quarta-feira, 22 de outubro de 2014

Do ”rouba, mas faz” ao “rouba, mas distribui”

José Fucs - Epoca

Infelizmente, no Brasil, a ação imoral e antiética de políticos e autoridades não parece ser motivo para os eleitores defenestrarem seus nomes nas urnas. Muita gente, se puder, ainda dá um jeito de tirar sua lasquinha

Dilma Rousseff (PT) em Curitiba, feliz da vida depois de comer um feijãozinho (Foto: Ichiro Guerra/Divulgação)
De tudo o que já aconteceu nesta campanha eleitoral, da morte trágica de Eduardo Campos à virada espetacular de Aécio Neves no primeiro turno, dos ataques impiedosos a Marina Silva às manipulações de dados e informações pelo PT, talvez nada seja tão surpreendente quanto a resistência da candidatura da presidente Dilma Rousseff, do PT, à reeleição.
Diante do uso descarado da máquina pública federal em benefício de Dilma e da série inesgotável de escândalos envolvendo o seu governo e o PT, é difícil, quase impossível, acreditar, para quem ainda bota fé na humanidade, que dezenas de milhões de eleitores simplesmente fechem os olhos a tudo-isso-que-está-aí e ainda se proponham a votar nela nas eleições do próximo domingo, dia 26.
Como estamos cansados de saber, essa resistência se deve, em boa medida, à central de infâmias montada pelo PT contra seus adversários, coordenada pelo marqueteiro João Santana, que tem pouco ou nenhum compromisso com a verdade para criar suas peças de propaganda. Deve-se também aos 14,6 milhões de beneficiários do Bolsa-Família, que recebem um “salário” do governo federal todos os meses. Na falta de outros argumentos para cativar o eleitorado, o PT promove o terrorismo nas comunidades de baixa renda, espalhando de forma criminosa o boato de que os programas sociais serão suspensos se a oposição ganhar o pleito. Os caciques do PT até defendem isso abertamente nos programas eleitorais no rádio e na TV, sem a menor cerimônia, como se incorporassem o espírito de Macunaíma, o herói sem nenhum caráter criado pelo escritor Mário de Andrade no início do século passado.
Se deduzíssemos os beneficiários do Bolsa-Família do eleitorado de Dilma, ainda lhe sobrariam cerca de 50 milhões de eleitores, caso os dados da última pesquisa do Datafolha, na qual Dilma aparece com 46% das preferências, equivalentes a cerca de 65 milhões de votos, estejam corretos. Mesmo se, num arroubo de generosidade, multiplicássemos por dois o número de beneficiários do Bolsa-Família, ainda restariam 35 milhões de pessoas decididas a votar em Dilma, em meio ao lamaçal em que chafurdam o PT e seu governo.
Infelizmente, no Brasil, a ação imoral e antiética de políticos e autoridades não parece ser suficiente para os eleitores defenestrarem seus nomes nas urnas. Ao contrário. Muita gente, se puder, ainda dá um jeito de tirar a sua lasquinha. Talvez, o melhor (ou pior) exemplo dessa triste realidade seja o velho Ademar de Barros (19801-1969), o ex-governador de São Paulo, que se tornou conhecido pelo slogan “rouba, mas faz”, por conta das negociatas que promovia quando estava no poder. Apesar disso, Ademar sempre contou com o apoio popular e a certa altura decidiu até incorporar o slogan em suas campanhas eleitorais.
Em 2005, na reeleição de Lula, quando pipocavam as denúncias escabrosas do Mensalão, não foi diferente. Mesmo sabendo do envolvimento de vários caciques do PT e do governo no Mensalão e das suspeitas existentes sobre a participação do próprio Lula no propinoduto montado pelo partido, milhões de eleitores brasileiros deram seu aval nas urnas à reeleição. Agora, em meio aos escândalos do Petrolão e a uma série indescritível de casos de corrupção que derrubariam o governo de qualquer país sério do mundo, a candidatura do PT mostra, mais uma vez, uma resiliência incompreensível  – ao menos até o momento.
Hoje, o “rouba, mas faz” de Ademar de Barros parece mais atual do que nunca. Seu slogan, porém, ganhou uma nova versão – o “rouba, mas distribui”. Como acontecia com a velha esquerda marxista-leninista brasileira, que apoiava (e muitos ainda apoiam) as ditaduras de Joseph Stálin e Mao Tsé Tung, mesmo diante das atrocidades cometidas pelos dois líderes,  muitos dos partidários de Dilma e do PT prefirem fazer vistas grossas aos pecados capitais do partido e de seus gurus. Tudo, aparentemente, em nome da causa maior da igualdade pregada pelos socialistas e comunistas, que seria encarnada por direito divino pelos petistas e pelo PT, em detrimento da liberdade  de expressão e da pluripartidarismo garantidos pelas “democracias burguesas”. Ou, então, para manter a "boquinha" e os privilégios conquistados com a já longínqua ascensão ao poder.