domingo, 1 de abril de 2018

‘Em minutos, uma reputação pode ser abalada’, diz Daniella Bianchi, diretora da Interbrand


Daniella Bianchi: "Quando as 'fake news' estão em canais abertos, é mais fácil de combater. O problema é quando esse boato ganha força em grupos fechados, como no WhatsApp, que no Brasil conta com mais de 120 milhões de usuários. Como reagir a isso?" - O Globo

Bruno Rosa, O Globo



O combate às notícias falsas já entrou no radar das empresas, destaca Daniella Bianchi, diretora-geral da consultoria Interbrand, especializada em análise de reputação corporativa.

Segundo ela, um boato pode afetar a relevância, a consistência, a autenticidade e o engajamento da marca com os consumidores. Por isso, muitas companhias já colocam o tema em suas agendas.

De que forma a propagação das notícias falsas afeta a credibilidade e a reputação das marcas?
As fake news afetam a relevância, a consistência, a autenticidade e o engajamento das marcas. Há ainda outro ponto, que é a capacidade de as companhias responderem rapidamente. A reputação leva anos para ser construída e, em alguns minutos, tudo pode ser abalado. A marca é construída através de muitos canais. É fácil propagar uma notícia falsa na internet. Por mais que uma marca seja bem construída e tenha engajamento com o consumidor, é preciso colocar enormes esforços para combater o estrago que um boato pode fazer.

As marcas estão se estruturando para combater as ‘fake news’?
Elas estão se estruturando sim. Umas mais; outras menos. Essa questão toda é muita nova. O fato é que, para combater toda essa proliferação de notícias falsas, é preciso de mais gente e de mais máquinas. É ainda preciso azeitar a interação das pessoas com as máquinas. Há uma necessidade de mais ferramentas, treinamento e novos processos. Tem a questão do tempo de resposta e a capacidade de detectar as notícias falsas. Quando as fake news estão em canais abertos (como Facebook e Twitter) é mais fácil de combater. O problema é quando esse boato ganha força em grupos fechados, como no WhatsApp, que no Brasil conta com mais de 120 milhões de usuários. Como reagir a isso?

Mas, então, ficou mais complexo construir uma marca hoje?
Hoje é mais complexo construir uma marca do que há dez anos. Antes, bastava ter um bom nome e uma boa embalagem, já que o objetivo era criar uma identificação com o consumidor. Depois, passou a se entender que era preciso criar um valor. E aí o consumidor passou a ter o poder no processo dessa construção. Atualmente, é preciso trazer o consumidor para dentro da marca. Dessa forma, a marca é uma colcha de retalhos, feita de micromomentos desde a forma como as pessoas são atendidas a como e o que os consumidores falam sobre ela na internet.

E qual é o papel das mídias sociais?
Tenho visto muita discussão entre anunciantes e mídias sociais para que eles também consigam se posicionar. Eu acredito que eles precisam fazer essa curadoria. Eles têm que definir se são uma plataforma ou um veículo. Apesar de falarem que são apenas uma plataforma, fazer um filtro é importante. O combate ao fake news está ligado ao futuro dessas redes sociais. O algoritmo precisa da interação humana, pois a ferramenta não consegue chegar e ver o que é bom e o que é ruim. As redes sociais têm que comunicar e divulgar a sua posição.


Em nova fase como investidor, BNDES já admite vender participações em empresas como Vale e Petrobras


Eliane Lustosa, diretora do BNDES - Nilani Goettems / Agência O Globo

Danielle Nogueira, O Globo


Investimentos até pouco tempo considerados “estratégicos” para o BNDES estão perdendo relevância na nova política de mercado de capitais do banco de fomento. Sem alarde, a BNDESPar — braço de participações pelo qual o banco se torna sócio de empresas — vem vendendo ações de várias companhias, entre elas Petrobras e Vale, e já colocou na mira de seus desinvestimentos papéis da Eletrobras. As fatias dessas três companhias detidas pelo banco, até então usadas como instrumento para assegurar a ingerência do Estado nelas, passaram a ser tratadas apenas como parte da carteira do BNDES com boa perspectiva de lucro em caso de venda. Juntas, essas participações somavam R$ 39,5 bilhões ou 57% do total do portfólio da BNDESPar no fim de 2017.

Além de vender papéis dessas companhias, das quais ainda continua a ser acionista relevante, o BNDES reduziu as suas participações em grandes empresas como Braskem, Lojas Americanas e Oi nos últimos anos. Tem vendido mais do que comprado títulos, aumentando a participação da subsidiária no lucro do banco. Só no ano passado, foram R$ 6,6 bilhões em ações vendidas na Bolsa, quase cinco vezes mais do que em 2016.

