domingo, 3 de agosto de 2014

‘Incerteza é sobre quando virá o crescimento da economia brasileira’, diz presidente da Alpargatas

- O Globo

Márcio Utsch teme efeitos de reajustes de preços em 2015

O trimestre foi difícil, já que perdemos muitos dias úteis por causa da Copa. Isto reduz a produção, mas o custo fixo é o mesmo. - Daniel Wainstein
 


Presidente da Alpargatas, Márcio Utsch avalia que reajustes de energia e combustíveis vão drenar os recursos das famílias em 2015. ‘Se vierem mesmo, será complicado’


Que realidade o senhor vê hoje na economia?
Vivemos um momento em que há inflação alta e baixo crescimento. Temos um pouco de crescimento, então não é uma estagflação 100%, mas a economia está com juro alto, as pessoas compram menos, e a inflação ainda não cedeu o suficiente. Ter inflação sem crescimento é muito ruim.

O que explica a situação da indústria, com quatro meses seguidos de queda?
Estamos sofrendo um pouco com fatores importantes. A inovação é fundamental para o crescimento sustentável. A indústria precisa de investimentos em inovação, na forma de produzir. É isso que faz o Brasil crescer. Os balanços das empresas no segundo trimestre têm sido ruins: o mercado tem puxado as companhias para baixo. O trimestre foi difícil, já que perdemos muitos dias úteis por causa da Copa. Isto reduz a produção, mas o custo fixo é o mesmo.

A indústria de bens de capital caiu 21,1% em junho. O que inibe o investimento?
O investimento se dá baseado em credibilidade de longo prazo, em previsibilidade e confiança. Não falta credibilidade no futuro da economia brasileira, mas há incerteza. Todo mundo acredita que o Brasil vai crescer, que vai no caminho certo. A incerteza é sobre quando virá o crescimento, se é em 2014, em 2015 ou 2016. Depende das condições macroeconômicas. Num macroambiente favorável, as coisas acontecem. Quando é desfavorável, afeta a todos. Hoje não se vê muitas pessoas comprando, os pátios estão cheios de automóveis....

As medidas de estímulo ao crédito podem ajudar?
Ainda que o governo tenha liberado mais dinheiro para os bancos emprestarem mais, os juros ainda estão muito altos. Para o consumidor, talvez consiga animar um pouco. Mas o empresário investe para gerar retorno. Este retorno deve ser maior que o custo do investimento, a taxa de juros. O juro alto exige taxas de retorno muito mais altas, o que torna mais inviável o investimento. Os juros altos seguram a inflação, mas inibem os investimentos. O juro hoje está prejudicial à indústria brasileira.

Há previsão de mais investimento da Alpargatas?
Inauguramos em 2013 uma fábrica nova (em Montes Claros, MG), que aumentou a produção em cem milhões de pares por ano, e agora o investimento precisa maturar. Agora, o investimento será em manutenção.

O que espera da economia em 2015?
Há uma expectativa de reajustes de preços, como energia e combustíveis. E os reajustes drenam os recursos das famílias. Se vierem mesmo, será complicado.

Vocês têm fábricas na Argentina. Temem impacto do calote na economia?
Se a situação se agravar, o fluxo de recursos para a Argentina deve ser cortado e isso pode afetar a economia. Mas temos posição muito boa no mercado e uma marca líder, a Topper, e não acreditamos em impacto.

A Alpargatas parece não estar no mesmo quadro da indústria. Por quê?
Investimos cerca de 3% da receita em pesquisa, desenvolvimento e inovação e algo como 12% em marketing. Estamos muito preocupados com inovação para desenvolver nossas vantagens competitivas. A inovação e o marketing impedem a competição por preço, que é muito nefasta.