sábado, 1 de julho de 2017

"Filme de bandido", por Ruy Castro


Reprodução
Loures entra na pizzaria Camelo, em São Paulo, sem nenhuma malaRocha Loures deixa a pizzaria carregando uma mala
Cena do vídeo em que Rocha Loures deixa uma pizzaria de São Paulo com mala de dinheiro


Folha de São Paulo

Você já assistiu à sequência 400 vezes, mas talvez nunca a tenha visto completa, nos seus gloriosos 1m e 45s. Uma câmera, do outro lado da calçada, focaliza por 28 segundos a porta de um estacionamento —por ela, passam pessoas e carros. Finalmente, um homem sai carregando uma mala. 

Aos 30, para e olha para os lados, como se certificando de que não é observado. Aos 35, põe a mala no porta-malas de um táxi. Aos 40, entra no táxi. Aos 45, o táxi arranca. Pelo minuto seguinte, a câmera, também dentro de um carro, vai perdê-lo no trânsito. Fim.

Trata-se, claro, da sequência gravada pela Polícia Federal, em que Rodrigo Rocha Loures deixa o estacionamento de uma pizzaria em São Paulo, com a mala que lhe foi passada por um executivo da JBS contendo R$ 500 mil. 

Pela frequência com que vai ao ar nos canais de notícias —dezenas de vezes por dia—, logo não haverá um brasileiro que não a tenha visto

E, por enquanto, resta a pergunta: quem gravou? Se fosse um trabalho particular, sujeito a autorização, seu autor teria o nome no crédito, uma nota a receber e uma carreira pela frente no cinema nacional. Mas, sendo uma gravação da Polícia Federal, que a liberou para exibição, ninguém fará jus a royalties. E, no entanto, a sequência completa sugere uma vocação autoral na mão que segura o celular.

Tem uma tensão típica da Nouvelle Vague. A cinegrafia lembra os filmes do francês Jean-Pierre Melville ou o "Taxi Driver", de Martin Scorsese, todos dos anos 70. Rocha Loures parar e olhar para os lados é um lance de gênio –mostra que o diretor estava atento. Às vezes, a câmera na mão perde o foco, realçando o realismo, tipo "cinéma-vérité". Eu, se fosse crítico de cinema, daria bonequinho aplaudindo.

Para que ir ao cinema se os melhores filmes de bandido nos entram pelos olhos?

Com 60% contra, Uruguai começa neste sábado venda de maconha

Matilde Campodonico/AP Photo
Ed Rosenthal, que planta maconha na Califórnia, visita o Museu da Cannabis de Montevidéu
Ed Rosenthal, que planta maconha na Califórnia, visita o Museu da Cannabis de Montevidéu

Papéis desconhecidos de Gilberto Freyre são encontrados na França

Acervo UH/Folhapress
ORG XMIT: 214701_0.tif RECIFE, PE, BRASIL, 07-07-1952: O sociólogo Gilberto Freyre na biblioteca de sua casa no bairro de Apipucos, em Recife, em 1952. (Foto: Acervo UH/Folhapress)
Gilberto Freyre em sua casa em Apipucos, no Recife, em 1952

Sozinha, 'Mulher-Maravilha' supera Batman e Superman nas bilheterias

Folha de São Paulo

Os números não mentem. "Mulher-Maravilha" é a estrela do momento entre os heróis da DC Comics. Batman e Superman vão ter que suar para recuperar o terreno diante da amazona nos cinemas.

Desde a estreia, quando arrecadou mais de US$ 100 milhões, o longa de Patty Jenkins vem conquistando marcas importantes. Desta vez, chegou a cifra de US$ 330,5 milhões nesta sexta-feira (30) e deixou para trás nada menos que "Batman vs. Superman: A Origem da Justiça" (2016), que somou US$ 330,3 milhões. No longa do ano passado, Gal Gadot fez sua primeira aparição, pequena, como a amazona Diana.

Talvez já seja o caso de roteiristas e produtores redefinirem o espaço de cada um em "Liga da Justiça", filme que volta a reunir o trio da DC (além de Aquaman, Flash e outros). O novo longa inspirado nos quadrinhos deve estrear ainda neste ano, em 17 de novembro.

