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Oposição planeja investigar participação da presidente em escândalo revelado por VEJA. Planalto monta estratégias para descolá-la do caso
Enquanto a oposição se articula para investigar a responsabilidade da presidente Dilma Rousseff na farsa montada pelo governo e pelo PT para impedir investigações na CPI da Petrobras no Senado, o Planalto e o comando da campanha de Dilma à reeleição montam estratégia para blindá-la do escândalo. Reportagem de VEJA desta semana revela que governistas engendraram esquema para treinar os principais depoentes à comissão de inquérito, repassando a eles previamente as perguntas que seriam feita na CPI e indicando as respostas que deveriam ser dadas. Segundo o jornal O Estado de S. Paulo, a base aliada já avalia destituir o senador petista José Pimentel (CE) do comando da CPI, na tentativa de reduzir o desgaste à imagem da presidente. No Planalto, o discurso oficial é de que a CPI sempre foi um "assunto do Congresso".
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O senador petista é um dos primeiros alvos concretos da oposição, que desde o início boicotou os trabalhos dessa CPI em prol da abertura de uma comissão que incluísse deputados. "A providência a ser tomada é o afastamento do relator que, até que se esclareça esse assunto, está sob suspeita de ser um dos participantes da farsa", afirmou o senador Aloysio Nunes Ferreira (PSDB-SP), candidato a vice-presidente na chapa de Aécio Neves.
Em maio, depois de não ter conseguido minar as articulações para a criação de uma CPI para apurar irregularidades na Petrobras, o governo escolheu os senadores Vital do Rêgo (PMDB-PB) para presidir o colegiado e Pimentel para a relatoria, mantendo pleno controle da condução das investigações. Vídeo obtido por VEJA confirma a farsa montada para blindar dirigentes da estatal e impedir investigações de irregularidades na empresa. Paulo Argenta, assessor especial da Secretaria de Relações Institucionais; Marcos Rogério de Souza, assessor da liderança do governo no Senado; e Carlos Hetzel, secretário parlamentar do PT na Casa, formularam perguntas aos depoentes e atuaram para que as respostas, tal qual um gabarito de prova, fossem entregue às pessoas que falariam à comissão. O kit de perguntas e respostas foi distribuído ao ex-presidente da estatal José Sergio Gabrielli e ao ex-diretor Nestor Cerveró, apontado como o autor do “parecer falho” que levou a estatal do petróleo a aprovar a compra da refinaria de Pasadena, no Texas, um negócio que causou prejuízo de quase 1 bilhão de dólares à empresa. A atual presidente da companhia Graça Foster também recebeu as perguntas da CPI por meio do chefe do escritório da empresa em Brasília, José Eduardo Barrocas. Integrantes da base aliada reconhecem que a situação de Pimentel é delicada.
O vice-presidente da CPI, senador Antônio Carlos Rodrigues (PR-SP), disse que os integrantes da comissão ouvirão na terça-feira as explicações de Pimentel, com o objetivo de definir uma "nova diretriz" para o colegiado. O senador Valdir Raupp (PMDB-RO) disse que a preparação das questões é geralmente restrita a assessores parlamentares. "Pergunta feita por gente de fora não é normal, não."
Na campanha de Dilma, a tática é limitar o escândalo a uma "disputa política" - ignorando o fato de que um assessor das Relações Institucionais foi um dos responsáveis pela preparação das questões feitas na CPI e antecipadas aos depoentes. A pasta é chefiada por Ricardo Berzoini, que presiddia o PT à época do escândalo dos aloprados. E foi alçado ao ministério por Dilma em abril desta ano, um mês antes do início da CPI.
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Já escrevi isto aqui algumas dezenas de vezes: é claro que o PT não inventou a corrupção e o malfeito na política. Já existiam antes dele; continuarão a existir depois. O partido inovou num aspecto: nunca antes na história deste país, como costuma dizer Lula, um partido tentou profissionalizar o crime político e fazer dele um método. Infelizmente, o PT trouxe essa novidade — e tomara que ela seja interrompida e não tenha continuadores. O que foi o mensalão? Cumpre lembrar: mais do que simples roubo de dinheiro público, mais do que peculato, mais do que corrupção ativa, mais do que corrupção passiva, mais do que formação de quadrilha, mais do que evasão de divisas, mais do que lavagem de dinheiro. O mensalão foi tudo isso para ser algo bem maior do que isso. Tratou-se de uma armação para criar um Congresso paralelo, movido pelo propinoduto, de sorte que o povo brasileiro tivesse solapado seu principal canal de expressão: o Poder Legislativo. Que passaria a se mover nas sombras. Esse, sim, foi o grande crime do mensalão. Mais do que o roubo, que já era muito grave, o que se viu foi o assalto ao estado de direito e ao Estado brasileiro.
(Com Estadão Conteúdo)