quinta-feira, 1 de janeiro de 2026

'Adelismo judicial', por Flávio Gordon

 'O Brasil assiste, atônito, à consolidação de uma patocracia em que o Judiciário não apenas persegue adversários, mas o faz com requintes de sadismo'


Adélio Bispo, ex-militante do Psol, foi o autor da facada contra Jair Bolsonaro, em setembro de 2018 - Foto: Reprodução/Redes sociais



Ano novo, velha infâmia. As decisões de Alexandre de Moraes em relação a Jair Bolsonaro — como essa última, expedida no primeiro dia de 2026, de negar prisão domiciliar ao ex-presidente — já não podem ser descritas genericamente como mero abuso de poder. Elas configuram algo mais específico, para cuja descrição só consigo pensar num termo adequado: adelismo judicial. 

Sim, tudo o que o pretenso juiz Alexandre de Moraes tem feito na condução de sua campanha de aniquilação contra o bolsonarismo nada mais é que a transposição institucional da lógica que animou Adélio Bispo em 2018 — não mais a lâmina improvisada empunhada por um fanático, mas a caneta empunhada por um extremista togado. O objetivo, no fundo, é o mesmo: eliminar o adversário político, ainda que isso implique conduzi-lo lenta e humilhantemente à morte.

O pretexto utilizado no mais recente despacho de ódio de Moraes — a suposta melhora do estado de saúde de Bolsonaro — é uma falsificação grosseira da realidade. O quadro clínico é gravíssimo, com alto risco de morte. Desde a última internação, foram quatro cirurgias, sucessivas, invasivas e debilitantes. Negar prisão domiciliar nessas condições não tem sequer uma mínima aparência de rigor jurídico. Trata-se de crueldade deliberada. É a transformação do sofrimento físico em instrumento de vingança política.


E aqui, é impossível não recorrer mais uma vez ao autor que desenvolveu os conceitos adequados para descrever o tipo de situação encarnada pela ditadura luloalexandrina no Brasil de nossos dias, uma mistura inextricável entre política e psicopata. Refiro-me a Andrzej Łobaczewski, psiquiatra polonês autor de Ponerologia: psicopatas no poder. Nessa obra de leitura fundamental às vítimas brasileiras do monstro, Łobaczewski chama de patocracia o regime em que o poder deixa de ser exercido por homens comuns, com suas virtudes e limites, e passa a ser colonizado por personalidades psicologicamente deformadas. Nessa ordem invertida, a lei já não reflete a justiça, mas a estrutura mental de seus dominadores; a empatia é tratada como desvio, e a crueldade, como dever funcional. A violência estatal, então, não se apresenta mais como explosão excepcional, mas como rotina burocrática — fria, normatizada e administrada em nome da imposição de um consenso político e cultural fabricado pela própria elite patocrática.


O adelismo judicial não é um desvio ocasional 


Ministro Alexandre de Moraes, do STF - Foto: Fabio Rodrigues-Pozzebom/Agência Brasil 


O adelismo judicial é uma manifestação específica do gênero patocracia. É a continuidade do atentado por outros meios. O que Adélio tentou fazer com a facada — interromper biologicamente a existência de uma liderança política popular e carismática —, Moraes tenta concluir com despachos, indeferimentos e decisões “técnicas” que ignoram deliberadamente a realidade médica. É a violência despida de sangue visível, mas não menos letal. É a institucionalização do ataque, agora protegido pelo verniz da legalidade. 

A situação torna-se ainda mais obscena quando se recorda que Alexandre de Moraes sequer deveria estar vestindo a toga. Para além de todas as violações a direitos humanos por ele cometidas, a sua indecente proximidade com o escândalo do Banco Master já seria suficiente para afastá-lo de qualquer função judicante em um país minimamente sério. Um juiz sob suspeita grave não tem autoridade moral para decidir sobre a liberdade — e a sobrevivência — de ninguém. 

O Brasil assiste, atônito, à consolidação de uma patocracia em que o Judiciário não apenas persegue adversários, mas o faz com requintes de sadismo. O adelismo judicial não é um desvio ocasional, mas o principal sintoma de um regime em decomposição moral. Ele implica a queda definitiva do último resquício de civilização que ainda fingíamos possuir.


Flávio Gordon - Revista Oeste