a acontecer depois do Plano Real, foi criada a lei de responsabilidade fiscal, os bancos estaduais quebraram e arrumou-se uma solução, foram criadas as agências reguladoras. Eu acho que a população, quando apoiou, estava preocupada mais com a inflação. Mas, do ponto de vista das pessoas que acompanham mais de perto a economia, elas apoiaram porque viram de um lado que tinha um ajuste fiscal, entenderam que aquilo era parte de um plano de Brasil moderno. Se você observar, todo o modo de funcionar do Brasil de hoje foi feito naquela época. Foram quebrados os monopólios de telecomunicações e do petróleo.