domingo, 11 de setembro de 2016

"Os reis da narrativa", por Mario Vitor Rodrigues

Com Blog do Noblat - O Globo



Além de ser despreparada, violenta e portanto autoritária, nossa polícia é incapaz de conceber um preceito básico da democracia: todo cidadão tem o direito de protestar contra seus governantes. Certo?
E não cabe juízo de valor sobre as demandas em si, muito pelo contrário, tanto os discursos quanto as ações dos manifestantes devem ser resguardados inquestionavelmente. É este o preço que se paga para viver em uma democracia e é esta a única maneira de garantir um país livre. Correto?
Não.
Em ambos os casos.
Negar argumentos consagrados sempre gera desconforto, é natural, mas, antes de entrar nesse falso debate sobre truculência policial e comportamentos criminosos durante as manifestações, devo dizer, pior ainda é assumir-se incapaz de questionar obviedades fundidas ou preconceitos moralmente aceitos.
Sobre a indústria da narrativa neste país, aliás, vale ressaltar, nossa grande sorte foi poder contar com a resiliência da Polícia Federal, dos vários Moros e Júlios Marcelos. Sem eles, o loteamento de estatais, a promiscuidade entre governo e sindicatos, ou o aparelhamento de canais de comunicação por parte do PT, jamais teriam amealhado tanta publicidade. Idem para a bandalheira no Bolsa Família, o sequestro de organizações estudantis e o espetacular assalto para cima dos aposentados.
Sem este descortinar de escândalos, enfim, não seria tão fácil iluminar o desacerto na mensagem petista, tampouco colocar em perspectiva versões impostas pela esquerda sobre fatos históricos.
impeachment de Fernando Collor, por exemplo, cujo parecer da Comissão Especial não ultrapassou dois parágrafos, teve duração de 4 meses e o presidente afastado em 48 horas, até hoje é celebrado como uma vitória da democracia pelos mesmos que agora falam em golpe.
Posteriormente, diga-se, Collor acabou sendo absolvido de todas as acusações pelo STF, mas ainda assim teve seus direitos políticos cassados por 8 anos. Fica a pergunta, o que diriam, os indignados do momento, se Dilma tivesse sido submetida a um procedimento semelhante?
Mas o grande feito retórico engendrado por Lula e sua turma, indiscutivelmente, foi ter logrado dividir uma pátria miscigenada entre brancos usurpadores e não-brancos usurpados. Convenientemente arbitrada por eles próprios, é claro, os únicos com autoridade moral para proteger os perseguidos.
Tão cedo a sociedade não será capaz de debelar o feitiço, parece óbvio, mas combatê-lo é imperativo. Assim como, por extensão, é necessário contextualizar o que vem acontecendo nas ruas de São Paulo.
Desde 2013, todo e qualquer protesto de grande vulto promovido ou apoiado por grupos de esquerda terminou em quebradeira, gente ferida, ou em assassinato. Não pode ser coincidência. Não pode e não é. Ao encadeamento de eventos repetidamente provocado pelos mesmos personagens, visando a autopromoção, dá-se o nome de estratégia.
É até compreensível que enxerguem na vitimização o único caminho para continuar inflando a dicotomia entre esquerda e direita, seja lá o que isto signifique em pleno 2016, mas não merecem a comoção de ninguém.
Deveria preocupar, isto sim, o cacoete dos nossos jovens para servirem de massa de manobra, bem como o discurso irresponsável que fala em golpe de estado e faz analogia com a tortura, agudo ao ponto de levá-los a cometerem crimes e a arriscarem a própria integridade física.
Voltando ao início, a existência de maus policiais, autênticos bandidos de farda, é tão inegável quanto é mentirosa sua generalização. Assim como resguardar inquestionavelmente as ações de manifestantes só é possível se estes não ultrapassarem os limites da lei.
É esta, aliás, a única maneira de garantir um país livre: respeitar suas leis. O resto é tentativa de imposição ideológica e gana pelo poder, nada a ver com democracia.
 Black Blocs lançam morteiros no prédio da Câmara dos Vereadores (Foto: Marcelo Piu / O Globo)Black Blocs lançam morteiros no prédio da Câmara dos Vereadores (Foto: Marcelo Piu / O Globo)