sábado, 10 de dezembro de 2016

"Eleições em 2017 definirão futuro da UE", editorial de O Globo

Alemanha, França e Holanda, entre outros, escolherão representantes num momento em que o populismo cresce no continente. Em jogo, estará a integração europeia


Se 2016 foi desafiador ao establishment político da União Europeia (UE), o ano que vem promete ser decisivo para o futuro do projeto de integração do Velho Continente.

Pela primeira vez, vozes contrárias ao bloco disputarão eleições presidenciais, regionais e legislativas em países estrategicamente importantes, como Alemanha, França, Holanda e Hungria, com chances de vitória ou, no mínimo, de obter importantes conquistas parlamentares, embaladas pela saída do Reino Unido do bloco, a recente renúncia do premier italiano, Matteo Renzi, e até mesmo pela vitória de Donald Trump nos EUA.

Líderes fundamentalistas do nacional-populismo, cujas ideias não raro eram tomadas mais como anedotas do que como propostas viáveis, se consolidaram como porta-vozes de um público crescentemente insatisfeito e desorientado, composto sobretudo pelo segmento mais afetado pelos efeitos sociais da crise de 2008 e pela globalização. Figuras radicais à esquerda e à direita, como o espanhol Pablo Iglesias, do Podemos; o italiano Beppe Grillo, do Movimento Cinco Estrelas; a francesa Marine Le Pen, da Frente Nacional; e a alemã Frauke Petry, do partido Alternativa para a Alemanha viram sua influência crescer este ano.

Os argumentos contrários à integração europeia se sustentam numa verbosa retórica nacionalista, contrária à moeda única e ao livre trânsito entre os países do bloco. Tomam a forma de propostas distintas, como antiglobalização, anti-imigração, anti-UE, e que tais;

mas invariavelmente seguindo na direção do isolamento e da fragmentação. Prometem não apenas recuperar o emprego, a moradia e o bem-estar social, mas igualmente bens intangíveis, como a honra e a glória de um passado histórico. Arregimentam movimentos e agremiações ideologicamente à esquerda e à direita, aproveitando a insatisfação generalizada da população afetada pelos efeitos sociais da crise global de 2008 e do remanejamento de linhas de produção no mundo.

Pesquisas recentes revelam que a maioria dos europeus ainda defende a permanência de seus países na União Europeia e a moeda única. Tendência reforçada no último domingo pela vitória do verde Alexander Van der Bellen na eleição presidencial da Áustria. Ele derrotou Nortbert Hofer, do Partido da Liberdade, de extrema-direita. Segundo o “Wall Street Journal”, 54% dos italianos; 69% dos austríacos e 73% dos alemães querem o euro como moeda comum.

Mas a mesma pesquisa aponta que apenas um em cada três europeus têm uma visão positiva da UE. E a derrota do referendo proposto por Renzi, que culminou em sua saída do governo italiano, cuja economia vive uma preocupante crise, mostra que há terreno para o avanço do Cinco Estrelas e seu histriônico líder.