
Nota da edição:
O artigo a seguir é um trecho dos capítulos 6 e 7 do livro Keynes, The Man. Na obra, Murray Rothbard busca fazer uma análise crítica da biografia do economista John Maynard Keynes, traçando as origens da sua defesa de uma política econômica intervencionista e como ela obteve adesão de parte considerável da opinião pública dentro e fora do ambiente acadêmico.
O Teórico Político Burkeano
“Se Moore foi o herói ético de Keynes, Burke pode reivindicar fortemente o posto de seu herói político”, escreve Skidelsky (1983, p. 154). Edmund Burke? O que esse conservador admirador da tradição poderia ter em comum com Keynes, o estatista e planejador central racionalista? Mais uma vez, assim como ocorreu com Moore, Keynes venerava seu autor com uma adaptação keynesiana, selecionando os elementos que se ajustavam ao seu próprio caráter e temperamento.
O que Keynes extraiu de Burke é revelador. (Keynes apresentou suas opiniões em um longo ensaio premiado de graduação, em inglês, com o título “The Political Doctrines of Edmund Burke” [As doutrinas políticas de Edmund Burke, em tradução livre]). Há, em primeiro lugar, a oposição militante de Burke aos princípios gerais na política e, em particular, sua defesa da conveniência política contra direitos naturais abstratos. Em segundo lugar, Keynes concordava fortemente com a elevada preferência temporal de Burke, com sua desvalorização do futuro incerto em comparação com o presente existente. Keynes, portanto, concordava com o conservadorismo de Burke no sentido de que este era hostil a “introduzir males presentes em troca de benefícios futuros”.
Há também a versão de direita da depreciação geral que Keynes fazia do longo prazo, quando dizia “no longo prazo, estaremos todos mortos”. Como Keynes colocou: “É dever supremo dos governos e dos políticos assegurar o bem-estar da comunidade no presente e não assumir riscos excessivos em nome do futuro” (ibid., pp. 155–56).
Em terceiro lugar, Keynes admirava a valorização que Burke fazia da elite governante “orgânica” da Grã-Bretanha. Havia divergências quanto às políticas, naturalmente, mas Keynes juntou-se a Burke na exaltação do sistema de governo aristocrático como algo sólido, desde que o pessoal governante fosse escolhido a partir da elite orgânica já existente. Escrevendo sobre Burke, Keynes observou: “ele considerava a máquina em si [o estado britânico] suficientemente sólida, desde que a capacidade e a integridade daqueles encarregados dela pudessem ser asseguradas” (ibid., p. 156).
Além de seu desprezo neo-burkeano pelos princípios, sua falta de preocupação com o futuro e sua admiração pela classe governante britânica existente, Keynes também estava convencido de que a devoção à verdade era meramente uma questão de gosto, tendo pouco ou nenhum lugar na política. Ele escreveu: “Uma preferência pela verdade ou pela sinceridade como método pode ser um preconceito baseado em algum padrão estético ou pessoal, incompatível, na política, com o bem prático” (Johnson 1978, p. 24).
Na verdade, Keynes demonstrava um gosto explícito pela mentira na política. Ele habitualmente inventava estatísticas para adequá-las às suas propostas políticas e defendia a inflação monetária mundial com hipérboles exageradas, ao mesmo tempo em que sustentava que “as palavras deveriam ser um pouco selvagens — o ataque dos pensamentos contra os irrefletidos”. Contudo, de maneira bastante reveladora, uma vez alcançado o poder, Keynes admitiu que tal hipérbole teria de ser abandonada: “Quando os assentos do poder e da autoridade forem alcançados, não deverá mais haver licença poética” (Johnson and Johnson 1978, pp. 19–21).
O Economista: Arrogância e Pseudo-Originalidade
A abordagem de Maynard Keynes na economia não era muito diferente de sua atitude em relação à filosofia e à vida em geral. “Tenho medo de ‘princípios’”, disse ele a uma comissão parlamentar em 1930 (Moggridge 1969, p. 90). Os princípios apenas restringiriam sua capacidade de aproveitar as oportunidades do momento e atrapalhariam seu desejo de poder. Por isso, ele estava sempre disposto a abandonar suas crenças anteriores e mudar de opinião num instante, dependendo da situação.
Sua posição sobre o livre comércio serve como um exemplo evidente. Como um bom marshalliano, seu único princípio político-econômico aparentemente fixo ao longo da vida era uma adesão devota à liberdade comercial. Em Cambridge, escreveu a um bom amigo: “Senhor, odeio todos os sacerdotes e protecionistas. (…) Abaixo aos pontífices e as tarifas”. Durante as três décadas seguintes, suas intervenções políticas estiveram quase exclusivamente voltadas à defesa do livre comércio (Skidelsky 1983, pp. 122, 227–29).
