segunda-feira, 12 de dezembro de 2016

Governo Trump: os cinco núcleos mais importantes

O presidente eleito dos Estados Unidos, Donald Trump, se encontra com cadetes em Baltimore, no estado americano de Maryland - 10/12/2016
O presidente eleito dos Estados Unidos, Donald Trump, se encontra com cadetes em Baltimore, no estado americano de Maryland - 10/12/2016 (Aaron P. Bernstein/Getty Images)

Vilma Gryzinski - Veja


O que realmente conta nas iniciativas e nos problemas do presidente eleito, que já age como empossado e cria surpresas sem parar


Como nunca houve um candidato como Donald Trump, é natural que nunca tenha havido um presidente eleito como ele. O pobre Barack Obama, já naturalmente ofuscado pelo fim do mandato, parece esquecido no turbilhão incessante criado por Trump. Devido à natureza hiperativa do futuro presidente, pode ser útil separar em blocos os acontecimentos que realmente contam, pelo menos até agora.
A INVASÃO RUSSA- A pergunta parece até coisa de filme de ficção política: até que ponto a máquina de propaganda e desinformação da Rússia influiu na eleição de Trump?
Primeiro, é preciso separar a questão em duas partes. Uma coisa é o óbvio interesse e a desconcertante simpatia de Vladimir Putin pela candidatura Trump. Outra coisa é o efeito real das intervenções do Kremlin. “Plantar” informações falsas ou distorcidas não equivale a influenciar no voto dos eleitores americanos.
O assunto é tão explosivo que já levou Trump a desafiar os conclusões da CIA. Pelo menos tal como constam de duas reportagens publicadas nos dois jornais mais importantes e mais anti-Trump dos Estados Unidos, o New York Times e o Washington Post.
Donald Trump tripudiou, lembrando que a CIA induziu os americanos a apoiar a invasão do Iraque no caso das inexistentes armas químicas e biológicas do regime de Sadam Hussein.
John Bolton, um dos maiores falcões do céu da política externa americana, foi mais adiante: questionou as investigações sobre a invasão do sistema de computadores do Partido Democrata, segundo as quais os serviços secretos russos deixaram  “impressões digitais” apontando eletronicamente para eles. Chegou a insinuar uma operação do tipo bandeira falsa.Ou seja, agências de inteligência americanas teriam inventado o caso dos computadores hackeados só para deixar Trump em má situação.
Vamos repetir, para sublinhar a gravidade dos fatos:  o futuro presidente, antes mesmo de tomar posse, está brigando com a CIA publicamente (a portas fechadas, já aconteceu em praticamente todos os governos). E um de seus associados, Bolton, acusa indiretamente o governo Obama de tramar, contra a lei, operações de inteligência contra um candidato americano.
A BRIGA COM A CHINA- Trump dinamitou com um único telefonema a ordem estabelecida há quarenta anos, por exigência inapelável da China para normalizar relações  com os Estados Unidos e qualquer outro país: tratar a ilha de Taiwan, Formosa para os portugueses, refúgio dos chineses nacionalistas depois da vitória comunista, como uma não-entidade.
Ninguém imagina que Trump estivesse andando por seu triplex de cobertura no conjunto de prédios com seu nome na Quinta Avenida quando resolveu atender, por cortesia, o telefonema congratulatório  da presidente de Taiwan, Tsai Ing-wen.
Mas caso alguém tenha um ataque de ingenuidade e acredite nessa hipótese, aqui vão as declarações mais recentes de Trump sobre o assunto: “Eu entendo perfeitamente bem como funciona a política de ‘Um só China’, mas não entendo por que temos que nos limitar a ela a não ser que façamos  um acordo com a China sobre vários temas, incluindo o comércio”.
Em resumo, Trump quer rever as bases do relacionamento com a China para ter condições comercialmente mais favoráveis aos Estados Unidos. Ah, sim, e talvez esteja usando a questão de Taiwan para forçar uma renegociação.
Pode dar tremendamente errado e os chineses, que já se declararam “seriamente preocupados” com as declarações de Trump, são um osso duríssimo de roer. Mas imaginem o efeito que teria se ele conseguisse algumas vantagens?
A NOVA POLÍTICA ECONÔMICA- Seria Trump um novo keynesiano? Fazer uma política de grandes investimentos em obras públicas para incentivar o crescimento econômico é o sonho de todos aqueles que ficam à esquerda do espectro ideológico (e ainda acham que faltam muitas etapas para a revolução socialista). Mas foi só Trump dizer que pretende fazer exatamente isso, com a ambição algo exagerada de criar 25 milhões de empregos, para receber pancadas de todos os lados.
