sexta-feira, 11 de setembro de 2020

"O ocaso do lulismo", por Silvio Navarro e Artur Piva

Com o fim da Era Lula, a esquerda se radicaliza e perde espaço


Eram 15 horas do último dia 7 de setembro quando o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva decidiu quebrar seu silencioso inverno para fazer um pronunciamento à militância do Partido dos Trabalhadores e aos apoiadores que historicamente surfaram em sua trajetória política. Num vídeo gravado como típica peça de campanha eleitoral, o petista tentou resgatar a imagem de líder de massas, mas que a cada dia mais parece ter encerrado sua biografia na cela gourmet de Curitiba (PR).

Foram 23 minutos de ataques à gestão de Jair Bolsonaro — sem esconder o ressentimento com o antecessor, Michel Temer, ao falar em “governos que emergiram do golpe” —, mesclados com citações que hoje não ecoam mais nas fileiras de seu partido, porém, quiçá, nas falas rocambolescas de Ciro Gomes (PDT) ou na fúria juvenil de Guilherme Boulos (Psol). Frases como “abrir mão da soberania nacional”, “submissão aos interesses de Washington” e “uma escalada autoritária que faz lembrar os tempos sombrios da ditadura”. Sem números concretos nem propostas alternativas.

Uma tradução possível do discurso é a de que há uma percepção tardia do ex-presidente segundo a qual sua imagem não tem mais a mesma capilaridade desde a desastrosa passagem de Dilma Rousseff pelo Palácio do Planalto. Uma ilusão que ele mesmo alimentou e degenerou-se no pior pesadelo. O eleitorado petista minguou nas eleições municipais de 2016 e não se recuperou nas urnas no pleito seguinte, nem depois.

Estrela cadente

Há quatro anos, o PT amargou sua pior derrota em capitais desde 1985, quando emplacou pela primeira vez Maria Luiza Fontenele em Fortaleza (CE). Saiu das urnas com 254 prefeitos, ante 637 no pleito anterior — em números finais, o pior desempenho desde 2004, quando 410 faturaram. Nesses mesmos anos, o MDB se manteve com o maior número de prefeitos eleitos, sempre acima de mil.

Algumas derrotas, aliás, custaram a curar, como a de Fernando Haddad no maior colégio eleitoral do país, assim como a perda da hegemonia em todo o chamado cinturão vermelho metropolitano — além da capital São Paulo, foram reveses em São Bernardo do Campo, Santo André, Mauá, Guarulhos, Carapicuíba, Embu das Artes e Osasco. Em suma, das nove máquinas municipais administradas nesse círculo pela sigla, restou só Franco da Rocha — uma cidade de pouco mais de 135 mil eleitores.

O lulismo também não triunfou no Nordeste naquele ano: perdeu uma das joias da sigla, a capital Recife (PE), um terreno pavimentado pelo PSB do ex-governador Eduardo Campos, morto em acidente aéreo em 2014, que ampliaria a fragmentação da esquerda na região. O saldo nas capitais restringiu-se à pequena Rio Branco (AC), no norte do país — na primeira eleição municipal com o PT na Presidência da República, foram nove (quatro na Região Norte, três no Nordeste e duas no Sudeste).

Em Brasília, o cenário não foi diferente. Na Câmara dos Deputados, hoje, a bancada é de 53 cadeiras — e pouquíssimos rostos com alguma expressão nacional. Quatro anos antes, eram 68, mas já foram 91 na onda lulista de 2002, que ficou marcada por líderes que davam as cartas até acabarem encarcerados como José Dirceu, José Genoino e João Paulo Cunha.

No Senado, hoje são apenas seis parlamentares, alguns com codinome na lista de propinas da Operação Lava Jato, vide o ex-governador da Bahia Jaques Wagner e o pernambucano Humberto Costa. Tudo muito distante da realidade que o país viveu na década passada no tapete azul de Ideli Salvatti (SC) e Aloizio Mercadante (SP).

A precarização dos quadros é uma realidade dura para o lulismo. Em São Paulo, o candidato da legenda à prefeitura, Jilmar Tatto, não só se frustrou sem o apoio do ex-presidente, que vê nele resquícios do “martismo” (Tatto foi afilhado político de Marta Suplicy, com quem Lula rompeu quando ela deixou a legenda), como nem sequer consegue uma aliança sólida para vice. Segundo analistas, a tendência é que Lula prossiga num apoio velado a Guilherme Boulos.

