A sanha jacobina de querer recomeçar a sociedade do zero e apagar o passado só rendeu maus frutos

Anatureza política dos atuais grupos de manifestantes revolucionários mundo afora não é uma novidade na História. A tentativa de recomeçar a sociedade do zero, de destruir tudo o que foi construído até o presente, de usar a violência como método de ação, de instituir o caos e a anomia para quebrar resistências e impor o medo, de calar quem discorda, de uniformizar mentalidades e comportamentos individuais teve o jacobinismo durante a revolução francesa como grande e influente exemplo histórico no Ocidente.
A infâmia jacobina foi muito bem descrita no calor dos acontecimentos por Edmund Burke em suas Reflexões sobre a Revolução na França (1790), por Joseph de Maistre em suas Considerações sobre a França (1796), por Augustin Barruel em suas Memórias para Assistir a História do Jacobinismo (1797) (1797). O paralelo entre os jacobinos franceses e os revolucionários de hoje cabe em muitos aspectos, mas quero tratar aqui de apenas um deles: a tentativa de destruição da História, vista como algo negativo que só rendeu maus frutos.
É exemplo recente a vandalização e a derrubada de estátuas de figuras históricas em vários países, como Estados Unidos e Inglaterra — no Brasil, a coisa não descambou porque os radicais daqui desconhecem a nossa História. Os revolucionários internacionalistas aproveitaram a reação legítima contra o assassinato de George Floyd por um policial nos Estados Unidos para dar vazão ao seu jacobinismo contemporâneo. Tudo com o apoio dos jacobinos nas universidades e na imprensa.
Quem acha que a História deve ser apagada destrói a própria origem
Não bastava exigir que o criminoso fosse punido e que episódios como aquele não fossem mais tolerados: era necessário atacar monumentos e exigir que a História fosse reescrita; era imperativo fazer das ruas um tribunal de exceção para condenar e executar sem julgamento qualquer personagem que pudesse, aos olhos de hoje, ser qualificado de racista ou supremacista branco. Em vez de defenderem a celebração de outras figuras históricas, a inclusão de novos vultos, preferiram, como sempre, a destruição em vez da construção.
Numa entrevista recente ao canal PoliticsJOE, o escritor inglês Douglas Murray mostrou-se alarmado com o simplismo que tomou conta da avaliação da História, a forma simplória com que os eventos históricos passaram a ser enquadrados ideologicamente.
Autor dos ótimos livros The Strange Death of Europe (Bloomsbury Continuum, 2017) e The Madness of Crowds (Bloomsbury Continuum, 2019), Murray explicou que aqueles que acham que a História deve ser apagada e reconstruída do zero, que qualquer resquício do passado deve ser eliminado, também destroem a sua origem, o país onde nasceram e residem. Esse movimento revolucionário é facilitado pelo desconhecimento da História, inclusive no Reino Unido. “A História não é só mal ensinada. Na verdade, ela nem chega a ser ensinada”, lamentou Murray.
Uma pesquisa realizada em 2008 mostrou que 23% dos adolescentes britânicos achavam que sir Winston S. Churchill era um personagem fictício. Para piorar o que já era grave, 58% dos entrevistados acreditavam que Sherlock Holmes, a mais famosa criação do escritor Arthur Conan Doyle, realmente existiu. Outra pesquisa publicada em 2010 mostrou que metade dos jovens britânicos era incapaz de identificar quem foi Churchill.
Para salvar a BBC do esquerdismo, seria necessário demitir toda a equipe
Apesar disso, numa pesquisa realizada pela BBC em 2002, a maioria do público adulto escolheu Churchill como o “maior britânico de todos os tempos”. Segundo se disse, a escolha foi favorecida por um programa de TV exibido à época sobre a atuação do líder inglês na 2ª Guerra. O resultado deve ter irritado muita gente da própria BBC, que é conhecida pelo seu esquerdismo à inglesa. É contraditório, inclusive, o fato de uma emissora estatal que produziu tantos filmes históricos estar sendo usada como instrumento de revisionismo. Um caso recente é exemplar.
Após enorme pressão pública, a direção da BBC foi obrigada a voltar atrás na decisão de impedir que fossem cantadas as letras das músicas Rule, Britannia! e Land of Hope and Glory na Última Noite dos Proms (abreviação de promenade concerts), festival anual de música clássica exibido durante oito semanas pela emissora.
Embora a justificativa fora o número reduzido de integrantes da orquestra para cantar as músicas em razão da covid-19, a motivação teria sido a percepção de que as letras celebrariam a escravidão e o colonialismo. Recomendo que você procure as letras no Google, leia e verifique como isso é uma grande tolice.
A BBC recuou, mas as discussões continuam e poderão antecipar a mudança na direção da emissora. Antes do episódio das músicas, o historiador Nigel Jones escreveu no site da ótima revista The Critic um artigo com título autoexplicativo: “Um presidente (do conselho) conservador não salvará a BBC”. Com experiência de quem já trabalhou para a emissora estatal, Jones afirmou que, independentemente de quem for o escolhido, é missão impossível limpar o esquerdismo da emissora sem despedir todo mundo e começar o trabalho com nova equipe. “A podridão foi longe demais e o veneno do wokeism esquerdista está enraizado na própria corrente sanguínea da BBC.”
Uma oportunidade para aprender História. E reaprender o que foi mal ensinado
Os jornalistas Andrew Neil e Charles Moore têm sido apontados como possíveis escolhas do primeiro-ministro Boris Johnson. Jones duvida: “Johnson é, seguramente, muito tímido e pusilânime para nomear qualquer um dos dois, mesmo que eles estivessem dispostos a aceitar o cargo”.
Naquela entrevista que citei, Murray disse que o primeiro-ministro foi covarde ao não defender Churchill tão logo sua estátua próxima ao Parlamento foi vandalizada — a reação veio bem depois. Johnson tem sido criticado por muitos conservadores pela postura e decisões. Aqui na Revista Oeste, em julho, critiquei-o no artigo “Quo vadis, Boris Johnson?”.
Talvez o efeito colateral imprevisto e positivo dessa sanha destruidora do jacobinismo contemporâneo contra a História seja despertar a curiosidade e torná-la conhecida de um público que a ignorava. Este é, portanto, um momento de extraordinária oportunidade para restaurá-la adequadamente e torná-la acessível a um público disposto a aprender o que não foi ensinado (ou foi mal ensinado) na escola e que foi deturpado por pesquisadores e intelectuais públicos. Inclusive no Brasil.
Bruno Garschagen é cientista político, mestre e doutorando em Ciência Política no Instituto de Estudos Políticos da Universidade Católica Portuguesa (Lisboa) e autor dos best-sellers Pare de Acreditar no Governo e Direitos Máximos, Deveres Mínimos (Editora Record).
Revista Oeste