quinta-feira, 29 de setembro de 2016

Renata Lo Prete: "Mil candidatos, uma utilidade"

O Globo

A eleição do desencanto chega ao primeiro turno com voto útil como variável em alta


A eleição do desencanto chega ao primeiro turno com o voto útil como variável em alta.
No Rio, 36% dos entrevistados pelo Datafolha entraram na semana decisiva abertos à possibilidade de mudar de candidato. Em São Paulo, 34%.

Entre os gatilhos de mudança, ganha importância o mecanismo que leva o eleitor a abdicar do nome de sua preferência na expectativa de contribuir para um determinado resultado: forçar um segundo turno onde ele é dúvida, assegurar diversidade na etapa final, providenciar adversário competitivo para um líder inconteste. Em resumo, optar pelo que lhe parecer “menos ruim”.

A depender da perspectiva de quem faz a escolha e do grau de definição do quadro, o voto útil envolve um cálculo relativamente simples. Em Porto Alegre, eleitores “vermelhos” interessados em evitar um segundo turno restrito a candidatos “azuis” estão migrando de Luciana Genro (PSOL), que começou no alto e desde então só fez cair, para Raul Pont (PT), que disputa o segundo lugar com o ascendente Marchezan Júnior (PSDB). Na capital gaúcha, o líder isolado é o atual vice-prefeito, Sebastião Melo (PMDB).

No Rio, o voto útil deverá definir o adversário de Marcelo Crivella (PRB) no mata-mata. Seja provocando migrações de última hora entre a clientela do trio Marcelo Freixo (PSOL), Jandira Feghali (PCdoB) e Alessandro Molon (Rede). Seja drenando para Pedro Paulo (PMDB), o candidato com máquina, votos antes declarados a Indio da Costa (PSD), Flávio Bolsonaro (PSC) e Carlos Osorio (PSDB).

Mas é em São Paulo que a conta complicou. Até a semana passada, Marta Suplicy (PMDB) despontava como potencial beneficiária de um voto motivado pelo desejo de tirar Celso Russomano (PRB) de um segundo turno para o qual, tudo indica, João Doria (PSDB) já garantiu ingresso.

Só que Marta apanhou dos adversários e caiu. E porque caiu está apanhando mais — dinâmica clássica de campanha. Em recuperação, mesmo que por ora modesta, o prefeito Fernando Haddad (PT) passou a se oferecer como substituto de Marta na missão de barrar Russomano. Daqui a três dias, votar útil será votar em quem?

A palavra da hora é volatilidade. Potencializada pelos debates da Rede Globo hoje à noite. Muita cautela, portanto, na leitura das pesquisas. Os institutos já têm na ponta da língua a explicação para as surpresas.

MEMÓRIA DA URNA

Segundo as pesquisas, 20 partidos têm chance de vencer em pelo menos uma das 26 capitais. Em 2012, 11 conseguiram. Em média, há neste ano 50% mais candidatos a prefeito nos municípios com mais de 500 mil eleitores.