O cenário é idêntico em outras praças importantes onde o PT perdeu protagonismo para seus então satélites. No Rio de Janeiro, o Psol de Marcelo Freixo há anos supera o PT de Benedita da Silva — ou de Lindberg Farias na Baixada Fluminense. Em Porto Alegre, Manuela D’Ávila, do PCdoB, deve ser o nome da esquerda nas urnas.

“Lula é maior do que o PT, e o que ainda existe é justamente seu ativo nas classes de baixa renda. Haddad, por exemplo, era inexistente em 2018. Esse eleitorado não era do PT, mas valorizava os programas sociais que o Lula proporcionou. Porém, Bolsonaro está avançando nessa faixa da população. Há uma mutação no perfil de aprovação desse eleitorado, um movimento claro de quem votou no Lula e agora está considerando Bolsonaro”, afirma Mauricio Moura, CEO da consultoria Ideia Big Data, especializada em opinião pública, e pesquisador na Universidade George Washington.

“Se o novo programa de transferência de renda do Bolsonaro for eficaz, a aprovação dele vai subir ainda mais”, completa Moura. Não à toa, como mostrou a Revista Oeste em edição anterior, vários candidatos tentam colar sua imagem à do presidente.

Nas redes, a bolha é cada vez menor

A consultoria Bites, especializada em análise de dados, aferiu a performance de Lula em todas as redes sociais no Sete de Setembro. Nas 24 horas seguintes à postagem do vídeo, o petista publicou 34 mensagens e ganhou só 3 mil novos seguidores — tem 7,8 milhões no total.

Mas é no número de interações (curtidas, compartilhamentos, comentários e retuítes) — ou seja, com quem Lula deveria conseguir engajamento — que o retrato da perda de relevância fica evidente. O petista obteve 386 mil interações, com 34 mil compartilhamentos. Numa breve comparação com Jair Bolsonaro, que também foi às redes no Dia da Independência, foram 3,1 milhões, com 180 mil compartilhamentos.

De acordo com a análise, as buscas no Google pelo presidente foram duas vezes superiores às buscas por Lula, mesmo em antigos redutos eleitorais petistas, como o Nordeste.

“O lulismo foi um fenômeno analógico que não está acontecendo no digital. O discurso que considerou ser histórico ficou preso numa bolha, não houve fluxo de opinião. Esse espaço da esquerda no meio digital, aliás, está desocupado”, avalia Manoel Fernandes, diretor-geral da Bites.

Desde então, Lula tem intensificado sua presença nas redes sociais, especialmente no Twitter, plataforma favorita do rival Bolsonaro. Nas publicações, contudo, ele parece ainda estar à procura de um norte: comemorou a saída do procurador Deltan Dallagnol da força-tarefa da Lava Jato, criticou a operação da PF em que seu advogado Cristiano Zanin foi alvo de mandado de busca e apreensão e a alta no preço do arroz e falou sobre a condenação do ex-colega mandatário do Equador Rafael Correa. Mas quase nada parece dar resultado.

Nos últimos doze meses, as pesquisas com o nome Luiz Inácio Lula da Silva no Google, dentro do Brasil, foram, em média, aproximadamente quatro vezes menores do que aquelas envolvendo Bolsonaro. A curiosidade do público pelo petista foi maior apenas na semana em que ele foi solto, em novembro de 2019.

O psolismo, que deve herdar parte dos ex-lulistas — ao menos os mais jovens —, tende a radicalizar o discurso anticapitalismo e reacender temas moribundos ancorados na luta de classes. Isso empobrece o debate público e não contribui para a discussão de medidas efetivas para a construção de um Estado moderno. Mas, talvez, assegure aos partidos de esquerda, ex-satélites do PT, a conquista de pequenos nacos do espaço legislativo e, assim, acesso às verbas dos fundos partidário e eleitoral — o que, ao fim e ao cabo, parece ser o real propósito de sua atividade política.

Ainda sobre seu mais longo discurso desde os 580 dias de carceragem, Lula até arriscou apresentar-se como o candidato que não será em 2022, mas disse que o isolamento na pandemia o fez mergulhar em uma reflexão sobre “o papel que ainda pode lhe caber” na História. É possível que até o final do confinamento ele conclua que o lulismo chegou mesmo ao fim.

Revista Oeste