Além dos limites
O que se pode esperar de um partido político cujas principais lideranças e,
em consequência, sua militância são incapazes de distinguir o público do
privado? Os petistas têm extrapolado todos os limites do comportamento
democrático e republicano nas manifestações de repúdio à condenação dos
mensaleiros pelo Supremo Tribunal Federal (STF). O desacato ostensivamente
praticado pelo petista André Vargas, vice-presidente da Câmara dos Deputados, ao
presidente da Suprema Corte, Joaquim Barbosa, sentado a seu lado durante a
solenidade de abertura do ano legislativo, mostra mais uma vez que o lulopetismo
se considera acima das instituições da República: Joaquim Barbosa representava
naquele ato o Poder Judiciário.
Não podia ser tratado como um "inimigo" do PT e
provocado pelo parlamentar paranaense com a reiterada exibição de um gesto, o
punho cerrado, que se tornou o debochado símbolo de protesto dos mensaleiros
encarcerados. Não bastasse isso, Vargas, em mensagens pelo celular, escreveu que
gostaria de dar "uma cotovelada" em Barbosa. Ontem, desdisse o que havia
escrito.
A companheirada se considera detentora do monopólio da virtude e, nessa
condição, autorizada a lançar mão de qualquer meio para cumprir sua missão
redentora. Mas, no mundo real, os militantes partidários, mesmo quando
investidos de mandato popular ou de autoridade delegada, estão, como toda a
cidadania, obrigados a respeitar a lei, as instituições, os procedimentos da
convivência democrática. E certamente a desrespeitosa atitude de André Vargas no
plenário do Congresso Nacional não foi um bom exemplo, exceto para os
correligionários habituados a se comportarem como torcedores de futebol
organizados em gangues.
O episódio do mensalão tem oferecido ao lulopetismo todas as oportunidades de
demonstrar que o partido, que há quase 35 anos se colocou na cena política com o
propósito radical de lutar contra "tudo isso que está aí", acabou se
transformando, depois de chegar ao poder, numa legenda igual ou pior do que
todas aquelas que sempre combateu com violência e rancor.
De início, quando denunciado pelo cúmplice deputado Roberto Jefferson, o PT
negou a existência de um esquema de compra de apoio parlamentar mediante o
pagamento mensal de propina. No auge da repercussão negativa do episódio, Lula
declarou que o PT deveria pedir desculpas à Nação. Já no exercício do segundo
mandato, passou a se referir ao episódio como uma "farsa" que se dedicaria a
desmontar tão logo deixasse o governo.
Quando percebeu que o julgamento pelo STF
era inevitável tentou, nem sempre com a conveniente discrição, influenciar os
ministros. Anunciada a condenação dos criminosos, fingiu-se de morto. Mas desde
então trabalha intensamente nos bastidores para criar junto à militância petista
uma reação emocional ao julgamento "autoritário e injusto", para minimizar os
efeitos politicamente negativos da prisão da elite petista. E esse trabalho
inclui a tentativa de manter mobilizada uma militância frequentemente mal
informada e ingênua, fazendo-a crer que é possível a anulação do julgamento.
A estratégia traçada pelo lulopetismo prioriza a "fulanização" da decisão do
STF. Não é o colégio de 11 ministros, 8 deles nomeados pelos governos petistas,
o responsável pela condenação dos heroicos ex-dirigentes do partido. O culpado é
Joaquim Barbosa, o implacável ministro-relator da Ação Penal 470. E para
regozijo dos petistas o próprio Barbosa facilita as coisas com reiteradas
atitudes impulsivas e inexplicáveis, como a de ter entrado em férias sem assinar
a ordem de prisão de João Paulo Cunha.
Foi a deixa para que o deputado dirigisse uma carta aberta ao presidente do
STF vazada no caradurismo com que os petistas costumam subverter as evidências
em benefício próprio. Cunha refere-se o tempo todo a Joaquim Barbosa como se ele
fosse o único responsável por sua condenação. E insiste na falácia de que foi
condenado "sem provas", aleivosia que respinga na ampla maioria de ministros que
o penalizou pelos crimes de corrupção passiva, peculato e lavagem de dinheiro.
Tudo era o que se podia esperar de pessoas que não têm noção de limites.