sábado, 3 de setembro de 2016

"Venezuela precisa realizar plebiscito revogatório este ano", editorial de O Globo

Um milhão de manifestantes tomam as ruas de Caracas para exigir saída de Maduro e novas eleições. Governo reprime ato e tolhe a cobertura da imprensa


Dois anos e meio após a onda de protestos na Venezuela que deixou dezenas de mortos e milhares de presos, a população voltou, na quinta, a ocupar as ruas da capital do país, com reflexos em outras cidades, no que está sendo considerado a maior manifestação contra o regime chavista já realizada. A “Tomada de Caracas” reuniu cerca de um milhão de pessoas, segundo cálculos da Mesa de Unidade Democrática (MUD), coalizão que congrega as agremiações de oposição.

A razão do protesto é exigir que o governo cumpra a Constituição e realize o plebiscito revogatório do presidente Nicolás Maduro ainda este ano. Depois de conseguir as assinaturas para iniciar o processo, este ficou engavetado na Justiça, aparelhada pelo governo. Se o plebiscito não for realizado até o dia 10 de janeiro, mesmo que a oposição vença, e Maduro saia, não haverá nova eleição. O vice, Aristóbulo Istúriz, assume o restante do mandato, até 2019.

O governo reagiu ao ato com todo tipo de intimidação e violência. Reprimiu manifestantes com gás lacrimogênio e usou milícias para bloquear estradas, impedindo a entrada na capital de venezuelanos do interior que se dirigiram à capital para protestar. Várias estações de Metrô permaneceram fechadas, dificultando o acesso às áreas de protesto. Imagens divulgadas por internautas pelas redes sociais mostraram dezenas de prisões sendo efetuadas nas ruas de Caracas. A aliança opositora acusou ainda o governo de usar agentes infiltrados para provocar a reação da polícia.

Maduro tentou impedir a cobertura jornalística independente, expulsando correspondentes, às vésperas do protesto, e barrando a entrada de jornalistas de vários veículos estrangeiros, entre eles, “Le Monde”, “Miami Herald” e TV Caracol, da Colômbia. A ofensiva do governo contra a cobertura do protesto gerou protesto da Sociedade Interamericana de Imprensa (SIP). O presidente da entidade, Pierre Manigault, apontou: o governo de Maduro “está longe dos padrões democráticos”.

A popularidade de Maduro está abaixo de 30%, segundo pesquisas recentes. O país vive em meio à sua maior crise econômica, com inflação de três dígitos, desabastecimento de bens de primeira necessidade e racionamento de água e luz. À proporção inversa que sua popularidade diminui, cresce o autoritarismo, reforçando o isolamento da Venezuela no continente — sobretudo agora, que o regime chavista já não conta com o apoio cego de Brasil e Argentina.

Em manifestação organizada pelo governo para se contrapor à “Tomada de Caracas", Maduro disse ter provas de que a oposição pretende realizar um golpe e que vai lançar um decreto estabelecendo o fim da imunidade parlamentar, para processar os membros da MUD, e citou o presidente da Assembleia Nacional, Henry Ramos Allup.

A crise na Venezuela chegou a tal ponto que a população perdeu o medo de ir às ruas. E ela está certa na exigência: é preciso realizar o plebiscito revogatório ainda este ano.