Na última semana, "Mulher-Maravilha" se tornou a maior bilheteria mundial de um filme com atores dirigidos por uma mulher, deixando para trás "Mamma Mia!" (2008), de Phyllida Lloyd. No total, o longa de Jenkins já faturou US$ 666,3 milhões e ocupa a posição 102 no ranking geral. Quem é o 101º? "O Homem de Aço", de Zack Snyder, primeiro filme com Henry Cavill como Superman... e a próxima vítima.
Divulgação
Mulher-Maravilha [Wonder Woman, Estados Unidos, 2016], de Patty Jenkins (Warner). Gênero: aventura. Elenco: Gal Gadot, Robin Wright, Chris Pine. 3D/ Dolby Atmos ***DIREITOS RESERVADOS. NÃO PUBLICAR SEM AUTORIZAÇÃO DO DETENTOR DOS DIREITOS AUTORAIS E DE IMAGEM***
Cena do filme 'Mulher-Maravilha'

Reforma pode agravar distorções na política

Pedro Ladeira/Folhapress
BRASILIA, DF, BRASIL, 24-11-2016, 12h00: O presidente da câmara dep. Rodrigo Maia (DEM-RJ) encerrou a sessão e marcou a votação pra semana que vem. Não houve acordo para a votação. Votação da Lei das 10 medidas contra a corrupção no Plenário da Câmara. O relatório do dep. Onyx Lorenzoni (DEM-RS), que foi aprovado ontem na comissão, será apreciado pelo plenário, que poderá fazer emendas e alterações no texto. (Foto: Pedro Ladeira/Folhapress, PODER)
Congresso vai votar reforma política

Investimento familiar em educação ajuda a explicar o sucesso da China


Competição de xadrez entre pais e filhos em escola primária na província de Liaoning, na China
Competição de xadrez entre pais e filhos em escola primária na província de Liaoning, na China

Rodrigo Zeidan - Folha de São Paulo

Meritocracia de verdade não existe nem nunca vai existir em lugar nenhum do mundo, já que, para que ela exista, é preciso real igualdade de oportunidades. Mas mobilidade social é fundamental para o verdadeiro desenvolvimento de um país. Quanto mais as pessoas puderem se esforçar para crescer, melhor para toda a sociedade.
Na China, diferentemente da maioria dos países do mundo, há pelo menos uma forma de mobilidade social, aberta há mais de mil anos, a todas as pessoas de qualquer idade: o exame imperial, que na sua versão moderna é dividido em dois tipos: os concursos públicos, que parecem os que acontecem no Brasil, e o gaokao, similar ao Enem.
Na Ásia, a competição pelas melhores escolas é feroz, e as famílias sacrificam muitos recursos para incentivar os filhos a galgar o sistema educacional como saída da pobreza. O sistema educacional na China é melhor que no Brasil justamente porque as famílias demandam e estão dispostas a gastar mais recursos em educação.
O caso chinês é interessante porque mostra o poder da evolução de normas sociais e como elas impactam o presente, apesar de terem surgido dezenas de gerações atrás.
O exame imperial chinês surgiu há mais de 2.000 anos, na dinastia Han, e de meados da dinastia Tang (que durou de 618 a 901 a.D.) até 1905, quando foi abolido, era a principal forma de entrada na burocracia chinesa.
Assim como no Brasil hoje, com o sistema de concursos públicos, o exame imperial era uma forma de ascender à elite. Como o exame imperial durou mais de mil anos e esteve durante esse tempo combinado a um sistema imperial no qual as possibilidades de ascensão social eram praticamente inexistentes, ele gerou, através do tempo, uma demanda grande por investimentos educacionais por parte das famílias chinesas.
Mas como, no caso chinês, as famílias venciam a miopia do curto prazo, que aflige o Brasil? A resposta é uma combinação de normas sociais diferentes e um prazo realmente longo para que os sinais do mercado de trabalho gerassem mais investimentos educacionais.
Em especial, a pobreza absoluta e períodos de miséria tornaram a unidade familiar o principal construto social, no qual os sacrifícios de curto prazo e mecanismos de seguro intrafamília são a norma, de forma a suportar períodos traumáticos.
O resultado é uma quebra do curto-prazismo pelo foco no sacrifício familiar. É por isso que muitos dos países asiáticos estão entre os mais poupadores do mundo e também entre aqueles que mais investem recursos familiares em educação. Sempre houve o exame imperial como saída da pobreza, e a unidade familiar, como superior ao indivíduo, permite tomadas de decisão com prazo mais longo.
Mas, se no Brasil também temos o Enem e os famosos concursos públicos, com milhares de concurseiros dedicados a uma vaga no setor público, por que na China os concursos geram mobilidade e aqui não (a maioria dos que passam no Brasil é membro das elites, com diversos novos desembargadores sendo filhos de membros antigos, por exemplo)?
São três as razões:
1) na China, os concursos geraram externalidades positivas porque motivaram todas as famílias a investir mais em educação;
2) diferentemente do Brasil, o nível de rentismo do funcionalismo público -ou seja, o quanto de renda da sociedade é extraído sem contrapartida- é muito menor, já que os salários são em média menores do que no setor privado, embora mais altos que a média dos salários do país;
3) e, por último, as normas sociais não veem o Estado como provedor -a competição por educação gera também maior competição no mercado de trabalho, com uma população muito mais produtiva que no Brasil ou em outros países de renda média.
O exame imperial no passado e o gaokao hoje criaram uma pressão da sociedade por educação que não encontra paralelo em outras economias mundiais. Esse investimento familiar em educação é fundamental para explicar o recente sucesso econômico da China e é parte do modelo de meritocracia com características chinesas.