Trump também faria bonito junto a certos pensadores econômicos desenvolvimentistas por sua intervenção no caso da Carrier. A grande fabricante de aparelhos de ar condicionado ia fechar operações no estado de Indiana e transferir a produção para o México. Trump conseguiu isenções fiscais do estado para que a fábrica continue lá.
Não é assim que funciona, reclamaram editoriais de todo o país. Larry Summers, gênio  econômico residente de Harvard, deixou-se levar por uma certa animosidade e disse que era exatamente assim que o capitalismo americano entrava no caminho da destruição.
Existe algo de irônico no fato de que Trump seja chamado de inimigo do capitalismo. Na reveladora entrevista que deu a Chris Wallace no domingo, o presidente eleito rejeitou um dos fundamentos do livre mercado, segundo o qual empresas têm todo o direito de decidir onde será melhor para elas situar suas operações.
“Isso não é livre mercado, é mercado burro”, teimou Trump. Ele já tem até a sobretaxa que pretende cobrar de empresas que transfiram operações para o exterior: 35%. Sobre os editoriais do Wall Street Journal condenando esse tipo de intervencionismo, Trump também tem uma opinião: “Eles não entendem de negócios”.
Trump como revolucionário anti-capitalista não deixa de ser uma perspectiva espetacular.
A FORMAÇÃO DO MINISTÉRIO- Trump está formando um governo de “bilionários e generais”, dizem os muitos comentários negativos. Trump está formando um governo de bilionários e generais, dizem os pouquíssimos comentários positivos.
Como caso sem precedentes de presidente eleito sem nunca ter exercido nenhuma atividade política antes, Trump não “tem esquema”, para o bem e para o mal. Não é estranho que, com sua formação, tenha procurado “gente que chegou ao topo”, segundo suas palavras, no mundo dos negócios e das altas patentes.
Sobre dois dos “seus” generais, como diz Trump, existe quase consenso. James Mattis, indicado para ser secretário da Defesa, e John Allen, para a Segurança Interna, são tão elogiados e admirados quanto é possível no atual ambiente político de alta toxidade. O terceiro, Michael Flynn, é mais complicado. Como assessor de Segurança Nacional, não precisará passar pela aprovação do Congresso e o eventual constrangimento que audiência do tipo provocam.
E se Trump é um agente russo (ou no mínimo um perigoso keynesiano) plantado para destruir o capitalismo, como dizem os críticos mais exaltados, talvez não seja ruim ter uns ombros estrelados por perto.
Os outros designados, até agora, seguem – surpresa, surpresa – as promessas feitas por Trump. Ele quer mudar o Obamacare, o sistema de saúde implantado com sucesso duvidoso pelo atual presidente, e escolheu como ministro da área um deputado republicano especialista no assunto, Tom Price.
Também pretende diminuir as restrições que as licenças ambientais provocam em várias atividades econômicas, principalmente na exploração de dois recursos que criam empregos e sustentam o poderio americano, petróleo e gás de xisto.
Escolheu para isso, como chefe da Agência de Meio-Ambiente, Scott Pruitt. Como secretário da Justica de Oklahoma, Pruitt se especializou em processos desse tipo. Muitos americanos concordam com essa política e algumas dezenas de milhões deles até votaram em Trump para fazer exatamente isso. Isso não significa que o meio-ambiente vá ser cruelmente destruído no governo Trump.
NEGÓCIOS E FAMÍLIA-  Duas das áreas potencialmente mais encrencadas para Trump. Ele reiterou na entrevista à Fox que adoraria que a filha Ivanka e o marido dela, Jared Kushner, ocupassem funções oficiais – o jeito mais garantido de começar mal seu governo e acabar pior ainda. Acha, absurdamente, que o genro, judeu ortodoxo, poderia conseguir o que nenhum presidente americano alcançou até hoje: um acordo de paz permanente entre Israel e palestinos.
Ainda durante a campanha, mandou o filho mais velho, Donald Trump Jr., participar em Paris de conferências de um centro de estudos políticos  cujo fundador, um milionário francês, e sua  mulher nascida na Síria, simpatizam com a intervenção russa.
Seu império de negócios imobiliários, entre outros, também será uma fonte permanente de suspeitas. De maneira discreta – um espanto para uma personalidade como Trump -, pessoas de seu círculo têm divulgado informações interesses. Uma delas: em junho, Trump vendeu todas as ações que tinha, coisa de uns 40 milhões de dólares. Outra: logo depois de ser eleito, desvinculou-se de projetos na Arábia Saudita.
Será que Trump é um pouco mais esperto do que seus inimigos imaginam?