Então, subitamente, na primavera de 1931, Keynes passou a defender ruidosamente o protecionismo e, durante os anos 1930, liderou a defesa do nacionalismo econômico e de políticas francamente concebidas para “empobrecer o vizinho”. Mas, durante a Segunda Guerra Mundial, Keynes voltou novamente ao livre comércio. Em nenhum momento qualquer exame de consciência ou mesmo hesitação pareceu dificultar suas mudanças extremamente rápidas.
Na verdade, no início da década de 1930, Keynes era amplamente ridicularizado pela imprensa britânica por suas posições camaleônicas. Como escreve Elizabeth Johnson, “ele era Keynes, o homem de borracha: o Daily News and Chronicle de 16 de março de 1931 publicou um artigo com o título ‘Economic Acrobatics of Mr. Keynes’ [As Acrobacias Econômicas do Sr. Keynes, em tradução livre]” — ilustrado por um desenho de “Uma Performance Extraordinária. O Sr. John Maynard Keynes, como o ‘homem sem ossos’, vira as costas para si mesmo e engole uma poção” (1978, p. 17).
Keynes, contudo, não se incomodava com as acusações de inconsistência, pois se considerava sempre certo. Era particularmente fácil para Keynes adotar essa convicção, já que ele não dava a mínima para princípios. Assim, estava sempre pronto para mudar de posição em busca de expandir seu ego por meio do poder político.
Com o passar do tempo, escreve Elizabeth Johnson, Keynes “tinha uma ideia clara de seu papel no mundo; ele era (…) o principal conselheiro econômico do mundo, do Chanceler do Tesouro do Reino Unido da época, do ministro das Finanças francês, (…) do presidente dos Estados Unidos”. A busca por poder para si mesmo e para uma classe governante significava, naturalmente, uma adesão cada vez maior às ideias e instituições de uma economia de planejamento central.
Entre os homens respeitáveis da elite orgânica que governava a nação, ele atribuía a si mesmo o papel crucial de acadêmico-técnico, a versão do século XX do “rei-filósofo” ou, ao menos, do filósofo que orienta o rei. Não é surpresa que Keynes “tenha saudado o presidente [Franklin D.] Roosevelt como o primeiro chefe de estado a procurar aconselhamento teórico como base para ações em larga escala” (Johnson and Johnson 1978, pp. 17–18).
Ação era o que Keynes buscava do governo, especialmente com o próprio Keynes elaborando os planos e dando as ordens. Como escreve Johnson,
“Seu oportunismo fazia com que reagisse aos acontecimentos de maneira imediata e direta. Ele produzia uma resposta, escrevia um memorando, publicava imediatamente, qualquer que fosse a questão. (…) No Tesouro Britânico durante a Segunda Guerra Mundial, ele quase enlouqueceu alguns de seus colegas com sua propensão a meter o dedo em tudo. ‘Não fique aí parado, faça alguma coisa’ teria sido seu lema nos dias de hoje” (ibid., p. 19).
Johnson observa que a
“atitude instintiva de Keynes diante de qualquer nova situação era assumir, primeiro, que ninguém estava fazendo nada a respeito e, segundo, que, se alguém estivesse fazendo alguma coisa, estava fazendo errado. Era um hábito mental cultivado ao longo da vida, baseado na convicção de que possuía uma inteligência superior (…) e, como bom Apóstolo de Cambridge, era dotado de sensibilidades superiores” (ibid., p. 33).
Uma ilustração marcante da arrogância injustificada e da irresponsabilidade intelectual de Maynard Keynes foi sua reação ao brilhante e pioneiro Treatise on Money and Credit [Teoria da Moeda e do Crédito], de Ludwig von Mises, publicado em alemão em 1912. Keynes havia sido recentemente nomeado editor do principal periódico acadêmico de economia da Grã-Bretanha, o Economic Journal [Jornal Econômico, em tradução livre], da Universidade de Cambridge. Ele resenhou o livro de Mises de maneira extremamente desdenhosa. O livro, escreveu ele de forma condescendente, tinha “mérito considerável” e era “esclarecedor”, e seu autor era certamente “um bom leitor”, mas Keynes expressou sua decepção com o fato de que a obra não era nem “construtiva” nem “original” (Keynes 1914). Essa reação brusca conseguiu destruir qualquer interesse pelo livro de Mises na Grã-Bretanha, e Money and Credit permaneceu sem tradução por duas fatídicas décadas.O aspecto peculiar da resenha de Keynes é que o livro de Mises era altamente construtivo e sistemático, além de extraordinariamente original. Como Keynes não percebeu isso? Esse mistério foi esclarecido uma década e meia depois, quando, em uma nota de rodapé de seu próprio Treatise on Money [Tratado sobre a Moeda, em tradução livre], Keynes admitiu de maneira travessa que “em alemão, só consigo compreender claramente aquilo que já sei — de modo que novas ideias tendem a me escapar por causa das dificuldades da língua” (Keynes 1930a: I, p. 199 n.2). Que descaramento absoluto. Isso era Keynes em sua forma mais pura: resenhar um livro em um idioma no qual era incapaz de compreender ideias novas e, em seguida, atacar esse livro por não conter nada de novo é o cúmulo da arrogância e da irresponsabilidade1.
