terça-feira, 27 de outubro de 2026

Augusto Nunes escreve sobre 'O triunfo da malandragem'

O descondenade fez o diabo para conseguir o quarto mandato


 
O ex-presidiário Luiz Inácio Lula da Silva abraça seu advogado Cristiano Zanin - Foto: Wilton Junior/Estadão Conteúdo


P ela primeira vez desde a Proclamação da República, o advogado de um presidente candidato à reeleição, e por ele premiado com uma vaga no Supremo Tribunal Federal, decidiu monocraticamente adiar por duas horas o encerramento de uma votação nacional. Pior: a decisão de Cristiano Zanin foi anunciada às 17h01, um minuto depois do horário fixado. Pela primeira vez desde que o Brasil adotou o sistema da eleição em dois turnos, um candidato derrotado no primeiro (por uma diferença de 2 milhões de votos) venceu o segundo (com uma vantagem de quase 5 milhões). Estranhamente, também pela primeira vez, a taxa de abstenção registrou uma queda de 3 milhões de eleitores do primeiro para o segundo turno. Pela primeira vez no mundo, um político conseguiu, no curto prazo de três semanas, anexar mais 10 milhões de cabeças a seu rebanho de eleitores. Pela primeira vez, nenhum instituto de pesquisas eleitorais registrou qualquer indício da virada de dimensões amazônicas. Dois dias antes de completar 81 anos, Luiz Inácio Lula da Silva conseguiu, graças à soma desses assombros, mais quatro anos na chefia do governo brasileiro. 

Segundo a apuração oficial, Lula obteve, neste 25 de outubro, mais de 64 milhões de votos. No primeiro turno, estacionou abaixo de 54 milhões. O senador Flávio Bolsonaro, candidato da oposição, não conseguiu chegar a 60 milhões. Em 4 de outubro, ele ultrapassou a marca de 56 milhões. “A gente faz o diabo pra ganhar a eleição”, confessou Dilma Rousseff ao vencer Aécio Neves em 2014. Para conquistar o quarto mandato, Lula inspirou-se nessa lição que ensinou à discípula. Transformou de vez o Bolsa Família numa fábrica de dependentes desinformados, fez do buquê de “programas sociais” o maior sistema de compra de votos do planeta e gastou bilhões de reais inexistentes em medidas populistas. Ao longo da campanha, sobretudo nos dois debates na TV, mentiu mais do que nunca.


Lula cumprimenta pessoas do lado de fora de uma seção eleitoral – 25/10/2026 | Foto: Jean Carniel/Reuters

Além da amputação de plurais e do r final dos infinitivos, os falatórios de Lula em sua última campanha foram perturbados por estranhos curtocircuitos. Na Band, por exemplo, afirmou que nos próximos quatro anos acabaria com o Brasil. Na Globo, depois de uma pausa, recitou o seguinte: “Imposto, imposto, imposto, se alguém lhe fala todo santo dia imposto, imposto, imposto… porque pra eles… o que pesa pra eles é melhorá a vida do povo.” 

No mesmo debate, desconfiou do inimigo: “Eu não sei se o meu adversário fala baixo pra mim não escutá”. Em seguida, prometeu combater organizações narcoterroristas com a extinção da polícia e, mais de uma vez, recomendou a Flávio Bolsonaro, à plateia e aos espectadores que fossem “ao Gugo”, caso não entendessem alguma coisa. Quem foi ao Google descobriu que Lula mentira ao revelar de que forma conseguiu conhecer o Brasil: percorreu 91 mil quilômetros de ônibus, barco e trem. Tal proeza é impossível. A distância equivale a mais de duas voltas completas ao redor do planeta.

Lula ampliou a manada de cabos eleitorais com a inclusão da imprensa estatizada, dos institutos de pesquisa reduzidos a lojinhas de porcentagens, da máquina federal e dos devotos da seita, fora o resto. O ex-advogado Cristiano Zanin, presenteado por Lula com uma vaga no STF, foi o ministro que decidiu adiar o fim da votação para as sete horas da noite. Zanin passou meses afirmando que seu cliente mais ilustre não era corrupto e lavador de dinheiro, ofícios que custaram a Lula a condenação a nove anos de cadeia pelo juiz Sérgio Moro, agora governador eleito do Paraná. 

O TRF da 4ª Região aumentou a pena para 12 anos. O Superior Tribunal de Justiça endossou a decisão. Zanin só não mente mais que Lula, que sempre foi essencialmente um assassino da verdade. Mentindo, abandonou o emprego de torneiro mecânico para virar primeiro-secretário do Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo do Campo e Diadema. Procurado pela também viúva Marisa Letícia, que queria tratar do caso do marido morto, Lula engavetou a papelada até conseguir seduzi-la. Assumiu o comando da entidade amparado em outra falácia: aquele pernambucano atarracado e barbudo jamais abandonava companheiros de lutas. Todos foram esquecidos em algum lugar do caminho percorrido pelo operário que se converteu em político profissional depois da fundação do Partido dos Trabalhadores em fevereiro de 1980. 


