Fillipe Mauro e Ruan de Souza Gabriel - Época
No país do presidente Vladimir Putin, um autor escreve sobre o poder da arte para despertar o indivíduo e cria cenas homossexuais entre líderes soviéticos
DEMOLIDOR Sorókin em Veneza, Itália, em 2012. Ele diz odiar o nacionalismo em todas as formas (Foto: Barbara Zanon/Getty Images)
Com a decadência e o fim da União Soviética, em 1991, emergiram do submundo cultural de Moscou artistas russos interessados em propor uma nova vanguarda artística, após décadas sob o jugo soviético. Nesse ambiente, nasceu a literatura de Vladímir Sorókin, o mais célebre autor russo na atualidade. Desde os anos 1980, é um dos grandes opositores do autoritarismo e nacionalismo em seu país. Admira as democracias europeias e alerta para a “escuridão” que avança sobre as liberdades dos russos. A postura política liberal o aproxima dos ocidentalistas, intelectuais russos que defendem a aproximação com as democracias desenvolvidas. Desde o século XVII, os ocidentalistas se batem com os eslavófilos, defensores dos governos autocráticos e das raízes eslavas. A posição de Sorókin nesse antigo debate o torna “o mais clássico dos vanguardistas”, segundo o jornal The Moscow Times . Seus livros foram traduzidos para dezenas de idiomas e são sucesso de venda nos Estados Unidos . Sorókin é o primeiro autor russo a participar da Feira Literária Internacional de Paraty (Flip). Em julho, lançou no Brasil a peça Dostoiévski-trip (Editora 34, R$ 32), seu primeiro título publicado aqui. Ele respondeu por escrito às questões de ÉPOCA.
ÉPOCA – Um de seus livros mais polêmicos, O dia do oprítchnik , apresenta uma Rússia totalitária, sob o comando de um líder autoritário. Em 2006, quando foi lançado, o senhor negava ter a intenção de fazer sátira com o governo do presidente da Rússia, Vladimir Putin . O senhor ainda rejeita essa leitura do livro? Vladímir Sorókin – Quando escrevi O dia do oprítchnik , um amigo historiador disse: “Vladimir, você escreveu palavras mágicas para que tudo isso não aconteça com a Rússia”. Gostei dessa interpretação. Mas esse mesmo amigo, alguns anos mais tarde, comentou com tristeza: “Parece que não são palavras mágicas, mas uma profecia”. Hoje, é um clichê escrever na internet russa: “Na Rússia, tudo ocorre como num romance de Sorókin”.ÉPOCA – O regime soviético tentou controlar a literatura. Na Rússia de hoje, há tentativas dessa natureza? Sorókin – Por enquanto, não houve tentativas desse tipo. Mas sempre digo: por enquanto. À luz das tendências neoimperialistas recentes, isso é bem possível, embora esteja fadado ao fracasso. Já há tentativas de censura. A linguagem obscena foi proibida, a propaganda da homossexualidade foi proibida, há um artigo no Código Penal que condena declarações extremistas. A escuridão se torna mais densa! Na Rússia , as autoridades sempre temeram os escritores. Nos anos de Stálin, eles eram eliminados ou obrigados a escrever mentiras em forma de realismo socialista. Depois de Gorbachev, os escritores se tornaram livres. Repito: por enquanto. Hoje, os escritores não são levados a sério. Eles não são úteis para o Kremlin. Mas a histeria neoimperialista que tomou conta de nosso governo após a anexação da Crimeia pode levar o Kremlin a cometer muitas bobagens. Não só com os escritores.
ÉPOCA – Como reagiu em 2002, quando foi denunciado pelo crime de “pornografia” e viu seguidores do presidente Putin jogar seus livros em privadas? Sorókin – Foi como se eu tivesse ido parar dentro de um teatro do absurdo. Naquele dia, estava sentado, trabalhando à minha mesa. De repente, um amigo me ligou e disse o que vira em frente ao Teatro Bolshoi. Pensei que era brincadeira. Em seguida, outro amigo me ligou e me pediu para ligar a TV. O noticiário mostrava meus livros, arremessados a uma enorme privada com o Teatro Bolshoi ao fundo, sob a música de Tchaikóvski! Eu estava no centro de um ciclone. Um ano depois, o processo foi arquivado por ordem superior. Naquela época, o Kremlin ainda tinha uma política “vegetariana”. O incesto e o canibalismo são animais raros, extintos, incluídos na lista vermelha da humanidade. Mas, em certas épocas, eles proliferam muito e escapam das reservas. O trabalho do escritor é descrever a migração desses rebanhos.
