Eliane Oliveira, Paulo Celso Pereira e Luiza Damé - O Globo
Eduardo Campos diz que governo não tem mostrado capacidade de melhorar economia. Vice-presidente da Câmara avalia que mudança na nota deve servir de alerta para que o governo adote mudanças
“Infelizmente aconteceu o previsto e o país teve sua nota de crédito rebaixada pela Standard & Poor’s. A decisão coroa uma temporada de equívocos cometidos pelo governo da presidente Dilma Rousseff na área econômica, mas não só nela. O histórico de manipulações contábeis, o descuido com a boa aplicação dos recursos públicos, a leniência com a inflação, a ineficácia na realização dos investimentos necessários para destravar o país, em contrapartida aos exorbitantes gastos correntes, explicam, com sobras, a indesejada decisão”, afirmou o senador, em nota.
Aécio avalia que com a mudança no rating da dívida brasileira, e o possível encarecimento do crédito para o país no mercado internacional, ficará ainda mais difícil que o país cresça.
“A revisão do rating brasileiro tende a encarecer o crédito para o país no mercado internacional e afetar ainda mais nossas perspectivas de desenvolvimento. O Brasil passa por um triste momento de perda de confiança, de credibilidade arranhada – em síntese, de desesperança em relação ao futuro e de erosão das conquistas do passado. Tamanho retrocesso não é obra que se constrói ao acaso. É fruto de desacertos diários de um governo que, até hoje, mais prejudicou do que ajudou o Brasil”, completou o opositor de Dilma.
Outro possível oponente de Dilma nas urnas em outubro, o governador de Pernambuco, Eduardo Campos (PSB), afirmou em nota que os brasileiros já sabem o que a S&P formaliza agora: que o país passa por um período de baixo crescimento, com inflação alta e grandes gastos públicos.
“O rebaixamento da nota brasileira por uma agência de classificação de risco poderia até ser relativizado pelo governo, se esse mesmo governo não tivesse festejado o "upgrade", quando foi concedido anos atrás. Não precisamos que os outros nos digam quais são nossos problemas, nós sabemos bem quais são eles. Baixo crescimento com inflação alta. Baixo investimento com altos gastos correntes.
Campos ainda reforçou que o atual governo tem mostrado incapacidade de mudar o cenário econômico.
“Infelizmente o governo não tem mostrado capacidade de enfrentar o desafio e mudar o jogo. Mas outubro está aí. Quem vai colocar o Brasil de volta nos trilhos não é ninguém de fora. Vai ser o povo brasileiro nas urnas”, afirmou Campos.
Do lado do governo, o vice-presidente da Câmara, André Vargas (PT), lamentou o rebaixamento, afirmou que ele deve ser visto como um alerta para que o governo adote mudanças, mas sustentou que a economia do país mostra melhora na dívida líquida e que a inflação está dentro do limite tolerável da meta. O petista ainda reforçou que o Brasil vem crescendo com taxas que se enquadram entre as melhores do mundo.
— A gente lamenta que tenha acontecido isso. Mas os dados macroeconômicos do Brasil são todos sustentáveis: a relação divida/PIB é uma das melhores do mundo, a taxa de inflação está dentro da meta, não há problema cambial e temos índices sociais importantes. Não tem motivo nenhum para essa decisão. Do ponto de vista do crescimento, somos um dos melhores do mundo, fora a China.
Não há motivo visível para que isso aconteça. O governo vai tomar as medidas necessárias para o que esse alerta significa, mas o país está na rota. Mantendo dentro do grau de investimento conseguimos seguir dentro da rota de desenvolvimento — afirmou Vargas.
Depois de participar de uma reunião de líderes governistas com a ministra de Relações Institucionais, Ideli Salvatti, na noite desta segunda-feira, o líder do PT no Senado, Humberto Costa (PE), minimizou o impacto do rebaixamento. Para o líder petista, a decisão reflete "interesses de especuladores".
— O Brasil permanece na condição de baixo risco de investimentos, continua com seus pressupostos econômicos bastantes sólidos. Essa decisão reflete um cenário que não é mais o cenário de hoje. Era um cenário de uma enxurrada de avaliações negativas de pessimismo que se refletem agora, mas não reflete o cenário destes primeiros meses do ano, em que temos crescimento do emprego, crescimento do PIB, crescimento industrial, inflação sob controle. Então, é natural encararmos com tranquilidade — disse Humberto.
Segundo ele, o tema não foi tratado na reunião de líderes no Palácio do Planalto. O líder do PT afirmou ainda que as avaliações feitas pelas agências de risco refletem interesses, inclusive eleitorais.
— Essas agências tem muitas explicações a dar explicações ao mundo. Foram essas agências que indicavam investir em bancos e empresas americanas quando houve aquela bolha e muitos quebraram, inclusive acionistas. Essas avaliações não são uma coisa absolutamente inocentes e imparciais. Refletem interesse e interesses de especuladores. Num momento em que se trava um debate no ano eleitoral, a oposição se sente confortável com isso — afirmou.
O líder do Democratas na Câmara, Mendonça Filho (PE), afirmou que o rebaixamento mostra a deterioração da economia brasileira, com inflação alta mesmo com tabelamento de preços e juros mantidos artificialmente mais baixos.
— Isso é o retrato da deterioração do quadro econômico brasileiro. Para mim não é nenhuma surpresa. O Brasil está com a economia literalmente em frangalhos, com crise energética batendo na porta e as empresas brasileiras nunca foram tão desvalorizadas, inclusive a maior que era a Petrobras.
Entre outras coisas, isso se deve à administração da inflação através de tabelamento de preços controlado pelo governo, como energia elétrica e gasolina. Foi usada uma politica eleitoreira de redução artificial de política de juros e agora o Brasil retomou o patamar internacional de líder nos juros. Dilma colhe com essa redução do grade do Brasil o que plantou junto com o Guido Mantega — disse Mendonça Filho.
A mudança na nota deve ser vista como um “sinal amarelo”, na avaliação do presidente do DEM, senador Agripino Maia (RN), que rechaçou tentativas de descreditar as agências de ratings. “Esse BBB- é um sinal amarelo aos investidores de quem o Brasil não pode prescindir. Ou o governo muda o perfil e o tamanho do gasto público ou esse sinal fica vermelho. E que não venham agora as autoridades da área econômica a desdenhar das agências de risco”, disse Maia, em nota.
Mudança na nota mostra necessidade de mudança, diz especialista
O rebaixamento da nota de crédito soberano do Brasil pela agência Standard & Poor's reforça a necessidade de mudança na política econômica do governo, na visão do economista Alcides Leite, especialista em contas públicas. Segundo ele, esse quadro se deve a uma série de fatores: inflação alta, crescimento baixo, déficit em conta corrente elevado, maquiagem nos números públicos, crise na Petrobras e risco de racionamento de energia.
— O Brasil está piorando, deteriorando-se, embora ainda estejamos em um nível aceitável. O problema é que isso aponta para que os investidores deixem o país, ou reduzam sua exposição ao Brasil — disse Leite.
Para o economista Luiz Gonzaga Belluzo, no entanto, o fato merece ser ignorado pelo governo e os agentes econômicos em geral. Belluzo afirmou que não compraria um carro usado das agências de classificação de risco.
— Não dou a menor credibilidade para essas instituições. Elas têm o que, na linguagem policial, chamamos de capivara, ou seja, uma extensa relação de crimes — atacou o economista.