STF cria diálogo unilateral e isonomia desigual

Com Blog do Josias - UOL


Imaginava-se que o mais importante num diálogo era o intercâmbio de palavras. Mas o Supremo Tribunal Federal sugere, em nova e revolucionária compreensão, que duas pessoas podem atingir a suprema comunhão por meio do silêncio. Em decisões antagônicas, o ministro Marco Aurélio Mello, ao devolver o mandato a Aécio Neves, liberou o senador para conversar com a Andréa Neves. Mas a Primeira Turma da Suprema Corte havia proibido a irmã do senador de falar com outros investigados. Assim, Aécio tem todo o direito de falar com a irmã, desde que ela cale a boca.
Noutra decisão, o ministro Edson Fachin mandou soltar Rodrigo Rocha Loures, o homem da mala. Enviou-o para casa, com tornozeleira. Permitiu que saia à vontade durante os dias de semana, recolhendo-se ao domicílio entre 20h e 6h. Fachin atribuiu sua decisão à necessidade de assegurar ao ex-assessor de Michel Temer “tratamento isonômico” em relação a encrencados como Andréa Neves, que também fora transferida da cadeia para a prisão domiciliar por decisão da Primeira Turma do Supremo.
O problema é que, no caso da irmã de Aécio, o Supremo foi mais avarento na administração de sua generosidade. Proibiu a investigada de sair de casa. Nada das escapulidas matinais e vespertinas permitidas ao sujeito filmado recebendo a mala com pripina de R$ 500 mil numa pizzaria de São Paulo.
Ao interpretar as mesmas leis de forma tão diversa, os ministros do Supremo dão ao Judiciário uma aparência de loteria togada. De resto, convulsionam a semântica. Quando confundem monólogo com diálogo e tratamento desigual com isonomia, autorizam a plateia a suspeitar que a Justiça vive uma crise de significado.
Por exemplo: Edson Fachin afastara Aécio do exercício do mandato porque avaliara que, no Senado, ele poderia obstruir a Justiça. Baseou-se em evidências de que o grão-tucano articulava a troca do ministro da Justiça e a aprovação de leis para anistiar criminosos e punir magistrados e procuradores. Marco Aurélio revogou a decisão do colega por considerar, em essência, que afastar parlamentar é papel do Congresso, não do Supremo.
Quer dizer: em tempos de crise semântica, uma sentença do Supremo pode dizer qualquer coisa. Ou o seu contrário.