O lance mais recente dessa mudança de postura do BNDES foi a venda de ações da gigante de celulose Fibria, da qual era um dos controladores, para a Suzano, da qual é sócio minoritário. O negócio fechado acima do valor de mercado da Fibria, anunciado no último 15 de março, renderá ao banco R$ 8,5 bilhões. Eliane Lustosa, diretora do BNDES que representou o banco nas negociações, diz que a operação é um exemplo do novo papel que vem sendo traçado para a subsidiária de participações há cerca de um ano e maio. O objetivo agora é apurar lucros com investimentos já maduros e reciclar a carteira para passar a apoiar o que chama de “campeões invisíveis”: pequenas empresas de base tecnológica cujo crescimento pode ser potencializado pelo banco de fomento.

— Algumas participações do banco eram consideradas “estratégicas”, que não deveriam ser objeto de avaliação de perspectiva de venda. Agora essa avaliação constante faz parte da BNDESPar. Não há participação que seja “imexível”. O fluxo é: investe, acompanha e desinveste — afirma Eliane Lustosa, que até a semana passada comandava a área de mercado de capitais do banco e agora assume a diretoria de planejamento e estratégia.

Segundo Eliane, empresas como Vale, Petrobras e Eletrobras já são maduras, não precisam mais serem fortalecidas pelo banco, e atuam em setores que não são prioritários para a instituição. A diretora enfatiza, porém, que a forma e o momento de o BNDES sair das empresas deve ser avaliado com cautela. Primeiro, porque são participações relevantes, que podem mexer com o preço dos papeis se vendidas de uma só vez. Em segundo lugar, porque o desinvestimento tem que dar lucro para o banco. Para isso, a BNDESPar poderá, a partir deste ano, contratar bancos para auxiliá-la nesse processo, além de contar com um comitê formal interno de avaliação. Até agora, não havia critérios claros na política de mercado de capitais do banco para a seleção de um consultor financeiro, como é comum acontecer no setor privado.

ÁREAS FORAM UNIFICADAS

Há até pouco tempo, uma área na BNDESPar cuidava só das empresas líquidas — aquelas cujas ações podem ser compradas e vendidas com facilidade e nas quais estavam os investimentos considerados estratégicos — e outra ficava com capital empreendedor.

Agora, as duas foram unificadas e os técnicos avaliam constantemente a possibilidade de saída das companhias. Ao mesmo tempo, planejam formas de intensificar o apoio aos negócios com potencial ainda não desenvolvido. A ideia é priorizar iniciativas que o banco já tem nessa área, como os fundos Criatec, que investem em negócios inovadores.

As mudanças ocorrem, em parte, como resposta à maior vigilância dos órgãos de controle, como o TCU, que passaram a cobrar do BNDES justificativas de investimentos feitos no passado para formar “campeões nacionais”, como ficou conhecida a política de fomento a multinacionais brasileiras nos governos Lula e Dilma. O caso mais controverso é o da JBS.

As mudanças ocorrem, em parte, como resposta à maior vigilância dos órgãos de controle, como o TCU, que passaram a cobrar do BNDES justificativas de investimentos feitos no passado para formar “campeões nacionais”, como ficou conhecida a política de fomento a multinacionais brasileiras nos governos Lula e Dilma. O caso mais controverso é o da JBS.

Daqui para frente, com a nova política de mercado de capitais do BNDES, a tendência é que os investimentos da BNDESpar minguem em volume e cresçam em número de operações, com foco nas áreas de infraestrutura, micro e pequenas empresas e inovação. 

Se a nova estratégia for seguida à risca, analistas avaliam que o tamanho da carteira da BNDESPar possa cair drasticamente, para algo em torno de R$ 5 bilhões nos próximos anos. Em 2017, alcançou R$ 68 bilhões. Ainda fazem parte desse portfólio participações em gigantes como Embraer, Marfrig, JBS e Klabin.

— Grandes empresas têm acesso ao mercado de capitais. Não precisam do BNDES. Recursos públicos devem ser alocados em outros projetos, especialmente pequenas empresas, com mais dificuldade de crédito. Essa mudança por que vem passando a BNDESPar também vem acontecendo com os fundos de pensão, que igualmente passaram a ser mais questionados pelos órgãos de controle, dado o histórico de interferências políticas — diz Sergio Lazzarini, professor do Insper e autor do livro “Capitalismo de laços”.

Ernani Torres Filho, professor do Instituto de Economia da UFRJ e ex-superintendente do BNDES, diz que investimentos em empresas como Vale e Petrobras nunca tiveram caráter estratégico para o banco e, sim, para o governo. Ele concorda com a política de desinvestimento da BNDESPar, mas levanta a questão sobre onde será aplicada a montanha de recursos que poderá ser obtida com a venda das ações.