Outro aspecto da arrogância espalhafatosa de Keynes era sua convicção de que grande parte do que fazia era original e revolucionário. Sua carta a G.B. Shaw, em 1935, é bem conhecida:
“Acredito estar escrevendo um livro sobre teoria econômica que revolucionará em grande medida (…) a maneira como o mundo pensa os problemas econômicos. (…) Quanto a mim, não apenas espero que aquilo que digo esteja correto; em minha própria mente, tenho absoluta certeza disso” (Hession 1984, p. 279).
Mas essa crença em sua própria fanfarronice não se limitava a Teoria Geral.
Bernard Corry aponta que “desde praticamente o início de seu trabalho em economia ele afirmava estar revolucionando a disciplina”. Keynes estava tão impregnado de fé em sua própria criatividade que chegou até mesmo a proclamar grande originalidade em um artigo sobre ciclos econômicos baseado no livro Study of Industrial Fluctuations [Estudo das Flutuações Industriais, em tradução livre], de D.H. Robertson, logo após a publicação dele em 1913. Corry relaciona essa atitude à ênfase insistente do clube social Bloomsbury Group na “originalidade” (pela qual, naturalmente, eles queriam dizer principalmente a própria originalidade). A originalidade, observa ele, era “uma das obsessões do Grupo de Bloomsbury” (Crabtree and Thirlwall 1980, pp. 96–97; Corry 1986, pp. 214–15, 1978, pp. 3–34).
Keynes foi enormemente auxiliado em suas alegações de originalidade pela tradição econômica que Alfred Marshall conseguira estabelecer em Cambridge. Como aluno de Marshall e jovem professor em Cambridge sob sua proteção, Keynes absorveu facilmente a tradição marshalliana.Não que o próprio Marshall reivindicasse uma originalidade extraordinária, embora de fato alegasse ter inventado independentemente a utilidade marginal e fosse reservado e ciumento em relação a estudantes que pudessem roubar suas ideias. Marshall desenvolveu a estratégia de manter um mundo marshalliano hermeticamente fechado em Cambridge (e, consequentemente, na economia britânica em geral). Ele criou o mito de que, em seu magnum opus de 1890, Principles of Economics [Princípios de Economia, em tradução livre], havia construído uma síntese superior, incorporando os aspectos válidos de todas as teorias anteriormente concorrentes e conflitantes (dedutivismo e indutivismo, teoria e história, utilidade marginal e custo real, curto prazo e longo prazo, Ricardo e Jevons)2.
Como conseguiu difundir esse mito com sucesso, acabou gerando a visão universal de que “tudo está em Marshall”, de que, afinal, não havia necessidade de ler mais ninguém. Pois, se Marshall havia harmonizado todas as visões econômicas unilaterais e limitadas, já não existia razão alguma, exceto antiquarismo, para se dar ao trabalho de lê-las. Como resultado, o economista típico de Cambridge lia apenas Marshall, desenvolvendo e elaborando frases ou passagens enigmáticas do Grande Livro. O próprio Marshall passou o resto da vida retrabalhando e expandindo O Texto, publicando nada menos que oito edições dos Principles até 1920.
Quanto ao restante, havia a lendária “tradição oral” de Cambridge, na qual os alunos e discípulos de Marshall tinham prazer em ouvir e transmitir as palavras do “Grande Homem”, bem como em ler seus escritos seminais menores em manuscritos ou em audiências de comissões, já que Marshall manteve a maior parte de seus textos mais curtos fora de publicação até perto do fim de sua vida. Assim, os marshallianos de Cambridge podiam atribuir a si mesmos a aura de uma casta sacerdotal, os únicos iniciados nos mistérios dos escritos sagrados negados aos homens comuns.
O mundo hermeticamente fechado da Cambridge marshalliana logo passou a dominar a Grã-Bretanha; havia poucos desafiantes naquele país. Essa dominância foi acelerada pelo papel singular de Cambridge e Oxford na vida social e intelectual britânica, especialmente nos anos anteriores à expansão educacional que se seguiu à Segunda Guerra Mundial. Desde os tempos de Adam Smith, David Ricardo e J.S. Mill, a Grã-Bretanha conseguira dominar a teoria econômica em todo o mundo, de modo que Marshall e sua seita conseguiram assumir a hegemonia não apenas da economia de Cambridge, mas da economia mundial (ver Crabtree 1980, pp. 101–05)3.
Mises Brasil