ÉPOCA – A Rússia tem leis homofóbicas. A controvérsia em torno da cena de um romance que o senhor escreveu, de sexo homossexual entre clones dos ex-líderes soviéticos Stálin e Khruschev, reflete essa proibição? Ou o problema, para os que o criticam, foi a “desonra” dos líderes soviéticos? Sorókin – Essa cena de amor é do meu romance O toucinho azul, em que todo o século XX é virado no avesso: Stálin é um aristocrata alto e bonito, um viciado em drogas e um esteta, Khruschev é um conde corcunda, apreciador do Marquês de Sade. Essa é a essência do romance, escrito no final dos anos 1990.
ÉPOCA – O senhor já disse que é oriundo de uma literatura marginal de Moscou, onde era comum ser “apolítico”. Continua pensando dessa maneira? Sorókin – Sou apolítico no sentido de não pertencer a nenhum partido político. Não vou a manifestações, não participo de atividades sociais. Mas minha posição cívica se formou há muito tempo. Sou defensor do modelo europeu de democracia e odeio o nacionalismo e o totalitarismo em todas as suas manifestações.
A Rússia continua sendo um país que acredita mais na palavra que na realidade
ÉPOCA – Em seu livro Dostoiévski-trip , os personagens ganham personalidade ao beber os “narcóticos da literatura”, drogas com nomes de grandes escritores, como Kafka e Dostoiévski. A Rússia consome bem essas “drogas” nos últimos anos? Sorókin – Essa peça, apesar de escrita há muito tempo, reflete em muitos aspectos minha visão da literatura: é uma droga necessária tanto para o autor como para os leitores. Ela nos permite sobreviver à rotina da vida, nos torna mais inteligentes e mais sábios. Como disse Salvador Dalí, não sabemos o que é arte, mas não podemos viver sem ela. A Rússia continua sendo um país logocêntrico, que acredita mais na palavra que na realidade. A literatura ficou para trás no mundo todo com o ataque de meios visuais nas últimas duas décadas. Mas ainda temos bastante “droga literária”.
ÉPOCA – Dostoiévski era um defensor do governo autocrático e do nacionalismo. Em Dostoiévski-trip , o senhor afirma que é melhor diluir Dostoiévski do que consumi-lo em estado bruto. O que, no pensamento de Dostoiévski, deve ser “diluído”? Sorókin – Sou mais afinado com o Dostoiévski psicólogo que com o Dostoiévski filósofo. Na peça, não há sua filosofia, mas a energia de seus personagens. Todos são atormentados por ideias fixas. Dostoiévski é uma dinamite do drama humano. (O escritor americano ) Henry Miller confessou que, quando leu Os demônios, pareceu-lhe que a terra tremia. No final da peça, é abordado justamente o poder das ideias dos personagens de Dostoiévski. Para um leigo, essa droga continua muito forte! Foi assim que surgiu a ideia de sua “diluição”. Dostoiévski descreveu o homem russo em sua forma pura, como convém a um clássico, para depois se tornar interessante ao mundo todo. O paradoxo é que lê-lo em russo é bastante difícil. Seu estilo é confuso e sem pureza, algo típico da prosa russa do século XIX. Não é de admirar que muita gente não gostasse dele. Dostoiévski é melhor para pensar, para refletir.
ÉPOCA – Há uma escassez de autores contemporâneos russos ou os leitores de outros países é que não conseguem ver o que se produz atualmente na Rússia? Sorókin – Bons escritores são sempre poucos, e é assim que deve ser. Simpatizo com os escritores que vêm para a literatura com sua própria metafísica, como se fosse uma mobília. Os escritores ordinários usam móveis dos outros. Eu mesmo gosto de sentar numa cadeira de (Vladimir ) Nabókov ou me deitar sobre a cama de (Liev ) Tolstói, mas não por muito tempo. Deve-se dormir e sentar-se em seus próprios móveis. Prefiro a poesia clássica russa. O verso russo clássico tem uma música que não pode ser substituída por nada, por vanguarda nenhuma.
ÉPOCA – Vários de seus livros apresentam, de forma surreal, tudo o que há de mais grotesco na humanidade. O senhor se considera um pessimista? Sorókin – Sou um pessimista otimista. A vida é bela, e deus criou para nós um magnífico cenário em que é possível viver. O comportamento das pessoas, neste mundo maravilhoso, é que muitas vezes me deixa deprimido. Na Rússia, esse espetáculo é especialmente triste.
ÉPOCA – O senhor já disse a jornalistas que “não superestima a literatura” e que “ela não passa de tipos sobre uma folha de papel”. O que quis dizer? Sorókin – Não se deve confundir a literatura com a vida. É prazeroso viver com mitos, mas até certo limite. Um psiquiatra me contou que tinha uma paciente de 18 anos que enlouqueceu ao ler O idiota (de Dostoiévski) . O romance, que ela conhecia de cor, acabou substituindo o mundo real. É preciso consumir a droga literária na dose certa. Overdose faz mal.
Com tradução de Ekaterina Vólkova Américo