segunda-feira, 24 de março de 2014

Rebaixamento do Brasil era previsto para depois das eleições

Decisão da S&P era esperada, dizem especialistas

 
Nice de Paula e João Sorima Neto - O Globo
 
 
 O rebaixamento da nota de crédito do Brasil já era esperada por muitos analistas do mercado, mas veio antes do previsto, segundo especialistas consultados pelo GLOBO na noite desta segunda-feira.

A economista Monica de Bolle, professora da PUC-Rio e analista da Galanto Consultoria, se surpreendeu com a decisão da S&P, mas achou a medida correta.

— Fiquei surpresa, pois achava que, por questões políticas, fossem esperar as eleições para fazer esse rebaixamento. Mas optaram por uma decisão técnica e muito bem avaliada, porque o Brasil já está com cara de BBB- há muito tempo. A inflação continua alta e sem muita perspectiva de cair, a aspecto fiscal está ruim e a tendência é que não melhore muito e a médio prazo não há como ver o país crescendo mais de 2% ao ano — diz.

Ela destaca porém que o país continua como grau de investimento, a perspectiva da nota foi colocada como estável e parte dessa queda no rating já estava precificada pelo mercado.

— Ainda assim, devemos ter turbulência no mercado no curto prazo e o real deve ficar mais fraco diante do dólar. O mais importante dessa decisão é fazer um alerta para o governo de que não dá para continuar fazendo coisas como a brincadeira do setor elétrico ou contabilidade criativa, senão vamos ter problemas muito mais sérios. O governo faz certas manipulações nas contas achando que as pessoas não vão perceber, mas ninguém é idiota — diz.
O professor do Departamento de Economia da PUC-Rio e economista da Opus Gestão de Recursos, José Márcio Camargo, esperava que o rebaixamento do rating de longo prazo do Brasil acontecesse apenas no segundo trimestre do ano. Para ele, entretanto, a situação da economia brasileira já apresentava os sintomas de que isso aconteceria de qualquer forma.

— A questão fiscal do país era um dos pontos que mais preocupava. O governo anunciou um superávit primário de 1,9% do Produto Interno Bruto (PIB), que dificilmente será cumprido com um crescimento econômico de apenas 1%, como prevê o mercado. Nos bancos estatais, a concessão de crédito vem crescendo a uma taxa mais forte do que nos bancos privados. Isso pode se tornar um problema no futuro. O governo segura os preços administrados e cria uma inflação reprimida. Na questão da energia, por exemplo, há muita incerteza e não se sabe exatamente como o governo vai repassar recursos às distribuidoras para compensar as perdas. A conta de luz só vai subir em 2015.

Com a Petrobras é a mesma coisa, já que o preço dos combustíveis não é reajustado para se igualar ao mercado internacional — diz Camargo.

Ele lembra ainda que o déficit da Previdência Social é subestimado, o que poderá causar impacto no caixa do governo.

Para ele, o fato de a S&P ter mantido a perspectiva do Brasil estável foi 'menos pior' do que se esperava.

— Ou seja, antes de perder o grau de investimento, a S&P deu um sinal para que o governo reaja — afirma Camargo.

Para o estrategista da Queluz Asset Management, Maurício Pedrosa, a decisão da S&P já era esperada, embora não num prazo tão rápido. A equipe da agência de classificação de risco, chefiada pela economista Lisa Schineller, esteve no Brasil há duas semanas, quando se reuniu com economistas do Banco Central e com o ministro da Fazenda, Guido Mantega, para coletar números da economia brasileira.

— Embora a decisão da agência não tenha sido uma supresa, a expectativa era de que haveria ainda análise de números coletados nas últimas semanas e o anúncio não fosse feito tão rapidamente — diz Pedrosa.

Para ele, o baixo crescimento da economia, a inflação em alta e as contas públicas, problemas apontados pela agência como fatores para o rebaixamento, já vinham sinalizando que o Brasil poderia ser penalizado pelas agências de classsificação de risco. Segundo ele, o rebaixamento do rating já estava 'precificado' pelo mercado.

Pedrosa observa, entretanto, que o fato de a agência ter colocado o país em perspectiva estável, após o rebaixamento, pode ser avaliado como um ponto positivo, e evitar uma reação mais forte do mercado nesta terça.

— O fato de a S&P não ter colocado o país em perspectiva negativa, após o rebaixamento, indica que há mais um degrau para que o Brasil perca o chamado grau de investimento. Ou seja, o governo terá que reagir — diz Pedrosa.

'Contabilidade criativa' pesou

O ex-presidente do Banco Central e sócio da consultoria Tendências, Gustavo Loyola, avalia que os efeitos negativos do rebaixamento sejam mitigados pelo fato de a S&P ter mantido a perspectiva do Brasil em estável. Para ele, mesmo com o governo fazendo esforços para recuperar sua imagem de austeridade, anunciando um corte de R$ 44 bilhões no orçamento e um superávit primário de 1,9% do PIB, não houve êxito.

— O governo não conseguiu reconstruir sua política fiscal. Os bancos públicos são uma fonte de preocupação. As contas externas estão ruins com o modelo de crescimento que favorece o consumo adotado por Brasília nos últimos anos. Há falta de capacidade de oferta e dificuldades de competitividade. Foi isso que abriu o buraco nas contas externas — afirma Loyla.

Para ele, a S&P manteve a perspectiva estável do rating de longo prazo do país e vai avaliar o que acontecerá com a economia neste ano, em que as eleições dificultam ajustes.

— Será um ano em que o Brasil ficará com a faca na cabeça. Num ano eleitoral é difícil fazer ajustes. Também temos uma mudança da política monetária nos Estados Unidos, com redução de liquidez, que já cria um amabiente menos favorável ao Brasil. Se perdemos o grau de investimento, aí sim a situação se complica — diz Loyola.

Para Margarida Gutierrez, especialista em contas públicas e professora do Coppead/UFRJ, as manobras do governo para fechar as contas públicas, chamada contabilidade criativa, foram o principal motivo da decisão da S&P.

— Há um ano que as agências estão sinalizando que isso pode acorrer, mas o governo finge que não tem nada acontecendo. Anuncia uma meta de superávit primário (economia para pagar juros da dívida) que ninguém consegue imaginar como será alcançada. No ano passado, fecharam usando receitas extras. A inflação está alta, o PIB (Produto Interno Bruto) está baixo, há risco de racionamento de energia e nas contas públicas só se tem intenção — analisa.

Para a professora, embora isoladamente os números da economia brasileira não sejam “horrríveis” a trajetória tem sido ruim e as perspectivas futuras também não são boas.

— Essa decisão da S&P é gravíssima, porque mostra uma tendência. O país continua sendo investment grade, mas foi rebaixado porque o processo todo tem sido ruim. De alguma forma, é bom que isso seja sinalizado ao governo — pondera.