Da Oi ao escândalo do INSS, negócios suspeitos, lobistas e indícios de corrupção acompanham a trajetória do filho mais velho do presidente
J á era noite de 30 de julho quando o ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), foi surpreendido pela informação segundo a qual um novo pedido de investigação sobre Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, havia chegado ao seu gabinete depois de um sorteio no sistema interno do STF. O que o desconcertou não foi tanto a necessidade de apurar mais uma falcatrua envolvendo o filho do presidente, mas o fato de o caso não ter ido diretamente para ele. Como relator dos processos que tratam dos desvios no Instituto Nacional do Seguro Social (INSS), Mendonça deveria receber ações dessa natureza automaticamente. No dia seguinte, o magistrado determinou a abertura do inquérito, originado em provas encontradas pela Polícia Federal (PF) durante a Sem Desconto, operação voltada a apurar a roubalheira no INSS.
O episódio representou mais um capítulo da queda de braço entre Mendonça e a ala da PF ligada ao diretor da corporação, Andrei Rodrigues, aliado de Lula. O ministro assumiu as investigações após a saída de Dias Toffoli do caso, em meio a denúncias de envolvimento com o Banco Master. Os atritos entre Mendonça e Rodrigues começaram no dia seguinte. Entre outros pontos, agentes próximos do diretor passaram a retardar o cumprimento de diligências, o delegado responsável pelo caso – ligado a Mendonça – acabou afastado sem aviso prévio e uma série de procedimentos deixou de ser comunicada ao relator.
A tensão chegou ao ápice na semana passada, quando a PF enviou diretamente à presidência do STF — exercida interinamente por Alexandre de Moraes por causa do recesso forense e da ausência de Edson Fachin — a solicitação mais recente sobre Lulinha. O documento deixou brechas para que o juiz do STF submetesse o caso ao sorteio, em vez de entregar diretamente a Mendonça. A manobra arriscada esbarrou na própria roleta do STF, que sorteou Mendonça para relator. Em poucas horas, viralizou nas redes sociais um vídeo no qual Lula convida Moraes “para um café” depois de um evento no Planalto, que ocorreu horas antes de a PF encaminhar a petição ao tribunal.
Lula chama Moraes para “tomar um cafezinho”. Ao final de uma cerimônia no Palácio do Planalto, os microfones da transmissão oficial captaram um momento de bastidor: o presidente Lula convidando o ministro Alexandre de Moraes, do STF, para “tomar um café” reservado. O encontro acontece em meio à escalada da crise diplomática com a Argentina. (Vídeo: X | O Antagonista) Siga o @thenews.cc para conteúdos que você não encontra em nenhum outro lugar. View all 411 comments Add a comment...
Do zoológico ao mundo empresarial
Muito se fala sobre Lulinha, mas pouco se sabe sobre ele. Filho mais velho do presidente Lula e da ex-primeira-dama Marisa Letícia, Fábio Luís Lula da Silva tem 51 anos, formou-se em Biologia pela Universidade Paulista e trabalhou como monitor no Zoológico de São Paulo, entre meados de 1999 e dezembro de 2003, antes de ingressar no mundo empresarial. À época, recebia um salário de R$ 600 (algo em torno de R$ 2.900, em valores atualizados).
Reservado e avesso à exposição pública, Lulinha mantém-se próximo do pai, de quem se tornou uma espécie de sombra nos bastidores, conforme relatos de petistas próximos dos dois. Está presente em momentos importantes, tem acesso direto ao chefe do Executivo e acompanha de perto seus movimentos, embora raramente apareça diante das câmeras. Herdou também uma profunda lealdade à mãe, morta em 2017, a quem considerava “o alicerce da família”.
A mudança de trajetória aconteceu de forma vertiginosa durante o primeiro mandato de Lula. No primeiro ano de governo do pai, Lulinha tornou-se sócio da recém-criada Gamecorp, empresa formalmente registrada por ele como produtora de conteúdo para televisão, telefonia e internet. A companhia nasceu com capital social de apenas R$ 10 mil para produzir programas de jogos eletrônicos, animes (desenhos japoneses) e aplicativos para celulares.
Por algum tempo, houve parcerias curtas com canais, entre eles a MTV e a Band. Segundo laudos da PF baseados em registros da Junta Comercial de São Paulo, um mês depois de a empresa abrir as portas, entraram em suas contas dois depósitos de origem não identificada que, juntos, somavam R$ 5 milhões. Na mesma época, a Telemar (que viria a se chamar Oi) adquiriu 35% da Gamecorp por R$ 2,5 milhões. A operadora alegou que considerava o negócio promissor e previa retorno de R$ 16 milhões no médio prazo.
