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Somente 42% dos jovens entre 15 e 29 anos frequentam alguma instituição de ensino, aponta pesquisa sobre juventude feita pela Universidade Católica
Estudantes saíram ás ruas durante protesto anti-governo em Caracas - (17/02/2014) (Santi Donaire/EFE)
A situação econômica e social da juventude venezuelana está longe do discurso oficial. Segundo pesquisa feita pelo Instituto de Pesquisa Econômica e Social da Universidade Católica, cerca de 1,7 milhão de venezuelanos com idades entre 15 e 29 anos não têm trabalho e nem frequentam escola ou universidade. Dos 7,6 milhões de pessoas nessa faixa etária, apenas 42% frequentam alguma instituição de ensino, afirma nesta sexta-feira ao jornal El Universal a coordenadora da Pesquisa Nacional da Juventude, Anitza Freitez. Entre os jovens da chamada geração ‘ni-ni’ (ni trabajan, ni estudian, ou, em português, não trabalham e nem estudam), há 900.000 que sequer completaram o ensino secundário.
A ampla pesquisa foi um esforço para preencher uma lacuna nos dados estatísticos venezuelanos, já que o último estudo semelhante foi realizado em 1993. Nos últimos 20 anos, a população jovem da Venezuela aumentou de 5,9 milhões de pessoas para 7,6 milhões, mas poucas foram as propostas de políticas públicas para atender as necessidades desse segmento da sociedade. De acordo com Anitza Freitez, os dados mostram que, embora nos primeiros anos do chavismo tenha havido expansão nas matrículas, isso não significa que os jovens consigam levar os estudos adiante.
"Há uma enorme lacuna no acesso à educação. Há até 30 pontos percentuais de diferença entre os mais pobres e parcela mais rica em termos de frequência escolar", explicou Anitza. Os jovens de famílias mais ricas possuem em média seis anos de estudo a mais que os mais desfavorecidos. No total, 1,3 milhões de jovens entre 20 e 29 anos que entraram numa faculdade, não conseguiram finalizar seus cursos. O fator geográfico também influencia na escolaridade dos jovens, pois a população das grandes cidades tem mais acesso às escolas e às universidades do que a população da zona rural ou de cidades pequenas.
A pesquisa também constatou que o impacto das missões do governo para melhorar as condições sociais da juventude foi “muito baixo”. A maternidade juvenil, por exemplo, ainda é um problema latente. De acordo com o estudo 15% das mulheres entre 15 e 19 anos já são mães. A maternidade aumenta para 45% no segmento de mulheres entre 20 e 24 anos. Anitza salientou que as garotas engravidam mais cedo em áreas rurais ou menos urbanizadas, e nas camadas mais pobres. O estudo ouviu 4.022 jovens que foram divididos em três faixas etárias, de 15 a 19 anos; de 20 a 24, e de 25 a 29.
A Venezuela enfrenta uma onda de protestos desde fevereiro devido à inflação, à falta de emprego e de produtos básicos – como papel higiênico, açúcar, farinha ou leite – e à altíssima violência que provoca em média 65 mortes por dia no país. Os protestos começaram com manifestações estudantis e depois ganharam o apoio da oposição e de outros setores da sociedade.
Os estragos do chavismo na Venezuela
Hugo Chávez chegou ao poder na Venezuela em fevereiro de 1999 e, ao longo de catorze anos, criou gigantescos desequilíbrios econômicos, acabou com a independência das instituições e deixou um legado problemático para seu sucessor. Nicolás Maduro assumiu o poder em 2013 e está dando continuidade aos erros do coronel. Confira:
Criminalidade alta
A criminalidade disparou na Venezuela ao longo dos 14 anos de governo Chávez. Em 1999, quando se elegeu, o país registrava cerca de 6 000 mortes por ano, a uma taxa de 25 por 100 000 habitantes, maior que a do Iraque e semelhante à do Brasil, que já é considerada elevada. Segundo a ONG Observatório Venezuelano de Violência (OVV), em 2011, foram cometidos 20 000 assassinatos do país, em um índice de 67 homicídios por 100.000 habitantes. Em 2013, foram mortas na Venezuela quase 25 000 pessoas, cinco vezes mais do que em 1998, quando Hugo Chávez foi eleito.Apesar de rica em petróleo, a Venezuela é o país com a terceira maior taxa de homicídios do mundo, atrás de Honduras e El Salvador. Entre as razões para tanto está a baixa proporção de criminosos presos. Enquanto no Brasil a média é de 274 presos para cada 100 000 habitantes, na Venezuela o índice está em 161. De acordo com uma ONG que promove os direitos humanos na Venezuela, a Cofavic, em 96% dos casos de homicídio os responsáveis pelos crimes não são condenados.
