Intermediação também envolvia o então cunhado do ministro, lobista Chiquinho Feitosa
Ministro Gilmar Mendes, do STF. (Foto: Rosinei Coutinho/STF)
O advogado Ciro Soares tentou aproximar Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, do ministro do Supremo Tribunal Federal Gilmar Mendes, segundo mensagens obtidas pelo Estadão. A intermediação também envolvia o então cunhado do ministro, o ex-senador Francisco Feitosa de Albuquerque Lima, conhecido como Chiquinho Feitosa (Republicanos).
Nas conversas, Soares relata encontros com Mendes sobre assuntos de interesse de Vorcaro e tenta marcar um jantar entre os dois. Em 17 de junho de 2024, às 23h20, escreveu ao banqueiro: “O GM queria que vc fosse jantar com ele. Aí fomos só nós quatro”. Vorcaro não teria atendido a tempo. Mais cedo, Soares havia dito que Chiquinho o esperava e que ele ia para a casa do ministro.
Gilmar Mendes negou o encontro. Por meio da assessoria, afirmou que o jantar não ocorreu, que não convidou Vorcaro e que, naquele dia, teve reunião de pesquisa no Instituto Brasileiro de Ensino, Desenvolvimento e Pesquisa (IDP) às 18h, lançamento de livro às 18h30 e evento religioso em casa às 19h30. Disse ainda que as mensagens foram trocadas entre terceiros, que não responde por afirmações alheias e que não manteve contato com os interlocutores citados para tratar de assuntos do Banco Master.
A tentativa de aproximação, segundo os diálogos, começou no início de 2024. Em 31 de janeiro, Soares escreveu a Vorcaro que teria “uma reunião do nosso assunto às 11:30” em Brasília e orientou o banqueiro a procurar Mendes em um almoço do grupo Esfera em homenagem ao procurador-geral da República, Paulo Gonet: “Procure ele. No meu nome e do Chiquinho Feitosa. GM já está ciente da sua ida”. Mendes classificou o almoço como evento público, com várias autoridades, e não como encontro reservado.
Em 11 de abril, Soares enviou a Vorcaro o telefone de Feitosa. No mesmo dia, o banqueiro fez o primeiro contato direto com o então cunhado do ministro. Em 5 de junho, o advogado relatou “ótima reunião” com Feitosa e Mendes. Em 12 de junho, disse que estava no IDP com os dois e pediu um encontro urgente em São Paulo. Em 29 de junho, após o Fórum Jurídico de Lisboa, organizado por Mendes, escreveu: “Ontem foi do caralho. Ontem foi muito bom. GM é foda”. No mesmo dia, afirmou estar com o ministro e enviou foto ao lado de Gonet e do desembargador do TRF-1 Newton Ramos.
Soares, por assessoria, disse que não há irregularidade nos diálogos. Afirmou que, no período das mensagens, não havia investigação contra Vorcaro, então um empresário de sucesso, e que seria natural ter interlocução com diferentes setores.
O Estadão já havia revelado que o Banco Master contratou Chiquinho Feitosa por R$ 500 mil mensais para tentar obter benefícios em processos no STF que seriam julgados por Mendes. O ministro votou contra os interesses do banco nessas ações, embora em uma delas o grupo de Vorcaro tenha comemorado efeito restrito a casos posteriores à decisão. O próprio Mendes confirmou ter recebido Vorcaro e advogados do Master para tratar de causa bilionária.
Um dos casos envolvia precatórios da Usina Agroindustrial Tabu, na Paraíba, adquiridos por fundos do Master. Mendes e outros ministros votaram contra o banco e a empresa. O outro tratava de regras para abertura de cursos de medicina. O Master era sócio e financiador de uma universidade com cursos nessa área. Como relator, Mendes votou para que o Ministério da Educação concluísse a análise de pedidos já protocolados, com regra de transição. Em 24 de maio de 2024, o sócio Maurício Quadrado escreveu a Vorcaro: “Acabou a votação das medicinas! Ganhamos”. Em 8 de agosto, disse ter obtido liminares para liberar vestibulares.
A assessoria de Mendes afirmou que o voto seguiu a posição do governo federal e que a regra de transição repetiu critério fixado em agosto de 2023, antes das mensagens. Informou que as liminares citadas saíram na primeira instância — no caso da AELBRA/Ulbra, em 7 de agosto de 2024 — e que Mendes se opôs a resultados favoráveis às faculdades, pedindo destaque para julgamento presencial quando a tendência no plenário virtual favorecia as instituições.
Diário do Poder