— O banco sempre foi um instrumento de governo para interferir nas empresas consideradas estratégicas. Sou favorável à saída dos investimentos quando estes estiverem maduros e à pulverização, mas vender por vender não quer dizer nada. Pegar esse dinheiro e devolver para o Tesouro é matar o BNDES.

Na avaliação de Claudio Frishtak, da consultoria Inter.B, é justamente o que o BNDES deveria fazer. Para ele, os grandes aportes feitos a partir de injeções do Tesouro Nacional no banco foram parte de uma “uma política indefensável” na gestão de Luciano Coutinho, nos governos Lula e Dilma. A União emprestou mais de R$ 400 bilhões ao BNDES para reforçar a oferta de crédito para as empresas após a crise financeira mundial de 2008. 

Desde 2015, o banco vem antecipando a devolução desse dinheiro ao Tesouro. Este ano a previsão é que sejam devolvidos R$ 130 bilhões ao Tesouro.

Os especialistas são unânimes na defesa do uso da BNDESpar no fomento à inovação. 

Nesta área, o principal instrumento do banco são os fundos Criatec, voltados para apoio a start-ups. Lançado em 2007, o programa está na terceira edição. Segundo Ronaldo Coelho, sócio da Traixis, que é cogestora do Criatec 2 ao lado na Bozano Investimentos, os fundos têm duração de dez anos. Nas três edições foram disponibilizados R$ 488 milhões — do BNDES e de outros parceiros — para investimentos em projetos de inovação. Até agora, 70 empresas receberam recursos, mas tanto o Criatec 2 como o Criatec 3 ainda não finalizaram a seleção de projetos.

Entre os candidatos contemplados estão a carioca Confiance, fabricante de equipamentos para cirurgias pouco invasivas, e a paulista Vindi, que faz gestão de pagamentos. São esses os campeões invisíveis que o banco quer fomentar. . Das 15 empresas do Bovespa Mais, segmento de listagem da Bolsa voltado para pequenas empresas que querem acessar o mercado de capitais de forma gradual, 11 foram incentivadas pelo BNDES.

Além do Criatec, está em curso no BNDES a formatação de três fundos — um de energia sustentável, um de venture debt e um de coinvestimento "anjo" — que visam ao apoio a micro e pequenas empresas ligadas à inovação e meio ambiente. Juntos, eles somam R$ 390 milhões. Perguntada por que o banco não direciona mais investimentos para esse tipo de iniciativa, Eliane Lustosa disse que há risco de aprovar projetos caros ou que não são bem estruturados, caso o BNDES inunde o segmento com dinheiro. O que importa, diz, é que a BNDESPar está assumindo um novo perfil.

— O volume do cheque na entrada, agora, será bem menor — afirma Eliane.




'Eu tenho um sonho': o lendário discurso de Martin Luther King

Em 1963, Martin Luther King, líder do movimento pelos direitos civis nos EUA, acena para multidão em durante a Marcha em Washington; o ativista liderara o boicote aos ônibus após o caso Rosa Parks e, a partir de então, foi ganhando protagonismo na luta dos negros. Neste dia, ele fez o seu mais famoso discurso, intitulado "Eu tenho um sonho" Foto: AFP
Em 1963, Martin Luther King, líder do movimento pelos direitos civis nos EUA, acena para multidão em durante a Marcha em Washington; o ativista liderara o boicote aos ônibus após o caso Rosa Parks e, a partir de então, foi ganhando protagonismo na luta dos negros. Neste dia, ele fez o seu mais famoso discurso, intitulado "Eu tenho um sonho" - AFP
Morto há 50 anos, em 4 de abril de 1968, o ativista pelos direitos civis Martin Luther King Jr. foi símbolo da luta contra a segregação racial nos Estados Unidos. Nascido na Geórgia, um dos estados americanos mais afetados pelas exclusão dos negros, ele proclamou, em 28 de agosto de 1963, aos degraus do Lincoln Memorial, em Washington, o seu mais famoso discurso, intitulado "Eu tenho um sonho" ("I have a dream", em inglês). Estas palavras entraram na História para definir o sonho de um futuro mais justo para a comunidade negra daquele tempo — e, até hoje, inspiram os defensores da igualdade racial no país.

Leia abaixo a íntegra do discurso, em versão traduzida para o português:

“Estou feliz em me unir a vocês hoje naquela que ficará para a História como a maior manifestação pela liberdade na História de nossa nação.

