sexta-feira, 11 de julho de 2014

"Vergonha e paciência", por Luiz Garcia

O Globo

Não se compara com a derrota de 1950 para o Uruguai, produto em grande parte do clima de ‘já ganhou’ que imperava tanto nas arquibancadas como nos vestiários

Algum sábio já disse que as derrotas têm uma saudável vantagem sobre as vitórias: é nelas que mais aprendemos. Como se vê, sábios são capazes de se igualarem aos mais perfeitos idiotas. Ou existe alguém na nossa arquibancada exaltando as lições dos 7 a 1 de terça-feira?

Como disse o jornal, com concisa precisão: “Vergonha, vexame, humilhação.” As três dolorosas palavras retratam exatamente o que aconteceu no gramado do Mineirão. Elas só não dizem aquilo que mais precisamos saber; ou seja, as razões do desastre. Porque não fomos apenas e simplesmente vencidos: levamos uma surra, como jamais aconteceu na história do futebol brasileiro.

Na verdade, foi uma catástrofe inédita na história de uma seleção com a merecida fama do futebol brasileiro. Não se compara com a derrota de 1950 para o Uruguai, produto em grande parte do clima de “já ganhou” que imperava tanto nas arquibancadas como nos vestiários.

Está na hora, inevitável, de identificar culpados. Não há um responsável isolado. Mas, obviamente, inevitavelmente, uma grande parcela do que aconteceu pode ser atribuída, ou, melhor dizendo, tem de ser jogada nos ombros de Felipão, autor de uma explicação genial: disse que pretendia “confundir o técnico deles” com a escalação de Bernard no lugar do contundido Neymar e para isso fez com que o substituto treinasse apenas alguns minutos. Pelo que se viu, mais confundido ficou o pobre Bernard.

Na condição de sobrevivente da tragédia de 1950, informo aos mais jovens que sempre podemos dar uma volta por cima. Naquele passado remoto, a tal volta demorou oito anos para acontecer. E daí em diante atingimos uma confortável posição entre as potências do futebol internacional.

Portanto, meninos, vale a pena ter paciência. E não esquecer que os derrotados desta semana estão entre os melhores jogadores do mundo — como certamente também acontecerá com as próximas gerações. Tanto de jogadores como de técnicos.