Luciana Casemiro - O Globo
Para pioneira do movimento de donas de casa, consumo consciente é o futuro
Trinta e um anos depois, com o segundo bisneto a caminho, Lúcia continua dando expediente toda tarde na sede do Movimento das Donas de Casa e Consumidores de Minas Gerais, em Belo Horizonte, entidade da qual é presidente. Mas após a estabilidade conquistada com o Plano Real, a preocupação deixou de ser deter o remarcador de preço que teimava em atuar até três vezes ao dia e passou a ser educar crianças para o consumo consciente. Da herança da hiperinflação ficou a lição de que “a pesquisa de preço não pode sair da cabeça do consumidor".
Como surgiu a ideia de criar um movimento de donas de casa para controlar preços?
Vivíamos uma das piores crises econômicas do país. Houve perda do poder de compra e da qualidade de vida. Não havia condição de fazer planejamento doméstico. Os preços eram remarcados duas, três vezes por dia na cara da gente. E isso afetava a vida familiar. Era o marido perguntando o que a gente fez com o dinheiro, os filhos pedindo as coisas e a gente não podia dar. Até hoje tenho trauma das máquinas remarcadoras.
E como vocês atuavam?
Começamos de maneira bastante amadora. Um grupo de dona de casas ia para a rua com prancheta na mão coletando preço dos principais produtos de higiene, limpeza e alimentação e divulgava na imprensa. Os fornecedores que praticavam os preços mais altos entravam na nossa lista negra, orientávamos a prática do boicote. Fazíamos fila indiana de carrinhos vazios nos supermercados.
Quantas mulheres participavam?
Cerca de cem. Mas para a rua ia uma turma de 20. Muitas tinham medo, os maridos não deixavam. Eu deixava os meninos com a emprega ou com o marido e ia. Não podia ficar de braços cruzados. Sempre fui topetuda. E como quase ninguém tinha telefone, e ainda por cima era caro, fazíamos uma corrente, cada uma ligava para dez para fazer as convocações.
Havia espaço para brigar por mais alguma coisa além do preço?
Tentávamos falar sobre qualidade e peso, mas não havia como discutir muito mais. O negócio era a sobrevivência. Éramos sentinelas da economia fazendo um trabalho de formiguinha.
Como fica o movimento depois da implementação do Plano Real?
O real trouxe tranquilidade. Antes não dava nem para guardar o preço dos produtos, pois de manhã era um e de tarde já podia ser outro.
Mas ficou algum ensinamento do período de hiperinflação?
O ensinamento é que a pesquisa de preço não pode sair da cabeça do consumidor, mas qualidade também não. Não adianta comprar barato, mas porcaria. Outra coisa que não se pode esquecer é de pechinchar, principalmente, comprando à vista. Essa é uma prática que faço em todas as línguas quando viajo (risos). Hoje essa moçada tem vergonha de pechinchar, de botar a boca no trombone quando se sente lesada.
Essa geração, que não viveu a hiperinflação, tem uma noção diferente do valor das coisas?
Certamente. Temos trabalhado muito nas escolas com educação para o consumo. Quanto mais cedo, mais fácil mudar a cultura. Hoje os jovens compram mochila, tênis por preços absurdos, perderam um pouco a noção. Queremos ensiná-los a substituir marcas quando houver aumentos exorbitantes, prática que adotávamos durante a hiperinflação.
Os problemas mudaram, é isso?
O saldo do 1º de julho de 1994 é muito positivo. Mas os problemas dos consumidores não acabaram. Hoje o crédito fácil leva ao endividamento. As pessoas acostumaram a pensar na prestação e esqueceram de ver o valor total do produto, e gastam o que não ganham. Além disso, tivemos nos anos de 1990, a promulgação do Código de Defesa do Consumidor (CDC), que tive a honra de ajudar a defender. Conseguimos milhares de assinaturas.
Qual o maior ganho com o CDC?
O CDC fez aumentar o respeito do fornecedor pelo cidadão. Antes quando reclamava da qualidade da carne, por exemplo, a resposta era: “Não quer, não leva”. Recentemente, reclamei a um fabricante de requeijão da consistência do produto, além do laudo, explicando que houve um problema com o lote, me mandaram uma caixa de requeijão. A atitude do fornecedor é totalmente diferente.
E como é ir hoje ao supermercado?
Hoje a inflação está meio camuflada. Pedimos às donas de casa que observem qual foi o aumento no supermercado do seu bairro na semana. É que os homens, apesar de fazer as compras da casa, o que é uma evolução, não são tão atentos a preços. Estamos numa zona perigosa. Já temos relatos de pessoas que estão tirando produtos do carrinho, pois o dinheiro não dá mais para adquirir a mesma quantidade de itens.