Blog Ricardo Setti - Veja

S&P: “contabilidade criativa” do governo – ginásticas para mascarar o mau estado das contas públicas — e falta de compromisso com a meta fiscal acenderam o sinal e levaram à queda da nota do Brasil: a herança maldita vai se configurando (Foto: Stan Honda / AFP)
S&P REBAIXA NOTA DE CRÉDITO DO BRASIL PARA BBB-
Amigas e amigos do blog, a notícia abaixo merece poucos comentários, porque fala por si, já a partir do segundo parágrafro, quando menciona “ações contraditórias do governo”, “implicações negativas para as contas públicas”, “estimativa de desaceleração [do crescimento] nos próximos dois anos” e por aí vai.
O desgoverno da presidente Dilma vai, portanto, deixando sua herança maldita.
Um rombo previsto de 40 bilhões de reais com o calote dado até agora às empresas de energia elétrica, com preços controlados artificialmente mas cuja conta será oficialmente apresentada em 2015 — após as eleições, portanto –, uma crise após outra desmoralizando a Petrobras, não apenas por má gestão em passado recente, mas também por suspeita de fraude e negociatas cabeludas, uma inflação ainda alta e ameaçadora, contas públicas desordenadas, déficit crescente na Previdência… e por aí vai.
A porretada assestada pela Standard and Poor’s até que veio tarde. Confiram.
Do site de VEJA
A agência de classificação de risco Standard and Poor’s cortou a nota da dívida soberana brasileira para BBB-, de BBB.
Segundo nota divulgada pela agência, “as ações contraditórias do governo, com implicações negativas para as contas públicas e a credibilidade da política econômica, somada às estimativas de desaceleração nos próximos dois anos, continuam a limitar a alternativas e o desempenho da economia brasileira”.
A agência havia alterado para “negativa” a perspectiva da nota brasileira em junho do ano passado — e, desde então, o mercado especulava sobre o rebaixamento.
Na prática, a redução da nota de um país pelas agências de classificação de risco significa que seu acesso a crédito será menor e que os juros que paga serão maiores.
O mercado, contudo, não espera que o Brasil tenha portas fechadas no curto prazo. ”A nota do Brasil continua sendo a mais alta entre as de todas as grandes economias emergentes”, afirma Tony Volpon, economista-chefe da área de mercados emergentes do banco Nomura, parte do conglomerado financeiro japonês do mesmo nome que é um dos maiores do mundo. “No atual cenário global, é um país que ainda vale o risco para os investidores. O que a S&P fez hoje não mudará essa situação, na nossa avaliação”.
A S&P reduziu a nota de crédito em moeda estrangeira de BBB para BBB-, enquanto a nota em moeda local caiu de A- para BBB+. Após o rebaixamento, a agência mudou a perspectiva de nota para “estável”, o que significa que um novo rebaixamento não deve ser feito no curto prazo.
A queda da nota do Brasil ainda não implica a perda do grau de investimento [classificação que agrupa países considerados com pouca possibilidade de inadimplência, ou de dar calote em suas dívidas. Significa países de baixo risco para investimentos estrangeiros].
Contudo, coloca o país a apenas um passo de distância da categoria especulativa [nações com mais possibilidade de dar calote e de risco maior para investimentos estrangeiros. Elas têm muito mais dificuldades para obter empréstimos e pagam juros mais altos].
A nota da S&P estava em BBB+ desde novembro de 2011.
O rebaixamento se deve, sobretudo, à combinação de “derrapagem fiscal, perspectiva de execução fiscal fraca nos próximos anos, capacidade limitada de ajustes devido às eleições de outubro e certa piora das contas externas”.
Tais fatores, ligados essencialmente aos gastos públicos, são exacerbados pelas fracas perspectivas de crescimento econômico, diz a S&P.
A agência de classificação de risco apontou ainda como problema a perda de credibilidade na condução da política fiscal, em específico devido ao uso da contabilidade criativa. “O governo extirpou vários itens de gasto e receita da meta fiscal, além de diminuir essa meta ao longo do tempo.
“O uso dos bancos estatais, financiados por fundos do Tesouro Nacional, também foi determinante para minar a credibilidade do governo”, disse a S&P.
Relatório do banco Goldman Sachs publicado logo após o rebaixamento afirma que a rapidez com que a nota foi cortada depois da última visita da S&P ao Brasil, no início do mês, mostra que a agência de risco não encontrou sinais convincentes de que a política econômica brasileira evolui no sentido da maior transparência.
“A chegada da Copa do Mundo e a proximidade das eleições em outubro acentuaram a necessidade de uma ação mais rápida da S&P”, escreveu o economista Alberto Ramos, do banco americano, em nota divulgada ao mercado.