domingo, 9 de outubro de 2022

'O Primeiro Turno e a derrota da Lulocracia', por Roberto Motta

 


Plenário da Câmara dos Deputados | Foto: Antonio Cruz/Agência Brasil


O resultado dessas eleições contrariou a famosa frase de Ulysses Guimarães, que dizia: “Vocês estão achando esse Congresso atual ruim? Então esperem pelo próximo”


Para muitos brasileiros — sou um deles — é difícil acreditar que 57 milhões de pessoas tenham votado em uma pessoa condenada em dois processos criminais, que passou quase dois anos presa e foi acusada de envolvimento nos maiores escândalos de corrupção da história. Essa pessoa é também o autor de uma variedade imensa de declarações inacreditáveis: admitiu que mentia ao falar mal do Brasil no exterior, inventando milhões de crianças de rua que só existiam em sua imaginação, disse que o criminoso só escolhe o crime porque “não teve um tênis quando era criança, ou porque foi vítima de preconceito”, chamou todo o setor agropecuário de “fascista” e identificou as multidões — milhões de pessoas — que celebraram o 7 de Setembro como “supremacistas”.

Apesar de tudo isso, esse personagem teve milhões de votos.

Existem muitas explicações possíveis para esse resultado eleitoral. Mas não é isso que interessa agora.

O importante é notar que, quando examinamos as votações para o Congresso e para os governos estaduais, os resultados da votação de 2 de outubro sinalizam uma esmagadora vitória das forças políticas pró-liberdade e uma significativa renovação do Congresso e das Assembleias Legislativas, na direção de melhor qualidade e representatividade dos parlamentares e governadores eleitos.

O eleitor enviou para o Senado e para a Câmara dos Deputados nomes como Bia Kicis (Distrito Federal), general Pazuello e Alexandre Ramagem (pelo Rio de Janeiro), Ricardo Salles, Capitão Derrite, Carla Zambelli, Luiz Philippe de Orleans e Bragança e Marcos Pontes (São Paulo), Deltan Dallagnol (Paraná) e general Mourão (Rio Grande do Sul), para citar apenas alguns. A lista de bons nomes é enorme. Ao mesmo tempo, perderam seus mandatos vários parlamentares — entre eles muitas celebridades — que, eleitos na onda Bolsonaro de 2018, passaram os quatro anos de mandato preocupados em lacrar nas redes sociais, sem nenhum pudor de abandonar seus eleitores e trair as ideias que prometeram seguir. Foi — pode-se dizer assim — uma faxina geral.

Só isso já seria motivo para muita comemoração. Não há notícia de fenômeno parecido na história recente.

O resultado dessas eleições contrariou aquela famosa frase do deputado Ulysses Guimarães, que dizia: “Vocês estão achando esse Congresso atual ruim? Então esperem pelo próximo”.

Pois o próximo Congresso — tudo indica — será muitíssimo melhor que o atual.

O partido do presidente, o PL, elegeu a maior bancada na Câmara, com 99 deputados, conquistou maioria no Senado, com 13 senadores eleitos, e conseguiu eleger muitos candidatos para as Assembleias Legislativas nos Estados.

Essas vitórias foram obtidas apesar de uma ofensiva política e ideológica inédita no país, vinda do que se pode chamar de trinca do mal, que cerrou fileiras contra o presidente, seus colaboradores e apoiadores. Essa trinca é formada pelo consórcio de mídia, que monopolizou o discurso público e transformou jornalismo em um ataque incessante e frequentemente mentiroso — não há outra palavra — ao presidente, seus aliados e apoiadores; pelo consórcio de pesquisas, que montou uma fábrica de resultados estatísticos de intenções de voto que afrontava a realidade e cujas previsões, quando comparadas com os resultados das urnas, exibiram erros grosseiros; e pelo Partido dos Tribunais, que faz uma aplicação assimétrica das leis e, quando isso não é suficiente, cria sua própria legislação.

A trinca operou durante quase três anos em oposição implacável ao presidente, disseminando, amplificando ou criando notícias negativas, pintando um retrato fictício da opinião pública e usando instrumentos de perseguição penal — para usar um termo empregado pela própria Procuradoria-Geral da República — contra a simples emissão de opiniões e posicionamentos políticos favoráveis ao governo ou críticos de seus adversários.

Criminalizou-se a opinião no Brasil.

Os resultados eleitorais do primeiro turno destruíram a reputação dos “institutos” de pesquisa — na verdade, empresas comerciais em busca de resultados financeiros. A maioria dessas empresas errou grosseiramente ao tentar prever os resultados da votação. Ficou claro o que muitas pessoas, dentro e fora do Brasil, sempre disseram: as pesquisas são um mero instrumento para influenciar o voto, especialmente dos eleitores com menor acesso à informação.

Apesar da trinca do mal e de toda a manipulação ideológica da opinião pública, a realidade se impôs. Os resultados eleitorais positivos também se refletiram nas disputas pelo governo dos Estados mais importantes da federação.