O desempenho da empresa, contudo, não acompanhou as projeções: a Gamecorp acumulou prejuízo de R$ 3,5 milhões em 2005. Ainda assim, os repasses cresceram. Entre 2004 e 2014, conforme apontaram investigações da PF e do Ministério Público Federal (MPF), a Oi transferiu R$ 132 milhões à Gamecorp e a outras empresas do grupo ligado a Lulinha e a Jonas Suassuna, sócio do filho do presidente. A Vivo repassou outros R$ 40 milhões. Para os investigadores, parte dos contratos não apresentava lógica econômica e poderia ter servido para beneficiar parentes de Lula.
Os resultados dos serviços oferecidos ajudam a explicar as suspeitas. Um dos contratos foi firmado entre a Oi e a Goal Discos, empresa de Jonas Suassuna, sócio de Lulinha, que integrava o mesmo grupo econômico da Gamecorp. A companhia fornecia aos clientes da operadora acesso ao “Portal da Bíblia”, conteúdo narrado por Cid Moreira, e recebeu cerca de R$ 30 milhões em 43 parcelas. Pelo acordo, a Oi deveria pagar à Goal R$ 600 mil por mês, independentemente da utilização do serviço.
A PF, contudo, identificou menos de 122 mil minutos de acesso entre janeiro de 2012 e abril de 2013.
Os investigadores afirmaram ainda que, considerada a tarifa de R$ 0,115 por minuto prevista em contrato, o uso do portal justificaria repasses de aproximadamente R$ 20 mil. Para a PF, a enorme diferença entre o desempenho do produto e o valor mínimo garantido colocava em dúvida a lógica econômica do contrato.
Outro caso citado pela PF envolveu a Nuvem de Livros, plataforma digital comercializada por uma empresa de Suassuna em parceria com a Vivo. Documentos internos registraram apenas 151 assinaturas feitas diretamente pela operadora. Em outra conferência, uma empresa intermediária informou a existência de mais de 56 mil usuários do serviço, mas somente 48 deles apareciam efetivamente cadastrados na base de dados do grupo.
Para os investigadores, a discrepância reforçava as suspeitas de que os valores pagos não correspondiam ao uso real da plataforma. As suspeitas alcançaram também imóveis utilizados pelo filho do presidente.
Por meio do Grupo Gol (não relacionado à empresa aérea), Suassuna pagava o aluguel mensal de R$ 12 mil do apartamento onde Lulinha vivia, nos Jardins, área nobre de São Paulo. Na época, o filho de Lula confirmou que o sócio custeava a locação, mas afirmou que havia mobiliado o imóvel e assumido outras despesas. Posteriormente, o empresário desembolsou pouco mais de R$ 4 milhões na compra e na reforma de outro apartamento de luxo na capital paulista, alugado a Lulinha por um valor que a PF considerou inferior ao preço de mercado.
As controvérsias em torno de Lulinha não se restringem aos negócios. Embora preserve a vida pessoal longe dos holofotes, o filho mais velho de Lula também ocupa posição central nas tensões da família presidencial.
Em 2024, vieram a público áudios de WhatsApp nos quais Luís Cláudio, o filho caçula de Lula, chamou Janja de “oportunista” e de “puta”. Lulinha não repetiu publicamente o insulto, mas, segundo apurou Oeste, concordou, em conversas reservadas, com as críticas feitas pelo irmão e o defendeu nos bastidores. Para o filho mais velho do presidente, Janja afastou Lula de parte da família. A resistência à primeira-dama guarda relação também com a lealdade de Lulinha à memória da mãe.
Em meio a brigas familiares e ao avanço de operações da PF, como a que investiga o roubo de aposentados e pensionistas do INSS, Lulinha mudou-se para a Espanha em julho de 2025 – três meses depois de estourar o escândalo do INSS –, sem previsão de retorno ao Brasil. No país europeu, constituiu a Synapta, empresa de tecnologia sediada em Madri. A sociedade limitada, aberta em janeiro de 2026 e inscrita no mês seguinte no Registro Mercantil da capital espanhola, tem capital social de 3 mil euros — cerca de R$ 20 mil — e Lulinha como único sócio. A companhia pode prestar serviços de “consultoria técnica e informática”, além de planejar e desenvolver sistemas que integrem equipamentos, programas e tecnologias de comunicação.
A defesa de Lulinha afirmou à reportagem que a Synapta serve para Lulinha “empreender no médio ou no longo prazo”. Além disso, segundo o advogado Marco Aurélio Carvalho, do Grupo Prerrogativas, o filho do presidente mantém vínculo empregatício na Espanha, mas não revelou o nome do contratante nem as funções exercidas por ele naquele país.