á no STF, em 2023, Zanin se declarou impedido de julgar um recurso da defesa de Bolsonaro contra a condenação do TSE | Foto: Reprodução: Valter Campanato/Agência Brasil

Candidato a governador de São Paulo em 1982, perdeu para Franco Montoro, Reinaldo de Barros e Jânio Quadros. Mas conseguiu mais de 1 milhão de votos e, sobretudo, aprendeu a tapear plateias. Diante de órfãos dos grupelhos que tentaram derrubar a bala a ditadura militar e substituí-la pela ditadura do proletariado, ou estudantes que sem terem lido uma única vírgula de O Capital se apaixonavam pelo líder operário com jeitão de marxista, Lula repetia o refrão da campanha: “Vote 3, porque o resto é burguês”. Se houvesse muitos burgueses entre os espectadores, abrandava o falatório: “Não sou de esquerda nem de direita. Sou torneiro mecânico”. 

Até virar presidente de sindicato, Lula jurava querer distância de partidos e ideologias. “Detesto política e quem gosta de política”, repetia. Em julho de 1979, entrevistado pela revista Playboy, mudou de ideia. Revelou que entre as celebridades que admirava estavam o ditador cubano Fidel Castro, Tiradentes, Gandhi, Che Guevara, Mao Tsé-Tung e Adolf Hitler. Diante da expressão intrigada do jornalista, tentou explicarse: “Não apoio todas as ideias do Hitler, mas ele tinha uma coisa que eu admiro num homem. O fogo de se propor a fazer alguma coisa e tentar fazer”. Em 1989, transferiu-se para a banda esquerda: “Sou daqueles que acreditam que o socialismo é o melhor sistema político”, informou o candidato à Presidência da República pelo PT, 

Com a dissolução do colosso comunista e o fim da Guerra Fria, começou a referir-se a si próprio como se o apelido fosse alguma entidade. “Só o Lula pode dar um jeito no Brasil”, por exemplo. Para quem vê as coisas como as coisas são, ficou claro que Lula sempre fora e sempre seria apenas lulista. O mais fanático e passional dos lulistas. Foi assim que o que poderia ter sido um partido virou seita, cujos devotos veem no líder seu único deus. Lula transformou seu altar em palanque ambulante. Derrotado por Fernando Collor na primeira tentativa de instalar-se no Palácio do Planalto, também perdeu para Fernando Henrique Cardoso os duelos de 1994 e 1998. Concretizou o sonho neste século ao vencer José Serra no pleito de 2002. Reeleito em 2006, esperaria 12 anos para voltar ao cargo que deixara no fim de 2010. 

A partir de janeiro, Lula terá de lidar com seu próprio legado. Ele sempre atribuiu a terceiros os problemas que cria ou aumenta. Fernando Henrique Cardoso, que o derrotou duas vezes já no primeiro turno, entregou-lhe em janeiro de 2003 um país com a moeda estável, modernizado pelas privatizações de estatais deficitárias e em pleno desenvolvimento. No dia da posse, Lula despediu-se do antecessor que lhe entregara a faixa com uma mentira carinhosa: “Aqui você sempre terá um amigo”. Três meses depois, de passagem por Paris em companhia de Lula, o ministro Antônio Palocci telefonou para FHC, que também estava na capital da França. “Em nome do presidente, quero agradecer ao senhor pelo país que recebemos”, ouviu o ex-presidente. Ainda em 2003, Lula responsabilizou Fernando Henrique por todos os problemas passados, presentes e futuros do Brasil: “Ele me deixou uma herança maldita”. 

Maldita é a herança com que o presidente reeleito terá de lidar — e enfrentando, pela primeira vez, uma oposição vigorosa, fortalecida pela conquista de 16 governos estaduais e majoritária tanto na Câmara quanto no Senado. Na noite deste domingo, tão logo terminou a apuração, Flávio Bolsonaro avisou que não reconhece o resultado oficial e pedirá a anulação da disputa manchada pela interferência de outro Poder. Se é que isso serve de consolo, Flávio escapou da missão de encontrar soluções para um Brasil submerso no poço de areia movediça escavado pela fusão da crise econômica, da incompetência administrativa, da corrupção endêmica e de um Supremo Tribunal Federal em adiantado estágio de decomposição.


Flávio Bolsonaro - Foto: Facebook Flávio Bolsonaro

Augusto Nunes - Revista Oeste