Tarcísio de Freitas, o candidato do presidente para o governo do Estado de São Paulo, vai para o segundo turno com muita força e deverá vencer sem dificuldade, contando agora com o apoio do atual governador, Rodrigo Garcia. Em sua campanha, Tarcísio converterá votos que, no primeiro turno, foram dados ao candidato do PT pela dificuldade que alguns eleitores tiveram com o estilo pessoal do presidente, considerado por muitos como inadequado à “liturgia do cargo”. São os eleitores “regra de etiqueta”, segundo meu amigo Antonio de Moura — e eles podem representar um número significativo de votos em São Paulo. É um eleitorado cuja opinião é moldada pela grande mídia e pelas pesquisas, mas que é sensível a ajustes na mensagem e à exposição do passado político, ideológico e judicial do PT.

Governo Paulista Bolsonaro
Da esquerda para a direita, Rodrigo Garcia, governador de São Paulo, Jair Bolsonaro, presidente da República, e o ex-ministro Tarcísio Gomes de Freitas | Foto: Reprodução/Redes Sociais

As disputas eleitorais para os governos do Rio de janeiro e de Minas foram resolvidas no primeiro turno. O governador eleito do Rio, Cláudio Castro, era o candidato do presidente. O governador eleito de Minas, Romeu Zema, já declarou seu apoio a Bolsonaro. É de Minas também o deputado federal mais votado das eleições, Nikolas Oliveira, eleito com quase 1,5 milhão de votos e apoiador do presidente. No Rio Grande do Sul o ex-Ministro Onyx Lorenzoni tem grandes chances de vitória para o governo no segundo turno. Ronaldo Caiado, governador eleito de Goiás, Mauro Mendes, governador eleito de Mato Grosso, Ibaneis Rocha, governador eleito do Distrito Federal, e Ratinho Junior, governador eleito do Paraná, já declararam apoio a Bolsonaro.

Ao dar voz aos sentimentos e aos valores da maioria dos brasileiros, Jair Bolsonaro pode ter, assim como Margaret Thatcher, criado algo muito maior que ele

Os Estados do Nordeste deram ao presidente a melhor votação possível, dentro da realidade atual. Não é hora de reclamar, ao contrário; é hora de agradecer por cada um dos votos do Nordeste e trabalhar para que seu número aumente, dentro da nova realidade que se apresentará no segundo turno.

Apesar de todos os ataques, dentro e fora das quatro linhas, as forças da esquerda assistiram ainda aos ícones da Lava Jato serem eleitos para o Senado (Sergio Moro) e a Câmara (Deltan Dallagnol) com votações expressivas, aumentando a capacidade do Congresso de lidar com futuros escândalos de corrupção e destruindo a narrativa petista de que a Lava Jato foi derrotada nas urnas.

Assim, o presidente Bolsonaro, mesmo ficando em segundo lugar na votação do primeiro turno, sai dele fortalecido, com 1 milhão de votos a mais do que obteve no primeiro turno das eleições de 2018 e com uma posição consolidada como líder de uma corrente política capaz de se sustentar e de crescer.

Não é pouca coisa, especialmente diante dos incessantes esforços da esquerda e de quase todo o establishment para desqualificar e demonizar o bolsonarismo, acusando-o de todos os crimes possíveis e imaginários, inclusive aqueles que a própria esquerda comete habitualmente em sua busca insaciável por poder e, principalmente, quando finalmente o alcança.

Mas, assim como o thatcherismo — a filosofia política criada a partir das reformas implantadas pela primeira-ministra Margaret Thatcher no Reino Unido —, o bolsonarismo provou ser mais do que uma mera tendência passageira de comportamento ou um artifício eleitoral temporário.

Margaret Thatcher, ex-primeira-ministra do Reino Unido | Foto: Reprodução/Flickr

Ao dar voz aos sentimentos e aos valores da maioria dos brasileiros, Jair Bolsonaro pode ter, assim como Margaret Thatcher, criado algo muito maior que ele, e que perdurará na forma de uma corrente política com um conjunto de ideias e propostas claramente definidas, centradas da defesa dos direitos naturais e da liberdade.

Em oposição à tirania socialista, essa corrente propõe a defesa dos direitos à vida, à propriedade, à liberdade de expressão e à legítima defesa, e políticas guiadas pela redução da interferência do Estado na vida privada, pelo respeito ao Estado de Direito, e pelo reconhecimento do empreendedorismo e do livre mercado como instrumentos fundamentais para o progresso, a liberdade e a prosperidade do país.

Defensores dessas ideias conquistaram agora espaço privilegiado no Congresso Nacional, nas Assembleias Legislativas e nos governos estaduais.

Em qualquer lugar do mundo isso já seria uma vitória importante.

No Brasil, é uma conquista política histórica.

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Revista Oeste