quinta-feira, 25 de agosto de 2016

Proposta do BNDES prevê 100% de esgoto tratado no Rio em 15 anos

Água. Estação de tratamento de esgoto de Itaipu, da Águas de Niterói, uma das interessadas na privatização do saneamento
Água. Estação de tratamento de esgoto de Itaipu, da Águas de Niterói, uma das interessadas na privatização do saneamento Foto: Fernando Lemos/Agência O Globo/18-8-2016
Danielle Nogueira - O Globo



O modelo de privatização do serviço de saneamento prestado pela Cedae que foi proposto pelo BNDES ao governo do Estado do Rio prevê a universalização da coleta e tratamento de esgoto em 15 anos e a de abastecimento de água em cinco anos, segundo fontes a par das negociações. Nas conversas mantidas entre o banco e o governo, a fórmula de subsídio cruzado das tarifas é um dos pontos que caminham para o consenso. Mas ainda há divergências quanto à cobertura geográfica de uma eventual concessão e dúvidas quanto à cobrança de outorga e ao futuro dos empregados da estatal.

Para cumprir as metas de universalização, trabalha-se com uma estimativa de R$ 21 bilhões de investimentos em um prazo de 30 anos, dos quais R$ 16 bilhões iriam para coleta e tratamento de esgoto, e R$ 5 bilhões, para o fornecimento de água. Segundo a Cedae, o índice de abastecimento de água nos 64 municípios atendidos por ela é de 93%. Já o de tratamento de esgoto é de apenas 30,7%, de acordo com o Sistema Nacional de Informações Sobre Saneamento (Snis).

O modelo proposto pelo BNDES prevê a concessão do serviço de distribuição de água, coleta e tratamento de esgoto da Cedae à iniciativa privada. A Cedae continuaria a atuar na produção, tratamento e transporte de água até as adutoras. O estado seria dividido em quatro áreas geográficas, que seriam concedidas individualmente, abrangendo todos os municípios atendidos pela estatal. A ideia é que diferentes concessionários assumam cada área. Desde que o modelo foi apresentado, empresas privadas manifestaram interesse no projeto.

GOVERNO DO RIO QUER PRIORIDADE PARA 11 CIDADES

O governo do estado, porém, defende a concessão de 11 municípios, principalmente localizados no entorno da Baía de Guanabara. Na avaliação do governo, segundo fontes, essas cidades deveriam ter prioridade, porque a Baía ainda recebe enorme quantidade de esgoto in natura.

A proposta do BNDES prevê ainda um sistema de subsídio cruzado, no qual a tarifa de água que a concessionária pagará para a Cedae seria mais alta que nos demais municípios. Esse sistema foi a forma encontrada pelo BNDES para viabilizar o avanço da infraestrutura de saneamento no interior do estado, onde os índices de cobertura do serviço são menores que na capital e que, por isso, demandará mais investimentos. O governo estadual já acena com a concordância da fórmula, mas ainda estão em discussão quais seriam os valores cobrados.

Em nota, o governo estadual confirmou que pediu a inclusão dos estudos sobre os serviços de distribuição de água e saneamento no Programa de Parcerias e Investimentos (PPI), mas disse que “o formato ainda não foi definido e as discussões com o BNDES estão em curso”. O objetivo, segundo o governo, “é fortalecer a Cedae e ampliar os investimentos em saneamento. O BNDES, por sua vez, diz que “proporá a inclusão da Cedae no PPI na reunião do dia 12 de setembro” e que, “aprovada a inclusão, o banco vai trabalhar com o governo do Rio no detalhamento da modelagem das concessões”.

Um dos pontos que ainda serão discutidos é a cobrança de outorga. O banco defende que não seja cobrada, mas, no setor, há uma avaliação de que o governo estadual poderia fazer alguma pressão nesse sentido, devido à crítica situação fiscal do estado. Outra preocupação do governo é com o futuro dos empregados da Cedae. Uma das possibilidades aventadas seria permitir a migração desses trabalhadores para a nova concessionária, a exemplo do que foi feito nos aeroportos privatizados.

COM CONCESSÃO, RECEITA DA CEDAE DOBRARIA

Um dos desafios de um eventual novo operador será combater a inadimplência. Hoje, boa parte dos municípios atendidos pela Cedae recebe a água de forma intermitente, o que acaba estimulando a postergação do pagamento da conta, na avaliação de especialistas. 

Além de melhorar a qualidade do fornecimento hídrico, a concessionária também terá que investir na instalação de hidrômetros. Muitas residências são desprovidas desse equipamento, o que faz com que nem a Cedae saiba com precisão qual o consumo de água.

— Quase todos os municípios atendidos pela Cedae convivem com fornecimento de água intermitente. A rede tem muitos vazamentos, o que leva a uma grande perda de água. E, como a Cedae não entrega (a água) mesmo, não adiantar cortar a água quando uma pessoa não paga a conta — diz Dora Negreiros, membro do conselho da ONG Instituto Guanabara, que acompanha a situação da Baía e do saneamento dos municípios a seu redor.

Segundo fontes, com a melhoria do serviço e e o combate à inadimplência, o faturamento da Cedae — hoje de R$ 4 bilhões por ano — poderia mais que dobrar após 15 anos de concessão.

A Cedae disse que “não há interrupção do abastecimento em qualquer localidade, mas, como parte da Baixada Fluminense é abastecida por mananciais, pode haver flutuação no fornecimento de água quando há escassez de chuvas, o que reduz os níveis dos mananciais e o volume de água captado”. Segundo a Cedae, nesses períodos são tomadas medidas para manter o abastecimento, “como a realização de manobras na rede de distribuição”. A empresa informa ainda que já iniciou um pacote de obras, orçado em R$ 3,4 bilhões, para “eliminar as flutuações no abastecimento”.