terça-feira, 25 de março de 2014

Sete erros que levaram o Brasil ao rebaixamento

Problemas na política fiscal e baixo crescimento afetaram nota da agência
O Globo

A agência de classificação de risco "Standard & Poor's" surpreendeu o mercado ontem ao rebaixar a nota do Brasil, de "BBB" para "BBB-". Apesar do país ainda se situar dentro da chamada zona de "grau de investimento", diversos aspectos econômicos estão se deteriorando, segundo a S&P.


AP

Piora fiscal

Os problemas no setor elétrico, que deve gerar gastos extras de ao menos R$ 15 bilhões no ano, só piora o cenário fiscal, que já não era bom. O governo vem reduzindo o valor do superávit primário (economia para o pagamento dos juros da dívida). Tanto é assim que a meta deste ano é de superávit primário de 1,9% do PIB, abaixo da expectativa do mercado de 2,1% do PIB e muito aquém da economia na casa dos 3% do PIB obtidos em meados da década passada. E falta credibilidade à política fiscal, com a chamada “contabilidade criativa”, que manipula dados para inflar o resultado do governo. Pesa ainda o excesso de subsídios públicos, como o destinado pelos bancos públicos, além dos destinados ao setor elétrico.
 
 

Baixo crescimento futuro

A S&P prevê que a economia do Brasil vai crescer 1,8% neste ano e 2,5% em 2015, taxas abaixo do esperado para as economias emergentes, para os países vizinhos e até menor que o estimado para nações desenvolvidas. Isso se agrava com o histórico recente: a média de crescimento nos últimos três anos, durante o governo Dilma, foi de 2% ao ano, metade do registrado no governo Lula (4%) e abaixo até da média do governo FH (2,3%).
 
 

Pequena margem política 

Apesar da necessidade de enfrentar alguns problemas, como os riscos no setor elétrico que geram despesas bilionárias e a necessidade de um ajuste fiscal maior, mudanças de rumos devem ficar apenas para depois das eleições de outubro. Fatos como as denúncias contra a Petrobras ainda contribuem para fragilizar o governo em um momento delicado. As eleições estaduais, que ampliam os gastos dos governos locais, também pioram as contas públicas.
 
 

Contas externas

O ano fechou com um déficit em conta corrente de US$ 81,3 bilhões e a previsão para este ano é de repetição do patamar (US$ 80 bilhões). Isso é motivado pela queda nas exportações brasileiras, pela redução no recebimento de investimentos e pelo aumento de obrigações no exterior, como remessa de lucros de multinacionais e ampliação do gasto de brasileiros no exterior. A agência lembra que no ano passado a moderação no recebimento do investimento estrangeiro direto (IEDI) também ajudou o país a registrar uma leve elevação da dívida externa líquida, embora, segundo a agência, ela “permanece gerenciável”.
 
 

Baixa taxa de investimento

No ano passado, os investimentos representaram apenas 18% do Produto Interno Bruto (PIB), enquanto que o governo sempre perseguiu taxas acima de 20% para conseguir um elevado crescimento sustentável, sem pressão inflacionária, algo que nunca foi obtido desde o Plano Real. A agência afirma que, a despeito de um ousado programa de concessões públicas na área de transporte, os investimentos privados seguem “sem brilho”.
 
 

Mercado de trabalho

Apesar de surpreender em fevereiro, quando foram criadas 260 mil vagas, o mercado de trabalho com carteira assinada começa a mostrar sinais de cansaço. Em 2013, foram abertos 1,11 milhão de empregos formais, o pior resultado em uma década. A renda do trabalhador também tem crescido menos, mostrando que o país pode estar próximo de uma estagnação no setor.
 
 

Aumento da dívida

A agência vê uma leve piora na dívida do país. O governo injetou recursos em bancos públicos para aumentar a oferta de financiamento, mas também para elevar suas receitas com dividendos. Somente o BNDES recebeu mais de R$ 300 bilhões nos últimos anos. Isso pressionou a dívida bruta do país, que hoje está em 57,2% do PIB e é um dos indicadores mais observados pelos investidores estrangeiros. Outros fatores também contribuem para o aumento da dívida, como a queda no superávit primário e a a elevação dos juros para controlar a inflação, uma vez que grande parte dos títulos do governo são atrelados à Taxa Selic.