sexta-feira, 11 de julho de 2014

Por mais ética no campo e fora dele

Blog Rodrigo Constantino - Veja


Fred cavando um pêntalti
 
 
“Quem se vinga depois da vitória é indigno de vencer.” (Voltaire)
 
 
O futebol brasileiro não poderia deixar de ser um traço de nossa cultura nacional. O estilo em campo tem elo com o estilo fora dele. Jeitinho, malandragem, teatralidade, tudo isso é parte do repertório de nossos jogadores dentro das quatro linhas do gramado. Acredita-se, normalmente, que só a vitória importa, não como ela foi obtida.
 
Como disse um leitor, o brasileiro acha que catimba é “arte”. Mas não é exclusividade nossa. Esse é um traço da cultura latino-americana, de forma mais genérica. O gol de mão de Maradona é celebrado como um ato de pura malandragem. Os jogadores que cavam pênalti o tempo todo adotam o mesmo recurso: simular algo que não aconteceu é visto com muita normalidade por aqui. Não deveria.
 
O “fair play” demanda uma postura diferente em campo. Em sua coluna de hoje na Folha, Reinaldo Azevedo falou disso, lembrando que os alemães ficaram muito irritados com essa malandragem nossa e têm até uma palavra específica para ela. A vitória tem outro sabor quando é digna, ou seja, quando é fruto realmente do mérito, da superioridade técnica, e não da “esperteza” desleal. Diz o jornalista:
 
Se o futebol é metáfora da guerra, é preciso lembrar que a guerra também pode ter uma ética –não quando se é Gêngis Khan. Depois de se vingar de Heitor –e como!–, Aquiles entrega o corpo do oponente para ser honrado pelo pai. Só os vitoriosos mesquinhos –e, pois, derrotados moralmente pela própria arrogância– tripudiam sobre o vencido. A vitória final é ser humilde no triunfo para que o outro possa ser digno na derrota, enobrecendo, então, aquele que conquistou o galardão. Só existe honra quando se vence um forte. Nesse sentido, o confronto, inclusive a guerra com regras, é uma forma de apuro ético. E, obviamente, é possível ser indigno na paz.
 
O Brasil precisa, acima de tudo, de uma evolução cultural. Aquilo que hoje é visto como vantagem deve ser finalmente enxergado pelo que é: um obstáculo ao nosso progresso. Uma sociedade ética, que respeite o “fair play”, tende a avançar muito mais. Cria-se uma sociedade de confiança, ao contrário de uma em que todos querem levar vantagem sobre todos. Reinaldo Azevedo traça o paralelo com nossa política:
 
A simulação da falta é um vício nacional. No futebol, na vida, na política. Acusar o adversário de uma transgressão que ele não cometeu é uma falha moral grave. Trata-se de reivindicar a licença para reagir àquilo que não aconteceu, tentando fazer com que o outro pague uma conta indevida. Um dia antes da partida fatídica, a presidente Dilma Rousseff, demonstrando que anda com pouco serviço –e só gente muito ocupada tem tempo de fazer direito o seu trabalho–, resolveu participar de um bate-papo numa rede social. Exaltou o heroísmo de Neymar, discorreu sobre a garra do povo brasileiro e, ora vejam!, censurou os “urubus do pessimismo”.
 
Desde o início do torneio, a presidente e seu partido acusam a oposição e críticos do governo de faltas que não cometeram: teriam antevisto o caos na Copa e estariam torcendo contra o sucesso do evento. Simulação! 
 
Precisamos de menos simulações e mais ética. Mas é difícil chegar lá quando o povo de forma geral aplaude a malandragem e o PT em particular acusa todos os críticos de praticarem um “moralismo udenista”. Até quando vamos valorizar a “esperteza” que só nos afunda? Como dizia Stanislaw Ponte Preta, personagem humorístico de Sérgio Porto:  ”Instaure-se a moralidade, ou nos locupletemos todos”. E se todos nos locupletarmos, então será mesmo o fim…
 
PS: Os alemães deram um show em todos os aspectos: organização, trabalho árduo, humildade e habilidade. E, claro, não tripudiaram dos derrotados humilhados, mostrando dignidade típica dos verdadeiros vencedores. Que levem a taça no domingo, pois merecem!