Cem anos atrás um grande americano, em cuja sombra simbólica nos encontramos hoje, assinou a Proclamação da Emancipação (dos escravos). Este decreto momentoso chegou como grande farol de esperança para milhões de escravos negros queimados nas chamas da injustiça abrasadora. Chegou como o raiar de um dia de alegria, pondo fim à longa noite de cativeiro. Mas, cem anos mais tarde, o negro ainda não está livre. Cem anos mais tarde, a vida do negro ainda é duramente tolhida pelas algemas da segregação e os grilhões da discriminação. Cem anos mais tarde, o negro habita uma ilha solitária de pobreza, em meio ao vasto oceano de prosperidade material. Cem anos mais tarde, o negro continua a mofar nos cantos da sociedade americana e se encontra exilado em sua própria terra. Então viemos aqui hoje para dramatizar uma situação hedionda.

Em certo sentido, viemos à capital de nossa nação para sacar um cheque. Quando os arquitetos de nossa república redigiram as magníficas palavras da Constituição e da Declaração de Independência, assinaram uma nota promissória de que todo americano seria herdeiro. Essa nota era a promessa de que todos os homens, negros ou brancos, teriam garantidos os direitos inalienáveis à vida, à liberdade e à busca pela felicidade. É evidente hoje que os Estados Unidos não pagaram esta nota promissória no que diz respeito a seus cidadãos de cor. Em lugar de honrar essa obrigação sagrada, os Estados Unidos deram ao povo negro um cheque que voltou marcado “sem fundos”.

Mas nós nos recusamos a acreditar que o banco da Justiça esteja falido. Nós nos recusamos a acreditar que não haja fundos suficientes nos grandes cofres de oportunidade desta nação. Por isso voltamos aqui para cobrar este cheque – um cheque que nos garantirá, a pedido, as riquezas da liberdade e a segurança da Justiça.

Também viemos para este lugar santificado para lembrar aos Estados Unidos da urgência ferrenha do agora. Não é hora de dar-se ao luxo de esfriar os ânimos ou tomar a droga tranquilizante do gradualismo. Agora é a hora de fazermos promessas reais de democracia. Agora é a hora de sairmos do vale escuro e desolado da segregação para o caminho ensolarado da justiça racial. É hora de arrancar nossa nação da areia movediça da injustiça racial e levá-la para a rocha sólida da fraternidade.

‘Este verão sufocante da insatisfação legítima do negro não passará enquanto não chegar um outono revigorante de liberdade e igualdade’
- MARTIN LUTHER KING"Eu tenho um sonho"
Agora é a hora de fazer da justiça uma realidade para todos os filhos de Deus. 

Seria fatal para a nação passar por cima da urgência do momento. Este verão sufocante da insatisfação legítima do negro não passará enquanto não chegar um outono revigorante de liberdade e igualdade. Mil novecentos e sessenta e três não é um fim, mas um começo. Os que esperam que o negro precisasse apenas extravasar e agora ficará contente acordarão sobressaltados se a nação voltar à normalidade de sempre.

Não haverá descanso nem tranquilidade nos Estados Unidos até que o negro receba seus direitos de cidadania. Os turbilhões da revolta continuarão a abalar as fundações da nossa nação até raiarem os dias iluminados da Justiça.

E isso é algo que preciso dizer a meu povo posicionado no morno liminar que conduz ao palácio da Justiça. No processo de conquistar nosso lugar de direito, não devemos ser culpados de atos errados. Não tentemos saciar nossa sede de liberdade bebendo do cálice da amargura e do ódio.

Temos de conduzir nossa luta para sempre no alto plano da dignidade e da disciplina. Não devemos deixar nosso protesto criativo se degenerar em violência física. Precisamos nos erguer sempre e mais uma vez à altura majestosa de combater a força física com a força da alma. A nova e maravilhosa militância que tomou conta da comunidade negra não deve nos levar a suspeitar de todas as pessoas brancas, pois muitos de nossos irmãos, conforme evidenciado por sua presença aqui hoje, acabaram por entender que seu destino está vinculado ao nosso destino.

Eles perceberam que a liberdade deles está vinculada indissociavelmente à nossa liberdade. Não podemos caminhar sozinhos. E, enquanto caminhamos, precisamos fazer a promessa de que caminharemos para frente. Não podemos retroceder. Há quem esteja perguntando aos devotos dos direitos civis 'Quando vocês ficarão satisfeitos?’. Jamais estaremos satisfeitos enquanto o negro for vítima dos desprezíveis horrores da brutalidade policial.

Jamais estaremos satisfeitos enquanto nossos corpos, pesados da fadiga de viagem, não puderem hospedar-se nos hotéis de beira de estrada e nos hotéis das cidades. Não estaremos satisfeitos enquanto a mobilidade básica do negro for apenas de um gueto menor para um maior. Jamais estaremos satisfeitos enquanto nossas crianças tiverem suas individualidades e dignidades roubadas por cartazes que dizem ‘Exclusivo para brancos’.

