domingo, 30 de janeiro de 2022

Uma dose do pensamento de David Hume

 Em Ensaios Morais, Políticos e Literários, o filósofo escocês trata da questão da beleza — e de sua importância para a arte


Em <i>Ensaios Morais, Políticos e Literários</i>, Hume trata da questão da beleza
Em Ensaios Morais, Políticos e Literários, Hume trata da questão da beleza | Foto: Reprodução/Redes sociais

David Hume nasceu em 1711, na Escócia. Filósofo, historiador e ensaísta, o escocês se tornou célebre por seu ceticismo. Ao lado de figuras como John Locke e Adam Smith, Hume é considerado um dos mais importantes pensadores do iluminismo, movimento intelectual que ganhou força na Europa nos séculos 17 e 18. Em resumo, os iluministas defendiam as liberdades individuais e o uso da razão para validar o conhecimento.

Em um trecho de Ensaios Morais, Políticos e Literários, Hume trata especificamente da questão da beleza — e de sua importância para a arte:

“[…] em meio à variedade e ao capricho dos gostos, existem determinados princípios gerais de aprovação ou censura cuja influência pode ser detectada por um olhar atento em todas as operações do espírito. Existem certas formas ou qualidades que, devido à estrutura original da constituição interna do espírito, estão destinadas a agradar, e outras a desagradar”.

As tragédias de Shakespeare, a propósito, possuem formas ou qualidades — usando as palavras de Hume — destinadas a agradar. Esse é um exemplo literário, mas a ideia de uma beleza objetiva também se aplica à música, à arquitetura e à escultura. Para comprovar, basta ouvir Ludwig van Beethoven, ver uma foto da Catedral de Milão e contemplar Davi, de Michelangelo.

Mais adiante, ainda em Ensaios Morais, Políticos e Literários, o filósofo escocês descreve as condições necessárias para o espectador reconhecer as formas ou qualidades destinadas a agradar ou desagradar:

Somente o bom senso, ligado à delicadeza do sentimento, aprimorado pela prática, aperfeiçoado pela comparação e livre de qualquer preconceito, pode conferir aos críticos aquela valiosa personalidade; e o veredicto conjunto daqueles que a possuem, onde quer que se encontrem, constitui o verdadeiro padrão do gosto e da beleza”.

Entende-se, portanto, que o aperfeiçoamento pela comparação é a maneira mais apropriada para o espectador avaliar o que é belo e o que não é. Mas como fazer isso? Depois de ouvir a 9ª Sinfonia, de Ludwig van Beethoven, experimentar gêneros musicais em que conceitos como ritmo, melodia, harmonia, textura e forma não são prioritários. Depois de observar uma foto da Catedral de Milão, ver uma do Museu de Arte de São Paulo (Masp). Por último, basta comparar Davi, de Michelangelo, com a lata de excrementos, de Piero Manzoni. É tiro e queda.

Edilson Salgueiro, Revista Oeste