sexta-feira, 11 de agosto de 2023

Como a Rússia “saiu do zero” e virou o maior fornecedor de diesel importado pelo Brasil

 

Porto de Paranaguá (PR): em julho, carga de diesel russo custava R$ 110/m³ a menos que o produto norte-americano.| Foto: Rafael Nakamura/Portos do Paraná


Ao fim de julho, a Rússia completou quatro meses consecutivos como o principal fornecedor estrangeiro de óleo diesel para o Brasil, posição historicamente ocupada pelos Estados Unidos. Naquele mês, o volume do combustível importado do país de Vladimir Putin correspondeu a 42,2% de todas as cargas oriundas do mercado internacional para suprir a demanda brasileira.

A participação do derivado de petróleo norte-americano, por sua vez, foi de 30,4% no mesmo mês. Outros países que exportaram óleo diesel para o Brasil em julho foram Arábia Saudita (14,9%) e Emirados Árabes Unidos (12,4%).

Ao todo, foram importados da Rússia 376,1 milhões de quilogramas líquidos de óleo diesel, segundo dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC). Considerando os sete primeiros meses de 2023, a Rússia foi responsável por 35% de todo o combustível importado pelo Brasil, contra 30,6% dos Estados Unidos.

Em junho, o diesel russo correspondeu a 64,1% de toda a importação brasileira, contra apenas 11,4% do combustível norte-americano.


Com seu diesel banido na Europa, russos ofereceram descontos em outros mercados

A principal razão para a mudança no fluxo de importações brasileiras está na geopolítica internacional. Desde o início da guerra na Ucrânia, em fevereiro de 2022, Estados Unidos e União Europeia estabeleceram uma série de sanções econômicas a Moscou.

Em dezembro, a União Europeia baniu praticamente todas as importações de petróleo da Rússia, seu principal fornecedor até então, mas continuou a comprar combustíveis do país. Desde fevereiro deste ano, os países do bloco estão proibidos de importar também derivados de petróleo.

Sem seu principal mercado consumidor, os produtores russos passaram a buscar novos mercados e, para isso, oferecer descontos. Os Estados Unidos, por outro lado, deslocaram parte de seus carregamentos para a Europa, o que reduziu a oferta do combustível norte-americano.

Para se ter uma ideia, em janeiro, 54,2% do diesel importado pelo Brasil teve origem nos Estados Unidos, enquanto a Rússia não enviou um único carregamento do combustível para o território brasileiro.

Em fevereiro, a participação norte-americana nas importações do produto pelo Brasil caiu para 30,2%, enquanto o diesel russo já representava 13,9% de todo o combustível comprado do exterior. A fatia russa subiu para 18,3% em março e para 56,4% em abril, caindo para 47,6% em maio até chegar a 64,1% em junho e voltar a se reduzir para 42,2% em julho.

“O principal motivo é o preço, não tem nada muito além disso”, diz Amance Boutin, analista de combustíveis da Argus, empresa especializada em relatórios e análises para o mercado de combustíveis, agricultura, fertilizantes, gás natural e energia elétrica.

Embora seja um derivado do petróleo, produto do refino do óleo cru, o diesel é considerado uma commodity, que para poder ser comercializada no Brasil precisa atender a padrões estabelecidos pela Agência Nacional de Petróleo e Gás Natural (ANP). “Todos os produtos se comparam entre si, o que faz com que a diferença esteja basicamente nos prazos de entrega e principalmente no preço”, explica Boutin.

Apesar de o Brasil não ter imposto restrições aos produtos da Rússia, as sanções impostas por Estados Unidos e União Europeia dificultaram a importação do diesel russo por empresas brasileiras com capital estrangeiro em um primeiro momento.

A Petrobras, por exemplo, por estar listada na Bolsa de Nova York, conta com importante participação de investidores norte-americanos, além de exportar petróleo para os Estados Unidos. A Raízen, outra grande importadora de derivados de petróleo, é uma joint-venture com a Shell, que tem origem holandesa e está sediada atualmente no Reino Unido.


Tratativas para trazer diesel russo ao Brasil começaram no governo Bolsonaro

As tratativas para trazer o combustível da Rússia para o Brasil começaram ainda em 2022, durante o governo do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), mas as primeiras importações foram feitas por empresas menores e destinadas principalmente a distribuidores regionais.

Com base em fontes do mercado, a S&P Global Commodity Insights relatou recentemente, no entanto, que agora players brasileiros importantes, “incluindo pelo menos uma grande empresa brasileira de combustíveis”, também começaram a comprar barris russos com desconto.

