Além de ser despreparada, violenta e portanto autoritária, nossa polícia é incapaz de conceber um preceito básico da democracia: todo cidadão tem o direito de protestar contra seus governantes. Certo?
E não cabe juízo de valor sobre as demandas em si, muito pelo contrário, tanto os discursos quanto as ações dos manifestantes devem ser resguardados inquestionavelmente. É este o preço que se paga para viver em uma democracia e é esta a única maneira de garantir um país livre. Correto?
Não.
Em ambos os casos.
Negar argumentos consagrados sempre gera desconforto, é natural, mas, antes de entrar nesse falso debate sobre truculência policial e comportamentos criminosos durante as manifestações, devo dizer, pior ainda é assumir-se incapaz de questionar obviedades fundidas ou preconceitos moralmente aceitos.
Sobre a indústria da narrativa neste país, aliás, vale ressaltar, nossa grande sorte foi poder contar com a resiliência da Polícia Federal, dos vários Moros e Júlios Marcelos. Sem eles, o loteamento de estatais, a promiscuidade entre governo e sindicatos, ou o aparelhamento de canais de comunicação por parte do PT, jamais teriam amealhado tanta publicidade. Idem para a bandalheira no Bolsa Família, o sequestro de organizações estudantis e o espetacular assalto para cima dos aposentados.
Sem este descortinar de escândalos, enfim, não seria tão fácil iluminar o desacerto na mensagem petista, tampouco colocar em perspectiva versões impostas pela esquerda sobre fatos históricos.
O impeachment de Fernando Collor, por exemplo, cujo parecer da Comissão Especial não ultrapassou dois parágrafos, teve duração de 4 meses e o presidente afastado em 48 horas, até hoje é celebrado como uma vitória da democracia pelos mesmos que agora falam em golpe.
Posteriormente, diga-se, Collor acabou sendo absolvido de todas as acusações pelo STF, mas ainda assim teve seus direitos políticos cassados por 8 anos. Fica a pergunta, o que diriam, os indignados do momento, se Dilma tivesse sido submetida a um procedimento semelhante?
Mas o grande feito retórico engendrado por Lula e sua turma, indiscutivelmente, foi ter logrado dividir uma pátria miscigenada entre brancos usurpadores e não-brancos usurpados. Convenientemente arbitrada por eles próprios, é claro, os únicos com autoridade moral para proteger os perseguidos.
Tão cedo a sociedade não será capaz de debelar o feitiço, parece óbvio, mas combatê-lo é imperativo. Assim como, por extensão, é necessário contextualizar o que vem acontecendo nas ruas de São Paulo.
Desde 2013, todo e qualquer protesto de grande vulto promovido ou apoiado por grupos de esquerda terminou em quebradeira, gente ferida, ou em assassinato. Não pode ser coincidência. Não pode e não é. Ao encadeamento de eventos repetidamente provocado pelos mesmos personagens, visando a autopromoção, dá-se o nome de estratégia.
É até compreensível que enxerguem na vitimização o único caminho para continuar inflando a dicotomia entre esquerda e direita, seja lá o que isto signifique em pleno 2016, mas não merecem a comoção de ninguém.
Deveria preocupar, isto sim, o cacoete dos nossos jovens para servirem de massa de manobra, bem como o discurso irresponsável que fala em golpe de estado e faz analogia com a tortura, agudo ao ponto de levá-los a cometerem crimes e a arriscarem a própria integridade física.
Voltando ao início, a existência de maus policiais, autênticos bandidos de farda, é tão inegável quanto é mentirosa sua generalização. Assim como resguardar inquestionavelmente as ações de manifestantes só é possível se estes não ultrapassarem os limites da lei.
É esta, aliás, a única maneira de garantir um país livre: respeitar suas leis. O resto é tentativa de imposição ideológica e gana pelo poder, nada a ver com democracia.
Black Blocs lançam morteiros no prédio da Câmara dos Vereadores (Foto: Marcelo Piu / O Globo)