O ex-presidente Lula pretende articula a criação de uma frente ampla de esquerda, com apoio de movimentos populares (como o MST), entidades sindicais (como a CUT, CTB, CONTAG, FUP), além de juristas, intelectuais, artistas e partidos de esquerda. Esta ação pode levar à substituição da legenda PT, rebatizada por uma nova sigla comum a várias forças partidárias. O PCdoB já está integrado a esse projeto e Lula agora está negociando com o PDT. Se esse projeto for consistente,seria criada uma federação de partidos. É assim na África do Sul com o Congresso Nacional Africano e foi assim que, na Itália, se construiu o Partido Democrático.
-- O partido entendeu que não pode mais agir sozinho nem pode ser o condutor da luta -- resume o fiel escudeiro de Lula e ex-ministro Gilberto Carvalho.
A Itália talvez seja o país mais parecido com o Brasil na vida política e partidária. A pulverição partidária, a criação de legendas, a extinção de siglas, a formação de coalizões para disputar eleições e governos (José Sarney, Itamar Franco, Fernando Henrique Cardoso, Lula e Dilma Rousseff) apoiados por uma gama de partidos com diferentes posições ideológicas.gendas social-democratas e até liberais. Nessa fase, apoiu os governos de Romano Prodi, de Massimo D'Alema, e Giuliano Amato. Ele volta ao poder pelas mãos de uma coalizão chamada A Oliveira, que reunia desde a centro-esquerda, setores da esquerda da Demoracia Cristão e até liberais.

O país europeu foi governado pela Democracia Cristã de 1946 a 1983. Nesse ano, pela primeira vez chegou ao poder o Partido Socialista taliano (PSI). Seu líder, Bettino Craxi, foi primeiro-ministro até 1987. Mas a imagem de Craxi, e do PSI, sucumbiu com a operação Mãos Limpas. Essa descobriu que o PSI fazia caixa 2 num país onde o financiamento eleitoral é público. A investigação revelou também a cobrança de propinas por integrantes do governo Craxi. Bettino foi condenado pela Justiça e pediu asilo na Tunísia, onde viveu até sua morte em janeiro de 2000, aos 65 anos. O seu partido, o PSI, deu seu suspiro derradeiro em 1992, quando Giuliano Amato foi primeiro-ministro por um ano.
A desmoralização corroeu o PSI. Seus dirigentes iniciaram, então, um processo de formação de novos partidos e de união com várias legendas.
Esse processo de fusões (criação e extinção de partidos) culminou com a criação do Partido Democrático que retirou do poder Silvio Berlusconi, do partido Forza Itália. Berlusconi governou a Itália por nove anos, mas também não escapou da desmoralização. Em 2010, ele passou a responder a processos de corrupção e fraude. Isso o forçou a deixar o poder um ano depois. O caixa 2, a corrupção e a fraude, num período de 20 anos, acabaram com o PSI (centro-esquerda), a Democracia Cristã (por suas relações com a Cosa Nostra) e o partido de Berlusconi (liberais a direita). Desde 2013, o cargo de primeiro-ministro é ocupado pelo Partido Democrático (Enrico Letta e Matteo Renzi), que é resultado de um conjunto de fusões entre vários partidos, movimentos e frentes políticas com predominância da social-democracia.
-- O PT, inflado pela "vitória política" (em 1989), apostou em um projeto-solo. A formação de uma Frente levaria ao crescimento das demais forças de esquerda (PSB, PCdoB e PDT). Mais do que nunca (em 2016), continua necessária uma frente ampla de caráter nacional popular que congregue as forças progressistas -- defende Roberto Amaral, ex-vice-presidente do PSB.

A Frente Ampla, no Uruguai, é exemplo na América Latina, de uma federação de partidos e organizações sociais que reúne forças de esquerda e progressistas e elege o presidente daquele país desde 2005.
A refundação do PT, vem sendo defendida por alguns de seus líderes. Ele só não foi adiante até agora, porque aqueles que a pregam não tem força política. Somente com o aval de Lula ela iria adiante. A divisão do partido em várias legendas também está sendo descartada. Os petistas estão se convencendo que a divisão os tornaria ainda mais frágeis. O exemplo da Itália sugere desdobramentos que podem ser reinventados no Brasil. A imagem do partido foi fortemente abalada pelo escândalo do mensalão e está sucumbindo com o escândalo do petrolão e o impeachment de uma presidente petista.
A principal força social-democrata do país pode ser forçada a caminhar por uma trajetória semelhante à do PSI. Esse depois de chegar ao poder, afundou por atos de corrupção envolvendo importantes membros do partido. Alguns petistas já avaliam alternativas. Para ter eficácia, isso passa pela mudança do nome (Partido dos Trabalhadores) e da sigla da legenda (PT). Para ter sucesso será preciso agregar forças políticas e outros partidos à esquerda. Será preciso rebatizá-lo e lhe dar uma nova marca (sigla). Pois quem quiser se unir a esta refundação, depois de tantos fatos negativos e corrosivos, não vai querer carregar nas costas a cruz do PT.
Na vida política, assim como na vida comercial, ninguém vale o que acha que merece. Tudo e todos valem o que os outros estão dispostos a oferecer.