Jamais estaremos satisfeitos enquanto um negro no Mississippi não puder votar e um negro em Nova York acreditar que não tem nada em que votar.

Não, não estamos satisfeitos e só ficaremos satisfeitos quando a Justiça rolar como água e a retidão correr como um rio poderoso.

Sei que alguns de vocês aqui estão, vindos de grandes provações e atribulações. Alguns vieram diretamente de celas estreitas de prisões. Alguns vieram de áreas onde sua busca pela liberdade os deixou feridos pelas tempestades da perseguição e marcados pelos ventos da brutalidade policial. Vocês têm sido os veteranos do sofrimento criativo.

Continuem a trabalhar com a fé de que o sofrimento imerecido é redentor. Voltem ao Mississippi, voltem ao Alabama, voltem à Carolina do Sul, voltem à Geórgia, voltem à Louisiana, voltem aos guetos e favelas de nossas cidades do Norte, cientes de que de alguma maneira a situação pode ser mudada e o será. Não nos deixemos atolar no vale do desespero.

Digo a vocês hoje, meus amigos, que, apesar das dificuldades de hoje e de amanhã, ainda tenho um sonho. É um sonho profundamente enraizado no sonho americano. Tenho um sonho de que um dia esta nação se erguerá e corresponderá ao verdadeiro significado de seu credo: ‘Consideramos essas verdades manifestas: que todos os homens são criados iguais’.

Tenho um sonho de que um dia, nas colinas vermelhas da Geórgia, os filhos de ex-escravos e os filhos de ex-donos de escravos poderão sentar-se juntos à mesa da irmandade. Tenho um sonho de que um dia até o estado do Mississippi, um estado desértico que sufoca no calor da injustiça e da opressão, será transformado em um oásis de liberdade e de justiça.

Tenho um sonho de que meus quatro filhos viverão um dia em uma nação onde não serão julgados pela cor de sua pele, mas pelo teor de seu caráter. Tenho um sonho hoje. Tenho um sonho de que um dia, no estado do Alabama, com os seus racistas cruéis e com o seu governador que tem os lábios pingando palavras de rejeição e anulação, um dia lá meninos negros e meninas negras poderão dar as mãos a meninos brancos e meninas brancas, como irmãs e irmãos.

‘Tenho um sonho de que meus quatro filhos viverão um dia em uma nação onde não serão julgados pela cor de sua pele, mas pelo teor de seu caráter’
- LUTHER KING.
Tenho um sonho hoje. Tenho um sonho de que um dia cada vale será elevado, cada colina e montanha será nivelada. Os lugares acidentados serão aplainados, os lugares tortos serão endireitados. E a glória do Senhor será revelada e todos os seres a enxergarão juntos. Essa é nossa esperança. Essa é a fé com a qual retorno ao Sul. Com esta fé poderemos talhar da montanha do desespero uma pedra de esperança. Com esta fé poderemos transformar os acordes dissonantes de nossa nação numa bela sinfonia de fraternidade. Com esta fé podemos trabalhar juntos, orar juntos, lutar juntos, ir à cadeia juntos, defender a liberdade juntos, conscientes de que seremos livres um dia.

Esse será o dia em que todos os filhos de Deus poderão cantar com novo significado: “Meu país, é de ti, doce terra da liberdade, é de ti que canto. Terra em que morreram meus pais, terra do orgulho do peregrino, que a liberdade ressoe de cada encosta de montanha”. E, se quisermos que a América seja uma grande nação, isso precisa se tornar realidade. Então que a liberdade ressoe dos prodigiosos picos de New Hampshire. Que a liberdade ecoe das majestosas montanhas de Nova York. Que a liberdade ecoe dos elevados Alleghenies da Pensilvânia. Que a liberdade ecoe das nevadas Rochosas do Colorado. Que a liberdade ecoe das suaves encostas da Califórnia.

Mas não só isso – que a liberdade ecoe da Montanha de Pedra da Geórgia. Que a liberdade ecoe da Montanha Sentinela do Tennessee. Que a liberdade ecoe de cada monte e montículo do Mississippi, de cada encosta de montanha. Que a liberdade ecoe.

E quando isso acontecer, quando deixarmos a liberdade ecoar, quando a deixarmos ressoar em cada vila e vilarejo, em cada Estado e cada cidade, poderemos trazer para mais perto o dia em que todos os filhos de Deus, negros e brancos, judeus e gentios, protestantes e católicos, poderão se dar as mãos e cantar, nas palavras da velha canção negra, 'livres, enfim! Livres, enfim! Louvado seja Deus Todo-Poderoso. Estamos livres, enfim!”



Cinquenta anos após morte de Martin Luther King...

