segunda-feira, 7 de julho de 2014

“Governo espantou as montadoras”, diz presidente da JAC

Blog Rodrigo Constantino - Veja



 
 
Neste domingo foi publicada uma interessante entrevista com o presidente da JAC Motors, Sergio Habib, sobre as medidas do governo Dilma para o setor automotivo. Em resumo, deu tudo errado. A produção de automóveis tem caído de forma expressiva, “apesar” de todos os estímulos do governo.
 
O excesso de intervenção e o protecionismo acabaram afugentando investidores, como foi o caso da chinesa JAC, que pretendia instalar uma fábrica no país. Mas o aumento do IPI tornou sua estratégia proibitiva. Como disse Sergio Habib: “O governo quis que o empresário se casasse com o Brasil antes de namorá-lo. E ninguém mais quer correr esse risco”.
 
A China produz carros cada vez melhores e bem mais baratos, como já foi o caso com a Coreia do Sul no passado. O consumidor brasileiro poderia economizar milhares de reais e ainda assim obter seu sonhado meio de transporte independente, algo que tem bastante valor em um país cujo transporte público é caótico. Mas o governo não permite. Abaixo, alguns trechos da entrevista:
 
 
Para montar uma operação em qualquer país, primeiro é preciso ver a aceitação do produto e testar o mercado como importador. Depois de testar, ocorre o investimento. Foi assim na década de 1990 com Toyota, Citroen, Honda, Peugeot, Renault e Nissan. A Citroen importou carros durante 10 anos e só então fez a fábrica. A Peugeot, durante 9 anos. A Toyota começou a importar em 1991 e só em 1999 construiu a fábrica. Todas elas ficaram cerca de uma década importando antes de construir.
 
Hoje, com o Inovar-Auto, você não pode importar sem ter um projeto de fábrica. Ou seja, ele exige que uma empresa se case com o Brasil antes de namorá-lo. E essa não é a lógica para nenhuma empresa. Ninguém topa. O Brasil exige do empresário um cheque de 500 milhões de reais para a construção de uma fábrica sem que ele esteja familiarizado com o mercado brasileiro. Isso não faz sentido para ninguém. 
 
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As regras que regulam o conteúdo local usado na fabricação dos carros, para que se consiga um desconto no IPI, são muito retrógradas. Não é papel do governo controlar se o farol do carro que estamos usando foi fabricado no Brasil, na China ou na Alemanha. A empresa tem de comprar o farol onde lhe for mais conveniente. Mas o governo vai além: quer saber se o espelho retrovisor e até mesmo o motor responsável por movimentar o espelho são fabricados no Brasil. Por isso decidiu criar o Inovar-Peças, para estimular a cadeia de suprimentos. Mas, como controlar esse tipo de detalhe é algo dificílimo, o projeto ainda não saiu do papel.
 
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A tendência, quando se é empresário num país fechado, é passar mais tempo em Brasília tentando defender seus interesses do que na fábrica tentando diminuir custo. E tem o custo Brasil, que piora o cenário. Levar um contêiner da fábrica da JAC de HengFeng para Shangai, na China, o que corresponde a uma distância de pouco mais de 500 quilômetros, custa cerca de 500 reais. No Brasil, transportar um contêiner de São Paulo ao Rio de Janeiro custa 1 900 reais. O nosso país está muito torto. Para compensar esse custo de logística, o dólar tinha que estar custando 8 reais. 
 
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O espírito animal do empresário está na toca. Quem quer investir num país onde não se conhecem as regras do jogo, onde tudo é incerto? O pior é que esse sentimento é generalizado. Mudaram as regras no setor elétrico, automotivo, de infraestrutura. E depois reclamam que poucos se interessaram pelas privatizações. Numa escala mais ampla, isso trava o país.
 
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A maior frustração é a mudança de regra. O chinês é muito prudente, estuda o país profundamente e essas mudanças assustam. A JAC recebeu ordem do governo chinês para crescer seu negócio. Para onde eles iriam crescer? O Brasil é um destino óbvio. Agora, o governo pensa que o mercado interno é patrimônio do povo brasileiro e que tem de ser usado por empresas que estão fixadas no país. E isso faz com que a gente pague pelas ineficiências que a falta de concorrência traz.
 
Ou seja, é o desenvolvimentismo nacionalista de Dilma e sua equipe fazendo mais e mais vítimas, e punindo, acima de tudo, os próprios consumidores. Há um equívoco ideológico em questão, que não se modifica facilmente. Tanto que a presidente se recusa a admitir o fracasso de sua política econômica.
 
Para ela, os investidores estrangeiros que se recusam a investir são uns ingratos. Essa turma parece sempre ignorar que as pessoas reagem a incentivos, e que não é na marra ou no grito que se desperta o tal “espírito animal” dos investidores, mas com regras claras, instituições sólidas e livre mercado competitivo. Tudo aquilo que a hiperatividade estatal e o protecionismo impedem.