Inflação galopante
A economia venezuelana tem um histórico de inflação alta, desde antes de Chávez chegar ao poder. Contudo, a gastança pública aliada a uma política expansionista e estatizante fez com que a alta dos preços atingisse níveis absurdos. Segundo o FMI, a inflação anual venezuelana fechou 2012 a 26,3%. Em 2013, o índice fechou em 56%, a mais alta taxa do continente americano e mais do que o dobro da registrada no país no ano anterior. Os números poderiam ser muito piores se não fosse o controle de preços exercido pelo governo. No entanto, essa regulação afetou a produção e levou a escassez de alimentos básicos como leite, carne e até papel higiênico. A desvalorização de mais de 30% da moeda, que entrou em vigor em fevereiro, fez com que alguns preços duplicassem.Desmonte das instituições
Em 1999, Chávez aprovou uma nova Constituição que eliminou o Senado e estendeu seu mandato para seis anos, além de conseguir uma lei que lhe permitia governar por decreto. A concentração de poderes promovida pelo caudilho, no entanto, não se restringiu ao Legislativo. O Judiciário foi tomado por juízes alinhados ao chavismo. A cúpula das Forças Armadas também demonstrou lealdade ao coronel logo depois de anunciada sua morte, quando as tropas foram colocadas nas ruas com o objetivo declarado de "manter a ordem". "Vida longa, Chávez. Vida longa, revolução", bradou o ministro da Defesa, Diego Alfredo Molero Bellavia. A oposição em várias oportunidades pediu a obediência à Constituição.A imprensa também não escapou do controle imposto por Chávez. Em 2007, o governo não renovou a concessão do maior canal de televisão venezuelano, a RCTV. A Globovisión, única emissora que ainda mantinha uma linha crítica ao governo, também foi vendida.
PDVSA em ruínas
O petróleo, extraído quase inteiramente pela PDVSA, a Petrobras da Venezuela, é responsável por 50% das receitas do governo venezuelano. Além do prejuízo de uma economia não diversificada, Chávez demitiu em 2003 40% dos funcionários da companhia após uma greve geral e os substituiu por aliados. A partir daí, as metas de investimento não foram cumpridas e a produção estagnou.O plano de investimentos da PDVSA divulgado em 2007 previa a produção de 6 milhões de barris por dia este ano, mas entrega menos da metade. A exploração de petróleo caiu de 3,2 milhões de barris diários (em 1998) para 2,4 milhões (dado de 2012). O caudilho foi beneficiado, no entanto, pelo aumento do preço do produto e usou a fortuna para financiar programas assistencialistas e comprar aliados na América Latina.
O presidente Nicolás Maduro deu continuidade às 'misiones', como são conhecidos os programas assistencialistas. O desafio será mantê-los e ainda investir na petrolífera e aumentar a produção.
Crise elétrica
Entre o final de 2009 e início de 2010, a Venezuela sofreu uma crise no setor elétrico, agravada pela estiagem que reduziu drasticamente os níveis dos rios que alimentam as hidrelétricas. Preocupado em ajudar financeiramente os aliados latino-americanos, o governo Chávez deixou de investir em novas usinas. E as companhias do setor elétrico, sob a praga da gestão chavista, tiveram queda na produção por falta de manutenção, corrupção e aumento escandaloso do número de funcionários. A crise foi tão grave que paralisou vários setores da economia e obrigou o governo a declarar estado de emergência no país.Para contornar a situação, Chávez propôs o "banho socialista" de três minutos, pediu para os venezuelanos usarem lanternas para ir ao banheiro no meio da madrugada e exortou as grandes empresas a gerar sua própria eletricidade. Em 2012, Chávez reconheceu que a Venezuela ainda sofria com problemas elétricos, mas disse que, se não tivesse chegado ao poder em 1999, o país se iluminaria com lanternas e cozinharia com lenha.
O fato é que ainda hoje apagões são registrados em todo o país. O discurso de Nicolás Maduro agora é colocar a culpa nos "inimigos da pátria", que estariam sabotando o sistema de energia.