Henrique Gomes Batista, O Globo


SELMA, MONTGOMERY, BIRMINGHAM, MEMPHIS, LITTLE ROCK e FERGUSON, EUA - Os passos de Martin Luther King continuam sendo renovados por negros em todos os Estados Unidos. Por pessoas como Daniel Henry, estudante de 21 anos, que foi de Houston (Texas) a Selma (Alabama) refazer a travessia da Ponte Edmund Pettus, palco da luta pelo voto livre, marcada pela liderança do líder assassinado em 4 de abril de 1968. O ato do universitário não é apenas uma homenagem, mas o reconhecimento de que o sonho do dr. King, como é chamado, está longe de ser uma realidade: os americanos ainda convivem com graves problemas raciais.

— Temos o dever de continuar a luta iniciada por eles. Os negros ainda são discriminados. A luta dos direitos civis está longe do fim — disse Henry, que, com uma bandeira Pan-Africana, liderou a travessia do grupo de 30 estudantes, que havia encarado mil quilômetros de ônibus refazendo a rota dos direitos civis e que em sua marcha entoavam: “O que queremos? Justiça! Quando? Agora!”.

O racismo não está definido em lei como na época da luta de Luther King, mas segue enraizado no cotidiano, na falta de oportunidades e nos bolsos dos negros americanos. A segregação silenciosa é notada de qualquer ângulo que se olhe: há mais negros que brancos nas cadeias, a pobreza os castiga com o triplo da força que aflige os descendentes de europeus e — apesar de Barack Obama ter chegado à Casa Branca — a política nacional não reflete a demografia nos postos de comando do país. Os Estados Unidos continuam sendo injustos com um quinhão importante de sua população.

— A situação piorou nas escolas — disse Lecia Brooks, diretora de divulgação do Southern Poverty Law Center, uma das principais organizações de direito dos negros e que mantém o Museu dos Direitos Civis em Montgomery.


Luther King na varanda do Lorraine Motel, com Jesse Jackson, na vésperade sua morte - AP/3-4-1968

A cidade é a capital do estado do Alabama, e foi o ponto final da marcha iniciada em Selma pelo direito ao voto, além do local do boicote de mais de um ano ao transporte público, entre 1955 e 1956, em protesto contra a lei que dava aos brancos a primazia para se sentar nos assentos dos ônibus.

— Aqui, no Alabama, praticamente só negros frequentam as escolas públicas, que perderam qualidade. Os brancos vão a escolas particulares ou aprendem em casa. Na Califórnia, a qualidade do ensino das escolas frequentadas pelos negros é pior que a média nacional dos anos 60.

A garçonete Latoya Williams, de 33 anos, afirma que Selma está longe do modelo que o local de uma luta histórica deveria ser: quase não há negros sócios do Country Club, quase não havia brancos no jubileu dos 50 anos da travessia histórica da ponte, comemorado em março de 2015.

— Há os que não me cumprimentam, mas dão “bom dia” a outros brancos — disse ela, que tem esperanças de que a nova geração seja mais justa. — O racismo é silencioso, mas segue presente.

Luther King, pastor da Igreja Batista, foi o líder mais conhecido do movimento pelos direitos civis dos negros americanos, entre os anos 1950 e 60. Com um discurso poderoso de fé, amor e pacifismo — mas pregando a desobediência civil —, recebeu o Nobel da Paz em 1964. Foi assassinado quando tinha 39 anos, em Memphis, no estado do Tennessee, onde apoiava a greve dos negros do serviço de saneamento da cidade. Sua morte é cercada de mistério. James Earl Ray confessou e foi condenado a 99 anos de prisão, mas sempre houve rumores de uma suposta conspiração de racistas e do próprio governo. Como líder, viu cair leis de segregação em escolas, nos transportes, aderiu ao boicote à Guerra do Vietnã e fez o clássico discurso “Eu tenho um sonho” na Marcha a Washington, em 1963.

— Quando era pequeno, toda a vez que minha mãe me levava ao médico, sonhava em ser atendido por um médico negro. Ora, eu vivi para ver um presidente negro — conta Jake Williams, que participou da marcha que atravessou a ponte de Selma quando tinha 13 anos. — O voto é a chave de tudo. Essa é a nossa força.

Sociedade dividida

A economia, contudo, é uma das fraquezas. Segundo o Censo, em 2016 havia 22,7% de negros vivendo abaixo da linha da pobreza, contra apenas 7,8% de brancos não hispânicos. O salário médio anual de uma família negra era de US$ 38.555, muito abaixo da média nacional (US$ 57.617) e de todos os grandes grupos sociais, como latinos, asiáticos, indígenas e, claro, brancos (US$ 80.720).

