O ex-presidente é popular, carismático, querido pelas pessoas de seu entorno — ou seja, tudo aquilo que o ministro do STF, uma das figuras mais desprezadas da República, não é
“Todo homem carrega uma sombra; quanto menos ela for incorporada à vida consciente, mais negra e densa se tornará.” (C. G. Jung, Aion: Estudos sobre o simbolismo do Si-mesmo)
H á na teoria psicológica de Carl Gustav Jung um conceito que, de tão profundo, acaba por iluminar regiões da vida política em que a sociologia, a ciência política e mesmo a história frequentemente se revelam impotentes. Trata-se da Sombra — essa zona limítrofe da alma, feita de matéria densa e opaca, onde repousa, fossilizado, tudo aquilo que o indivíduo ou a instituição julga feio demais para ser admitido à luz do dia: os medos que não ousa nomear, as vaidades que o corroem em silêncio, as cobiças menores, as vinganças subterrâneas e, sobretudo, a fustigante suspeita de que não somos aquilo que pretendemos parecer.
A Sombra, dizia Jung, é a face oculta da persona, esse personagem cuidadosamente costurado para sobreviver ao teatro social. Não há poder que dispense tal máscara. Estados, tribunais, parlamentos, corporações burocráticas — todos dependem de um rosto público feito de virtudes polidas: racionalidade, imparcialidade, equilíbrio, decoro. Mas a manutenção dessa imagem, como tudo que é artificial, exige um sacrifício constante, uma espécie de purificação ritual que consiste em lançar atrás de si, para fora do círculo iluminado, aquilo que contradiz a narrativa sobre si mesmo.
O drama começa quando, incapaz de suportar esse peso interno, o sujeito transfere à figura do outro a carga que lhe pertence. A Sombra, então, não é integrada; é projetada. E o adversário, até então apenas adversário, converte-se em ídolo às avessas, depositário de todos os males, bode expiatório em torno do qual se organiza uma liturgia persecutória. É nesse instante que a política deixa de ser exercício racional de governo e se torna um psicodrama — ou, mais exatamente, uma tragédia.
Entre os inúmeros episódios em que esse mecanismo se manifestou, poucos são tão transparentes quanto o conflito entre Josef Stalin e Leon Trotski. Engana-se quem supõe que a inimizade entre ambos nasceu de divergências doutrinárias ou de disputas meramente burocráticas. Nada disso: o motor profundo da perseguição era de natureza espiritual. Stalin, atormentado por uma insegurança que só crescia à medida que o poder se consolidava, passou a ver em Trotski a encarnação viva de tudo aquilo que lhe faltava.
Trotski possuía o brilho que Stalin invejava: a pena ágil, a inteligência afiada, a ousadia estratégica, o fascínio que exercia sobre soldados e intelectuais. Era, por assim dizer, o príncipe maldito da Revolução — e, justamente por isso, a figura que melhor revelava a vulgaridade provinciana do ditador georgiano. Cada gesto de Trotski parecia traçar, por contraste, o contorno da mediocridade que Stalin tentava ocultar sob camadas de rigidez burocrática.
Cada nova violência institucional contra o bolsonarismo não gera alívio na esquerda, mas uma euforia inquieta.
Em outras palavras, Trotski era a Sombra de Stalin. E, como é da natureza das sombras quando não integradas, ele precisava ser destruído. Assim se inaugura o rito sacrificial: primeiro o isolamento paulatino, como se cada lâmpada da casa de um moribundo fosse apagada com meticuloso sadismo; depois, a reescritura da história, as acusações montadas coreograficamente, os expurgos que avançam como uma maré de chumbo, até a travessia final rumo ao exílio.
A literatura registrou abundantemente a anatomia da queda de Trotski. Quer de maneira abertamente empática, como no último volume da trilogia de Isaac Deutscher, quer com o olhar mais distanciado de Robert Service, quer ainda por meio do romance histórico de Leonardo Padura, tudo revela um Trotski reduzido a um andarilho sujeito aos golpes do destino, sobrevivendo de traduções e estadias provisórias, mudando de país como quem muda de quarto — sempre atento ao menor ruído atrás da porta, consciente de que o veredito já estava escrito muito antes de ser pronunciado.
Mas, ironicamente, Trotski tornava-se tanto mais perigoso aos olhos de Stalin quanto mais reduzido a um fantasma político, porque sua própria existência espectral desmentia a persona heroica que o ditador tentava encenar. Stalin não precisava matar Trotski para consolidar o poder. Precisava matá-lo para silenciar a Sombra que o atormentava. Cada golpe de picareta no crânio do exilado era, simbolicamente, um golpe contra a própria insuficiência que Stalin não ousava admitir.
