sexta-feira, 19 de junho de 2026

O show do trilhão, por Dagomir Marquezi e Erich Mafra

 


O biógrafo Walter Isaacson levou três anos para entender que Elon Musk vive em “estado de guerra”. Quando o sulafricano, prestes a completar 55 anos, aposta em uma ideia, age como num jogo de pôquer cuja única saída é o all in. Foi assim que criou a Zip2, sua primeira empresa. O “tudo ou nada” o levou na semana passada à Oferta Pública Inicial (IPO) da SpaceX, que estreou avaliada em US$ 1,77 trilhão e chegou a bater US$ 2,5 trilhões no pico. A companhia produz espaçonaves, oferece serviço de inteligência artificial (xAI) e internet por satélite (Starlink). 

“Se alguém dissesse que isso aconteceria, eu diria: ‘cara, você deve estar fumando um crack muito bom’.” Foi assim que Musk descreveu a estreia de suas ações. Isaacson o define como um man-child (“crianção”). A trajetória do dono da SpaceX mostra que o melhor adjetivo para ele é inovador. Musk tinha 12 anos quando ganhou seus primeiros US$ 500. Aproveitou o boom dos videogames nos anos 1980 e vendeu a uma revista um jogo chamado Blastar. Ali já estava seu DNA de empresário: tecnologia somada à paixão por ficção científica, nascida da admiração por autores como Douglas Adams e Isaac Asimov. 

O jogo dava ao usuário o controle da primeira espaçonave (virtual) que construiu. Em 1989, pressionado pela relação tortuosa com o pai, entendeu que só teria futuro longe da África do Sul. Foi para o Canadá, onde estudou física e economia na Queen’s University. Mudou-se para os EUA no meio dos cursos e se formou na Universidade da Pensilvânia e na Wharton School of Business. Em 1995, seguiu para a Califórnia a fim de fazer doutorado em física em Stanford, em “ciência dos materiais”, que talvez o ajudasse no sonho de produzir carros elétricos. Só ficou dois dias no curso. Segundo o biógrafo, teria dito a um amigo: “Tenho que pegar a onda da internet”

O estalo veio ao perceber que as antigas “páginas amarelas” se beneficiariam da tecnologia digital. Com o irmão, Kimbal, e dinheiro dos pais (US$ 40 mil e o cartão de crédito da mãe), fundou a Zip2, uma ouça este conteúdo readme 0:00 1.0x Olá,Jose 19/06/2026, 17:03 O show do trilhão - Revista Oeste https://revistaoeste.com/revista/edicao-327/o-show-do-trilhao/ 2/14 “rede interativa de listas de empresas” que ligava negócios a um “banco de mapas”. Um precursor de ferramentas como Google Maps e Waze. Em 1999, os irmãos venderam a empresa por US$ 305 milhões. Elon alcançava um patrimônio pessoal de US$ 22 milhões. 

O lado “crianção” apareceu no primeiro ato no clube do milhão. Comprou um McLaren F1, um dos carros mais rápidos da época, e chamou a CNN para filmar a entrega. O impulso pesou na consciência: ficou parecendo um “pirralho imperialista”, segundo ele próprio. Tomou duas providências: doou parte dos milhões aos pais e apostou num projeto útil à sociedade. O milionário que sofreu um golpe Em 1999, nasceu o X.com. Não o “X” que hoje nomeia o antigo Twitter, mas um banco digital que adiantava o conceito de fintech. 

Quando a maioria das pessoas ainda tinha pavor de digitar o número do cartão numa tela, Musk deixava qualquer um transferir dinheiro só com o email. O negócio prosperou e, para consolidar o monopólio, fundiu-se com a Confinity, startup de Peter Thiel. Ali nasceu o titã que o mundo conhece como PayPal. Foi também o passo que ligou o “estado de guerra” de Musk. Em setembro de 2000, quando estava num avião rumo à lua de mel com sua primeira mulher, foi destituído do cargo de CEO pelo conselho, que pôs Thiel no lugar. O motivo oficial foi uma briga sobre migrar o sistema para Windows. Mas o que pesava mesmo era a preferência dos investidores pelo “domável” Thiel.

Musk engoliu o orgulho e seguiu como acionista. A recompensa veio em 2002, quando o eBay comprou o PayPal por US$ 1,5 bilhão. Maior acionista individual, saiu da mesa com US$ 165 milhões. Os fundos deram o pontapé inicial num plano que ainda corre: transformar a humanidade numa “sociedade multiplanetária”. Suas prioridades viraram carros elétricos, chips que ligam cérebros a computadores, robôs autônomos e espaçonaves. 

Certa vez, explicou o motivo: “Existe uma diferença fundamental entre uma humanidade que é uma civilização espacial, explorando as estrelas… e outra para sempre confinada à Terra até um evento de extinção inevitável.” O ano em que o céu quase desabou Em 2002, Musk fundou a SpaceX, que agora lhe rendeu o primeiro trilhão. 

A indústria aeroespacial, dominada por gigantes estatais como a Nasa, debochou da ideia de um sul-africano construir foguetes baratos e reutilizáveis. O deboche quase se provou profético. Entre 2006 e 2008, as três primeiras tentativas de lançar o Falcon 1 explodiram antes da órbita e incineraram quase todo o caixa. 

Em paralelo, Musk dava o all in definitivo da vida. Virou o principal investidor e assumiu a Tesla, startup que queria viabilizar o carro elétrico. Em plena crise global, as duas empresas sangravam. Sem liquidez, o empresário vivia de empréstimos para pagar o aluguel e atravessava um divórcio devastador. Restava dinheiro só para mais um lançamento do Falcon 1. Se falhasse, o império morreria antes mesmo de nascer

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