— É muito bom ver a luta e as conquistas, mas a pobreza é a pior forma de segregação. As leis fazem a gente pensar que todos somos iguais, mas um negro tem muito menos oportunidades — afirmou Connie Grayson, que visitava o Museu Nacional dos Direitos Civis, em Memphis.








Carreira longa leva brasileiros com mais de 40 anos de volta à escola

Érica Fraga e Ana Estela de Sousa Pinto, Folha de São Paulo
O envelhecimento nem sempre é uma barreira à busca por maior escolaridade.
O desejo de continuar trabalhando ou simplesmente de aprender coisas novas vem levando os adultos brasileiros a alçarem pequenos voos educacionais.
Herenice Cavalcante Teixeira, 68, toca um negócio de bordados computadorizados com o marido José Luiz, 69
Herenice Cavalcante Teixeira, 68, toca um negócio de bordados
 computadorizados com o marido José Luiz, 69 - Adriano Vizoni/Folhapress
Uma análise feita pelo economista Naercio Menezes Filho, coordenador do Centro de Políticas Públicas do Insper, mostra que, ao passar de 40 para 50 anos de idade, a geração nascida em meadosdo século passado aumentou sua escolaridade média de 5,64 para 5,96 anos. 
Um crescimento de 5,7%. Ao fazer essa mesma transição etária, os brasileiros nascidos uma década mais tarde tiveram um avanço maior, ao ampliar seus anos médios de estudo 7,08 para 7,59. Um salto de 7,2%.
Os números levantados pelo economista a pedido da Folha, a partir da Pnad (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios), indicam que os brasileiros têm buscado estudar à medida que envelhecem e que essa tendência vem se tornando mais rápida.
“A gente vai envelhecendo, e a mente da gente atrofia se não exercitar”, diz Geraldo Hilário Pontes, 67.
A história do ex-garçom, hoje aposentado, ilustra bem o progresso educacional capturado pelas estatísticas. 
Já adulto, Pontes fez o ensino fundamental a distância e, posteriormente, cursou o ensino médio no supletivo. “Era garçom, e, você sabe, garçom não tem muito tempo para estudar, ?”, diz.
Escola universal era uma realidade distante da infância da geração de Pontes. 
O Brasil acordou tardiamente para a importância da educação. A universalização da matrícula no ensino fundamental só ocorreu no início dos anos 2000.
Ao longo das últimas décadas, o volume de pesquisas mostrando o impacto da educação –ou do “capital humano”– sobre o desenvolvimento econômico disparou. 
O efeito positivo do aumento da escolaridade sobre a renda também se tornou mais conhecido.
Essas informações contribuíram para ações que levaram a um salto na escolaridade média dos brasileiros, puxado pela inclusão escolar de crianças e adolescentes. 
Paulo de Tarso, 55, e Rafael, 22, seu filho, na faculdade em que cursam engenharia da computação
Paulo de Tarso, 55, e Rafael, 22, seu filho, na faculdade em que 
cursam engenharia da computação - Karime Xavier/Folhapress
Ainda que num ritmo mais lento, porém, os adultos vêm correndo por fora, aproveitando oportunidades como o antigo supletivo –hoje chamado de EJA (Educação de Jovens e Adultos). 
Segundo o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), a população com mais de 30 anos duplicou entre 1992 e 2015, de 56 milhões para 113 milhões de pessoas. 
No mesmo período, o número de brasileiros nesse grupo etário matriculado na escola se multiplicou por quatro, de 759 mil para 3 milhões. Com isso, passaram de 2% para 5,5% do total de alunos do ensino básico no país.
Outros dados, como os compilados pelos economistas Robert J. Barro e Jong-Wha Lee para algumas dezenas de países, incluindo o Brasil, também apontam na direção do aumento da escolaridade entre os adultos. 
Eles mostram, por exemplo, que, no início da década de 1980, apenas 7,6% da população brasileira com idade entre 20 e 24 anos possuía o ensino médio completo. Quando essa geração se tornou cinquentenária, por volta de 2010, 21,2% de seus representantes tinham atingido essa escolaridade. 
O avanço educacional capturado pelos números pode ser, em parte, efeito estatístico da mortalidade mais alta entre os mais pobres e, portanto, menos escolarizados.
Mas, segundo especialistas, isso não explicaria todo o crescimento da escolaridade entre os adultos, até porque a expectativa de vida vem aumentando no país. 
Segundo Menezes Filho, esse é, aliás, um dos motivos que leva os adultos a estudarem à medida que envelhecem: “As pessoas estão vivendo mais e, por isso, buscando se educar mais, em parte porque sabem que precisarão trabalhar por mais tempo”, diz o economista.
Gisela Castro, professora do programa de pós-graduação em comunicação e práticas de consumo da ESPM (Escola Superior de Propaganda e Marketing) confirma a tendência. Ela diz que há procura crescente de profissionais experientes por pós-graduação com o objetivo de adotar a carreira acadêmica como uma nova opção de trabalho.
“São pessoas de 50 anos ou mais ativas, procurando maximizar seu tempo numa vida produtiva”, diz ela.
O desejo de se manter ativo por muito tempo ainda foi exatamente o que motivou o desenhista industrial Paulo de Tarso, 55, a cursar uma segunda faculdade. 
Ele fez a primeira graduação na década de 1980 e trabalhou com desenho e desenvolvimento de produtos. Depois mudou para marcas e patentes, com o que ainda atua. Mas nunca perdeu o interesse por computadores.
Até que seu filho Rafael, 22, que estuda engenharia de computação na Fundação Salvador Arena –instituição sem fins lucrativos– lhe perguntou por que ele não voltava a estudar. Tarso acabou conseguindo uma vaga no mesmo local e curso do filho. 
“Se vou mudar de emprego, não sei. Mas a gente precisa estar preparado. Eu gostaria imensamente de trabalhar nessa área. Talvez voltar a dar aulas para retribuir o que estou recebendo”, diz ele.
O ex-garçom Pontes conta que ter voltado a estudar não o levou a mudar de área, mas o tornou um profissional mais completo: “Como o garçom lida com o público, eu passei a trabalhar melhor tendo mais conhecimento”.
O propósito de se tornar mais versátil também levou a pequena empresária Herenice Cavalcante Teixeira a voltar a estudar. Aos 68, ela toca um negócio de bordados computadorizados com o marido José Luiz, 69. Embora ele já cuide da parte técnica, Herenice também quer participar dessa etapa da produção.