Transposto para os nossos tristes trópicos, esse padrão arquetípico reaparece na perseguição movida por Alexandre de Moraes contra Jair Bolsonaro. Não, claro está, porque os personagens brasileiros se pareçam substancialmente com os do drama soviético, mas porque o mecanismo psicológico que organiza a nossa ditadura presente é estruturalmente similar.
Nos últimos anos, com a devoção obsequiosa da grande imprensa e da elite político-administrativa, Moraes construiu uma persona de “guardião da democracia”: o juiz providencial que, num país polarizado por bárbaros, ergue sozinho a espada luminosa da legalidade. É uma persona sedutora, sobretudo para quem necessita justificar poderes crescentes por meio de uma retórica moralizadora.
Mas é também uma persona frágil diante da presença de um Outro que a desestabiliza. Por suas características próprias, Bolsonaro personifica aquilo que a narrativa alexandrina não pode admitir: a possibilidade de que o “defensor da democracia” seja, na verdade, o agente de uma escalada autoritária legitimada pelo pânico moral.
Bolsonaro representa para Moraes não apenas um adversário político, mas uma ameaça existencial, um lembrete incômodo de que o poder precisa, ao menos em teoria, prestar contas ao povo, e não apenas às corporações de Brasília. Bolsonaro é popular, carismático, querido pelas pessoas de seu entorno — ou seja, tudo aquilo que Alexandre, uma das figuras mais desprezadas da República, não é.
Com sua popularidade orgânica, sua linguagem simples, sua imprevisibilidade e sua recusa em desempenhar o papel de vilão no qual queriam enquadrá-lo, Bolsonaro tornou-se o elemento dissonante que expõe as fissuras da persona alexandrina. Sua humanidade exuberante, caótica e imperfeita serve de contraste incômodo ao aparato de autopurificação moral que define o sistema político-burocrático de Brasília.
É nesse ponto que o mecanismo junguiano se fecha. Moraes passa a denunciar em Bolsonaro — o “extremista”, o “inimigo da democracia”, o “populista” — não o que o ex-presidente é, mas o que ele próprio teme ser. Daí a narrativa de “ódio” e “raiva” que surge nos relatos. Daí a convicção delirante de que Bolsonaro “teria acabado com sua vida”. Daí a escalada sádica — intimação dentro de uma UTI, buscas espetaculares, vigilância doméstica, prisão para evitar uma fuga impossível — que revela menos a força do perseguidor do que sua vulnerabilidade. Quanto maior a Sombra, maior a violência necessária para sustentar a persona.
Jung advertia que sociedades inteiras sucumbem quando atribuem a instituições humanas uma aura de infalibilidade sacerdotal. É então que magistrados se imaginam encarnações ambulantes da Constituição; que tribunais se veem como tutores de um povo incapaz de governar a si mesmo; que burocratas confundem sua autopreservação com a preservação da democracia. O Brasil contemporâneo vive precisamente essa Ego trip totalitária.
Toda perseguição estatal totalitária revela menos sobre o perseguido do que sobre o perseguidor. Foi assim com Stalin. É assim com Alexandre de Moraes.
A perseguição a Bolsonaro — culminando numa prisão tão indecorosamente desmedida — tornou-se um ritual purificador para uma elite que, incapaz de reconhecer sua própria falência, prefere projetá-la sobre um inimigo conveniente. Com seus modos caipiras e seu magnetismo popular, Bolsonaro não ameaçou apenas um arranjo institucional, mas a ficção político-psicológica mediante a qual Brasília ainda tenta se enxergar como centro moral do país. É por isso que cada nova violência institucional contra o bolsonarismo não gera alívio na esquerda, mas uma euforia inquieta. Pois, quanto mais os perseguidores avançam, mais visível se torna a Sombra que tentam ocultar.
A história ensina que nenhuma Sombra se dissipa pela destruição daquele que a representa. Stalin não purificou sua alma eliminando Trotski; apenas expôs sua deformidade ao longo do tempo. Da mesma forma, a tentativa de transformar Bolsonaro num inimigo metafísico — interditando sua presença, cassando sua palavra, martirizando seu corpo — revela menos sobre o ex-presidente do que sobre a elite que precisa dessa figura para sustentar sua própria fábula de pureza institucional.
No final das contas, toda perseguição estatal totalitária revela menos
sobre o perseguido do que sobre o perseguidor. Foi assim com Stalin. É
assim com Alexandre de Moraes. A história se repete não porque os
homens não aprendem, mas porque raramente desejam olhar para
sua própria Sombra. É mais fácil inventar inimigos. E, quando a
política se reduz a esse exercício de histeria e pose, a sociedade
colapsa não por culpa da figura estigmatizada que se tenta destruir,
mas, justamente, pela força irracional que se mobilizou para destruíla.
Flávio Gordon - Revista Oeste