Em meio à mudança para a Europa, a então Comissão Parlamentar de Inquérito (CPMI) do INSS chegou a quebrar seus sigilos fiscal, bancário e telemático, mas o ministro Flávio Dino derrubou o ato da CPMI. As suspeitas sobre o filho do presidente surgiram a partir de pagamentos atribuídos a Antônio Carlos Camilo Antunes, conhecido como “Careca do INSS”, de depoimentos prestados por pessoas ligadas ao lobista e de um envelope apreendido durante a Operação Sem Desconto contendo ingressos para um show em Brasília.
No centro dessas descobertas estava Roberta Luchsinger, lobista e amiga de Lulinha, apontada pela PF como a intermediária entre Antunes e o filho do presidente. Próxima do poder Roberta circula há anos no entorno da família Lula. Próxima de Lulinha e da mulher dele, Renata de Abreu Moreira, a empresária acumulou registros de viagens e encontros com o casal. Quando estava em Brasília, o filho do presidente costumava hospedar-se na casa dela no Lago Sul, área nobre da capital federal.
A convivência era tão frequente que, em uma ação trabalhista movida por uma ex-empregada doméstica, Lulinha chegou a ser descrito equivocadamente como “marido” da antiga patroa. Em outros trechos do mesmo processo, aparecia como “amigo”.
Com a volta de Lula ao Planalto, Roberta ampliou sua circulação pela máquina pública. Entre 2023 e 2024, fez pelo menos 40 visitas a ministérios e à Presidência da República. Apenas uma delas apareceu nas agendas oficiais das autoridades — apesar da obrigação de dar publicidade a esse tipo de compromisso.
Foram 17 idas ao Ministério do Desenvolvimento Social, 15 ao Ministério da Saúde e oito ao Palácio do Planalto. Em algumas ocasiões, a lobista estava acompanhada de representantes de empresas interessadas em negócios com o governo. Essa proximidade com o poder despertou o interesse do Careca do INSS. A PF identificou pagamentos de R$ 1,5 milhão feitos por uma empresa do lobista à RL Consultoria e Intermediações, de Roberta, em cinco parcelas de aproximadamente R$ 300 mil. Naquele período, Antunes buscava espaço no governo para negócios que iam além do esquema de descontos em aposentadorias e pensões.
O filho de Lula, Lulinha, e a amiga Roberta Luchsinger - Foto: Reprodução/Redes sociais
Foi nesse contexto que Roberta aproximou o Careca do INSS de Lulinha. Em depoimento à PF, ela afirmou que o filho do presidente demonstrava interesse por medicamentos à base de cannabis porque um familiar utilizava esse tipo de produto. Segundo sua versão, o assunto levou Antunes a convidá-lo para uma viagem à Europa, em novembro de 2024. A empresária negou ter repassado a Lulinha qualquer parcela do dinheiro recebido do lobista e sustentou que os R$ 1,5 milhão remuneraram serviços efetivamente prestados por sua companhia.
O relatório final da CPMI do INSS deu dimensão ainda maior às suspeitas. O relator, deputado Alfredo Gaspar (PL-AL), atribuiu a Roberta uma “atuação estratégica” no núcleo comandado pelo Careca do INSS e afirmou que a empresa dela movimentou quase R$ 20 milhões.
O parlamentar recomendou seu indiciamento por organização criminosa, lavagem de dinheiro, corrupção passiva, falsidade ideológica e tráfico de influência. Segundo Gaspar, a atuação da lobista teria permitido que o grupo ultrapassasse as fraudes contra aposentados e tentasse infiltrar-se em outros ministérios. Roberta nega irregularidades.
Além do oceano Lulinha não ocupa cargo público, não despacha no Planalto nem aparece com frequência ao lado do pai. Ainda assim, os negócios que o cercam demonstram uma curiosa vocação para gravitar em torno do Estado.
Ontem, eram contratos milionários com empresas de telefonia durante os governos Lula. Hoje, são lobistas, intermediários, visitas a ministérios e interesses privados à procura de espaço na administração federal. Mudam os personagens, as empresas e as operações policiais. O método permanece o mesmo.
Até agora, não há prova concreta de que o filho do presidente tenha
participado do roubo a aposentados e pensionistas. É isso que o novo
inquérito deverá esclarecer. Sua trajetória, entretanto, expõe uma
recorrência incômoda: embora viva longe dos holofotes — e agora
também do Brasil —, seu nome reaparece nos encontros entre dinheiro
privado e poder político. Lulinha atravessou o Atlântico, mas há sombras
que não se desprendem de quem as projeta.
Cristyan Costa - Revista Oeste