"Situação precária", editorial de O Globo

Os Correios já foram sinônimo de eficiência, mas, com o passar do tempo e de governos, a empresa não manteve o padrão e, principalmente, não conseguiu enfrentar com êxito a revolução tecnológica de que resultou a internet. As mudanças abalaram parte importante de seus negócios, com o advento do e-mail, imbatível substituto das cartas, mas, em contrapartida, criariam o e-commerce e um enorme fluxo de mercadorias. Em vão, para a estatal.

Como é da visão de mundo de certa esquerda, estatais precisam ser preservadas a qualquer custo, por se tratarem de “patrimônio do povo”. Assim, tudo que ameace monopólios estatais precisa ser combatido.

É um engano. Está provado pela própria Petrobras, virtualmente quebrada quando ficou sob o jugo lulopetista, que a saqueou pela corrupção e a forçou seguir um modelo nacional-populista tecnicamente inconsistente. Revertido o monopólio que no governo Dilma tentou-se instituir na operação no pré-sal, e finalizada uma política nacional-populista na compra de equipamento para projetos de exploração nesta área, a empresa renasceu.

Se a revolução tecnológica digital esmagou os “velhos” Correios, ao criar o negócio do e-commerce também instituiu um dinâmico segmento de entrega de mercadorias. Mas os Correios não conseguiram aproveitar, por padecerem dos males decorrentes do aparelhamento de que tem sido vítima. A partir de 2003, já no primeiro governo Lula e devido ao seu projeto de conseguir apoio parlamentar por meio do troca-troca do fisiologismo, os Correios foram transacionados neste balcão de ofertas e procuras.

Já é parte da crônica política o protagonismo dos Correios na denúncia do mensalão feita em 2005 pelo então deputado Roberto Jefferson (PTB-RJ), ilustrada pela cena de corrupção explícita, em que um alto funcionário da empresa, indicado por Jefferson, embolsa um maço de notas. Maurício Marinho, o flagrado, era indicação do deputado, que, se sentindo ameaçado pelo ainda poderoso José Dirceu, chefe da Casa Civil, no primeiro governo Lula, denunciou o esquema do mensalão, gerenciado por Dirceu.

Empresa centenária, além de padecer do aparelhamento partidário, enfrenta a corrosão de corporações sindicais que, como praxe, impedem a modernização. A estatal tem acumulado prejuízos anuais bilionários — a estimativa para o ano passado é de R$ 1,7 bilhão, tendo ficado acima dos R$ 2 bilhões em exercícios anteriores. Trata-se de uma enorme máquina, com mais de 110 mil funcionários, sem condições de prestar bons serviços, caso não passe por um choque de gestão. Uma impossibilidade, diante do uso clientelista e fisiológico que partidos fazem da empresa e dos sindicatos e suas greves.
Simboliza a situação dos Correios recente incêndio no Centro de Entrega de Encomendas (CEE) de Jacarepaguá, no Rio, em que foram destruídos o prédio, seis veículos de entrega e nove mil encomendas.


Maior virtuose do bandolim, Jacob do Bandolim é lembrado no seu centenário

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