Trump apresentou o ataque a Caracas como um ato de defesa da população dos EUA contra um regime — o de Maduro — que busca desestabilizar Washington
Depois da operação militar na Venezuela que levou a captura do então ditador Nicolás Maduro, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, citou a Doutrina Monroe.
“Nós a superamos em muito”, disse o republicano, durante uma coletiva de imprensa realizada neste sábado, 3, horas depois da operação militar no país sul-americano. “Agora a chamam de ‘Doutrina Donroe’. O domínio norte-americano no Hemisfério Ocidental nunca mais será questionado”.
Além disso, Trump definiu o regime de Maduro como uma organização terrorista estrangeira. Dessa forma, os EUA passaram a realizar dezenas de ataques em águas latino-americanas desde setembro, destruindo barcos acusados de transportar drogas
O que é a Doutrina Monroe?
Formulada em 1823 pelo então presidente James Monroe, essa orientação da política externa dos EUA pode ser interpretada na base da fórmula “América para os americanos“, declarando o Hemisfério Ocidental uma área prioritária. Desencorajando, assim, qualquer interferência ou tentativa de recolonização por parte das potências europeias.
Em dezembro de 1823, Monroe declarou que qualquer intervenção das potências europeias estabelecidas nas Américas seria considerada “inimiga dos Estados Unidos“. Dessa forma, a Doutrina Monroe tornou-se o manifesto da soberania norte-americana sobre o Hemisfério Ocidental.
A Doutrina Monroe evoluiu ao longo do tempo. Incluiu, por exemplo, a abordagem adotada no início do século 20 durante a presidência de Theodore Roosevelt definida “Corolário Roosevelt”.
Essa interpretação ampliou o escopo da Doutrina Monroe, atribuindo aos EUA não apenas a função de conter a influência europeia, mas também o poder de intervir diretamente em países latinoamericanos considerados incapazes de garantir a estabilidade interna, a ordem política ou o respeito aos interesses econômicos internacionais.
Trata-se, nesse sentido, de uma função de “polícia internacional” nas Américas para manter a estabilidade. Além disso, serve, na visão da Casa Branca, para garantir o cumprimento de obrigações e prevenir a agressão estrangeira, consolidando uma política de forte intervenção militar na América Latina sob a ideologia do “Big Stick” (“Grande Porrete”, em tradução livre).
Embora inicialmente apresentada como uma medida para proteger a autonomia das jovens repúblicas latino-americanas, a doutrina gradualmente assumiu um significado mais amplo. Com o tempo, foi, a saber, utilizada como referência teórica para legitimar um papel ativo de Washington no equilíbrio político e institucional da região.
Nesse contexto, desenvolveu-se o que se convencionou chamar de “diplomacia das canhoneiras”, uma abordagem baseada no uso explícito da força militar como instrumento de pressão e intervenção.
Essa estratégia se traduziu, ao longo das décadas, em operações armadas, ocupações temporárias e apoio a governos considerados compatíveis com os interesses de Washington, contribuindo para uma fase significativa do intervencionismo estadunidense na América Latina.
Trump revitalizou a Doutrina Monroe Trump apresentou o ataque a Caracas como um ato de defesa da população dos EUA contra um regime — o de Maduro — que busca desestabilizar Washington por da exportação de drogas e de criminosos libertados da prisão. E por isso justificaria a intervenção americana na base da Doutrina Monroe.
A abordagem da administração Trump representa um afastamento radical do precedente estabelecido durante o governo de Barack Obama, quando o então secretário de Estado, John Kerry, desmantelou a política. Naquela época, Kerry alegava que a política não era necessária, pois os EUA buscavam uma relação mais igualitária com os países latinoamericanos, em vez de uma baseada no intervencionismo.
“A era da Doutrina Monroe acabou”, disse Kerry, em 2013, na Organização dos Estados Americanos.
“A relação que buscamos e que nos esforçamos para cultivar não se resume a uma declaração dos Estados Unidos sobre como e quando intervirá nos assuntos de outros Estados americanos”, disse Kerry.
“Trata-se de todos os nossos países se enxergarem como iguais, compartilharem responsabilidades, cooperarem em questões de segurança e aderirem não a doutrinas, mas às decisões que tomamos como parceiros para promover os valores e os interesses que compartilhamos”.
Estratégia da Segurança Nacional defende a Doutrina Monroe A Estratégia de Segurança Nacional do governo Trump defende explicitamente a revitalização da Doutrina Monroe como forma de reafirmar a influência dos EUA no Hemisfério Ocidental.
O documento nesse sentido denomina essa iniciativa de “Corolário Trump”, uma referência à expansão da doutrina original feita por Roosevelt.
“Depois de anos de negligência, os Estados Unidos reafirmarão e farão cumprir a Doutrina Monroe para restaurar a preeminência americana no Hemisfério Ocidental e para proteger nossa pátria e nosso acesso a geografias-chave em toda a região”, aparece na Estratégia de Segurança Nacional.
“Negaremos aos concorrentes não hemisféricos a capacidade de posicionar forças ou outras capacidades ameaçadoras, ou de possuir ou controlar ativos estrategicamente vitais, em nosso hemisfério”, salientou o documento divulgado no fim do ano passado, “Este ‘Corolário Trump’ à Doutrina Monroe é uma restauração sensata e eficaz do poder e das prioridades americanas , consistente com os interesses de segurança dos Estados Unidos”.
O atual governo norte-americano adotou uma abordagem agressiva para reprimir a entrada de drogas nos EUA. Definiu, assim, cartéis de traficantes como o Tren de Aragua, o Sinaloa e outros como organizações terroristas estrangeiras.
Além disso, Trump definiu o regime de Maduro como uma organização terrorista estrangeira. Dessa forma, os EUA passaram a realizar dezenas de ataques em águas latino-americanas desde setembro, destruindo barcos acusados de transportar drogas