Com um programa que venda as estatais e conceda a infraestrutura e serviços ao setor privado, reduz-se corrupção, devolvendo otimismo, confiança e liberdade ao mercado
O mexicano Octávio Paz escreveu que nós latino-americanos desconfiamos do uso da liberdade. Cada vez que alguém dela abusa, todos perdem liberdades. A política é a sociedade da desconfiança, e principalmente em crises reage criando legislações draconianas. Acontece agora no Brasil com leis sobre trabalho, estatais, licitações e corrupção. As relações comerciais entre trabalhadores, empresários e governo estão cada vez mais litigiosas. São brutais aumentos de custos transacionais, que a ninguém beneficiam.
Legislação desconfiada traz poucos ganhos nos costumes almejados, mas muitas perdas na atividade empresarial, pelo aumento dos riscos, custos e burocracia. A liberdade pode ser usada para fazer o mal e alguns empresários abusaram muito (abusaram também dos privilégios que tinham). O pior empresário é aquele que, em simbiose com as piores elites políticas, assalta o erário público. Produz pobreza, repulsa social e péssima reputação para todos. O segundo prefere não confrontar o Leviatã e vive em Brasília solicitando compensações e proteções. É o “caçador de benesses” (Sérgio Lazzarini). Parafraseando Churchill, alimenta o leão na esperança de ser o último a ser comido. Também gera pobreza e desconfiança. O conceito de lucro de tais empresários é imoral.
Mas existe um terceiro empresário, criador, visionário, ocupado em inovar e crescer, que precisa de liberdade para competir por ideias, trabalhadores e consumidores nesses locais chamados mercados. Também sofre problema de imagem. A desconfiança do lucro e o discurso da luta de classes o assombram, fantasmas de covas negras intelectuais. Mas é tal empresário que cria riqueza e sem ele estaremos perdidos. É visível seu pessimismo, pois seus riscos aumentam com tais legislações e ele agoniza por reconhecimento social.
A historiadora econômica Deirdre McCloskey desenvolveu hipótese de que a causa principal do gigantesco crescimento em padrão de vida das massas trabalhadoras foi a absorção por elas de costumes burgueses. Os 15 autores da antologia “Reputation” concordam. Roberto Campos argumentou: “Deve-se ter certa consideração com elementos capazes de criar riqueza. O respeito pelo criador de riqueza é o começo da solução da pobreza”.
Não dá para resolver o problema dos empresários ladrões e pidões, da corrupção e ineficiência das estatais, só com legislativo. A política pode reverter tudo, vejam a Mãos Limpas italiana. Políticos e empresários se movem por incentivos econômicos. Corrupção é um crime racional. Tais problemas se extinguem se o governo sair da economia. Com um programa que venda as estatais e conceda a infraestrutura e serviços ao setor privado, reduz-se corrupção e necessidade de legislação desconfiada, devolvendo otimismo, confiança e liberdade aos empresários criadores de riqueza.
Hoje quem defende o fim das estatais e o refluxo do nacionalismo é utópico. Otimistas são desdenhados. Mas a sociedade do conhecimento está erodindo os privilégios do estatismo, nacionalismo e fascismo, apesar de quebra-molas recentes. O mundo será mais igual em informação, renda, consumo, oportunidades, dignidades. Este é o cenário de McCloskey, dos Nobel Robert Schiller e Edmund Phelps. E de cem cientistas que responderam à pergunta da revista Edge: “Como pode ser você otimista?” Também cenário de Sabine Kurstin, sobrevivente do holocausto: “Falsos ideais e ideologias matam, mas nossa estrela-guia é a liberdade”. E cercados por robôs com muito conhecimento e pouca ideologia, os brasileiros do futuro, intrigados, perguntarão: que era aquilo do petróleo ser nosso, do subsolo ser nosso, do mercado ser nosso?
Odemiro Fonseca é empresário