Hoje o parque de refino brasileiro tem capacidade para refinar aproximadamente 80% do diesel que é consumido internamente, enquanto os 20% restantes precisam ser importados.

O valor do metro cúbico do diesel S10 produzido nacionalmente na refinaria Presidente Getúlio Vargas (Repar), da Petrobras, em Araucária (PR), era de R$ 3.044 no fim de julho, segundo levantamento da Argus. O combustível oriundo da Rússia entrava pelo porto de Paranaguá (PR) a R$ 3.240, enquanto o proveniente de outros países tinha preço médio de R$ 3.350.


Diferença de preços passou a cair

Boutin observa uma tendência de redução na diferença do óleo russo para o norte-americano, o que deve fazer com que a participação da Rússia no abastecimento do mercado brasileiro de diesel diminua nos próximos meses. “O produto americano vai abaixar o preço, e o russo vai começar a ver que os produtores brasileiros têm margens altas e vai começar a subir aos poucos”, explica.

Além disso, ressalta, o desconto oferecido no produto russo deve atrair outros grandes compradores em países que não impõem sanções à Rússia, como é o caso de Turquia, Índia e China, reduzindo a oferta a nível global.

Outro fator que pode afetar as importações – e não apenas da Rússia – é o aumento dos preços do petróleo no mercado internacional. Como a Petrobras não está repassando a alta do barril para os preços domésticos de diesel e gasolina, empresas importadoras concorrentes, sem conseguir competir, têm reduzido ou mesmo interrompido as encomendas do exterior.


Importações de óleo diesel por país (janeiro a julho de 2023)

Fonte: Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços


Janeiro

País Quantidade (kg) %

Estados Unidos 337.566.490 54,2%

Emirados Árabes Unidos 123.997.090 19,9%

China 74.441.890 11,9%

Índia 42.693.195 6,9%

Japão 26.394.181 4,2%

Togo 16.403.107 2,6%

Coveite (Kuweit) 1.594.616 0,3%

Suécia 11.694 0,0%

Fevereiro

País Quantidade (kg) %

Estados Unidos 260.932.933 30,2%

Emirados Árabes Unidos 220.667.202 25,5%

Índia 127.385.737 14,7%

Rússia 120.526.359 13,9%

Arábia Saudita 99.067.319 11,4%

Togo 26.104.303 3,0%

Coveite (Kuweit) 10.622.496 1,2%

Março

País Quantidade (kg) %

Estados Unidos 442.528.282 30,7%

Índia 385.278.618 26,7%

Rússia 264.356.411 18,3%

Países Baixos (Holanda) 131.259.481 9,1%

Coreia do Sul 84.025.676 5,8%

China 45.701.072 3,2%

Singapura 33.883.393 2,3%

Catar 33.767.031 2,3%

Emirados Árabes Unidos 16.341.696 1,1%

Espanha 4.110.245 0,3%

Malásia 2.088.212 0,1%

Taiwan (Formosa) 99.439 0,0%

França 14.789 0,0%

Suécia 7.316 0,0%

Abril

País Quantidade (kg) %

Rússia 441.838.405 56,4%

Estados Unidos 163.608.570 20,9%

Emirados Árabes Unidos 97.690.210 12,5%

Arábia Saudita 42.536.661 5,4%

Índia 22.729.253 2,9%

Espanha 14.796.882 1,9%

Suécia 11.694 0,0%

Maio

País Quantidade (kg) %

Rússia 544.873.756 47,6%

Estados Unidos 451.770.522 39,5%

Emirados Árabes Unidos 94.898.733 8,3%

Índia 20.964.078 1,8%

Espanha 14.194.668 1,2%

Arábia Saudita 9.773.887 0,9%

China 8.539.076 0,7%

Junho

País Quantidade (kg) %

Rússia 581.160.061 64,1%

Estados Unidos 112.797.015 12,4%

Emirados Árabes Unidos 103.319.056 11,4%

Arábia Saudita 98.857.671 10,9%

Índia 11.094.495 1,2%

França 4.172 0,0%

Julho

País Quantidade (kg) %

Rússia 376.087.241 42,2%

Estados Unidos 270.764.261 30,4%

Arábia Saudita 133.109.306 14,9%

Emirados Árabes Unidos 110.846.849 12,4%

Suécia 20.712 0,0%


Celio Ysno, Gazeta do Povo