segunda-feira, 7 de julho de 2014

O desejo é por mudança, diz Aloysio Nunes, vice de Aécio

Blog Rodrigo Constantino - Veja



Fonte: Valor
 
Quando o senador Aloysio Nunes Ferreira foi escolhido como o vice de Aécio Neves, tive sentimentos ambíguos. Faz sentido ter um paulista na chapa, mostrando união dos tucanos de olho no maior colégio eleitoral do país. Por ser alguém próximo de Serra, fica evidente o teor de coesão do PSDB para disputar essas eleições, algo que não se viu nas últimas.
 
Por outro lado, confesso não me sentir muito à vontade com seu passado de guerrilheiro comunista, e alguém que nunca negou amizade pessoal com José Dirceu, algo que mancha o currículo de qualquer pessoa. Mas penso em Fernando Gabeira, por exemplo, ou Ferreira Gullar, e lembro que as pessoas podem mudar, arrepender-se de seu passado.
 
Parece ser o caso de Aloysio, que disse, comparando-se a Dilma: ”Fui mais longe do que ela. Mas isso não me impede de hoje ter uma visão absolutamente crítica, não só da tática, mas da concepção desses movimentos. Atacávamos a ditadura por uma via que não era democrática”.
 
Ou seja, ele não tenta usar essa trajetória condenável para posar de vítima e enaltecer a luta “democrática” dos comunistas, como faz Dilma e companhia. Sua revisão sobre esse passado não é recente, e sua própria ida para o PSDB, um partido social-democrata de centro-esquerda que rejeita os métodos revolucionários, indica seu arrependimento. Menos mal…
 
Em entrevista para o jornal Valor, Aloysio Nunes reforça ainda mais a crença de que mudou mesmo, e quer mudanças para o Brasil também, em rumo completamente equivocado sob a gestão petista. O senador diz que o governo Aécio irá apresentar uma agenda robusta ao Congresso, propondo todas as reformas estruturais que o PT evitou: tributária, política e previdenciária.
 
De olho nas eleições, que terá Dilma como oponente, Aloysio faz concessões que julgo inadequadas ao governo Lula. Como Aécio mesmo já deixou claro, o que deve ser derrotado é o modelo que está aí, representado tanto por Lula como Dilma. É verdade que Dilma conseguiu piorar tudo, mas o legado negativo pertence a ambos, ao lulopetismo. Abaixo, alguns trechos da entrevista:
 
A saúde das instituições é vital para que a gente tenha um país ordenado, desenvolvido, com um grau maior de civilização, tolerância, progresso material e cultural. Algo, aliás, que me preocupa no governo do PT. Sinto que há uma degradação da atividade política. O Congresso é mero apêndice do Executivo. Aqui só se tocam para a frente medidas provisórias. Os velhos vícios do patrimonialismo, da fisiologia – dos quais a presidente Dilma tinha tudo para se libertar -, acabaram enredando a presidente, principalmente agora, raspando o tacho do governo para conter aliados.
 
[...]
O Lula teve o mérito, com seu extraordinário carisma político, de trazer para o centro da agenda política brasileira o combate à pobreza, a inclusão social. E a presidente Dilma, qual é o seu legado? Ela tinha tudo para enfrentar gargalos da reforma tributária, completar os temas pendentes da reforma da Previdência Social, liderar um processo de combate à violência, integrar os Estados num grande programa nacional de promoção da segurança pública. Tinha tudo para enfrentar o problema da infraestrutura, trazendo a iniciativa privada para participar, sob forma de concessões. Ela não fez nada disso. Não enfrentou o tema da reforma política, que ela se comprometeu a liderar no discurso que fez perante o Congresso no dia de sua posse.
 
[...]
Quando falo de reforma política, para mim reforma política se chama voto distrital. Aumenta a relação do eleitor com o representante e a responsabilidade. É mais fácil cobrar. E leva ao enraizamento dos partidos políticos, dá consistência real aos partidos políticos.
 
[...]
Eu tive uma militância em organizações clandestinas, a maior parte no Partido Comunista Brasileiro. Minha cultura política evoluiu do leninismo para a concepção democrática do exercício do poder, da necessidade de amplas convergências. Eu entrei no PCB em 1964 e fiquei até acabar. E minha visão também se modificou. Agora, eu tive uma passagem pela ultra esquerda, de luta armada. Foi um momento na minha vida, a partir de 67 até 70. Hoje tenho uma visão profundamente crítica, porque, além de ser algo absolutamente inadequado para a realidade do país para a época, a concepção que sustentava esse tipo de construção era extremamente militarista. Não era democrática no exercício do poder e muito menos na estrutura da própria organização, que era vertical, autoritária. Uma tática absolutamente inadequada para as condições do Brasil.
 
Ao ler a entrevista, concluo que certas pessoas podem evoluir com o tempo, enquanto outras continuam presas aos mesmos equívocos ideológicos da juventude. Aloysio Nunes tenta fugir da pecha de direita, alegando que o PT não é de esquerda (discordo) e que Aécio está aglutinando forças que querem mudanças, não querem mais saber do PT, não suportam mais tanta mediocridade.
O vice do candidato Aécio Neves ainda é de esquerda, mas uma esquerda que amadureceu, mais democrática e civilizada, com a qual dá para manter um diálogo construtivo. O mesmo não ocorre quando se trata do PT, que flerta com os piores tiranos do mundo e enaltece o autoritário bolivarianismo. O Brasil tem desejo por mudança…