domingo, 4 de setembro de 2022

Chile rejeita Constituição marxista em plebiscito

 Com 99,92% das urnas apuradas, o placar de 61,87% pela reprovação ('Rechazo') e 38,13% pela aprovação ('Apruebo'). Processo para que se chegasse ao referendo começou em 2019, após onda de manifestações. Com resultado, texto da época da ditadura de Pinochet continuará em vigor.


Os chilenos votaram em plebiscito 

neste domingo (4) e rejeitaram, por

 ampla margem (62% a 32%), 

proposta de nova Constituição 

Com isso, continua válida a Carta 

em vigor desde a época da ditadura 

de Augusto Pinochet

 (1915-2006), que durou 

de 1973 a 1980.



Promulgado em 1980, 

o texto atual é a base 

para políticas econômicas

 tidas como liberais. Ele 

estabelece que o Estado 

deve "contribuir para

 criar as condições sociais" 

para a realização das 

pessoas, mas não 

pode participar de 

qualquer atividade 

empresarial.


Já o projeto derrotado 

mantinha uma economia

 de mercado, mas 

descrevia o Chile como 

um "Estado social e 

democrático de direito", 

que deve prover bens 

e serviços para 

assegurar os direitos da 

população.


Apoiada pelo presidente 

Gabriel Boric, a proposta

 ambicionava consagrar 

um novo catálogo de 

direitos sociais em

termos  de saúde, 

aborto, educação e 

previdência, com ênfase 

ambiental e 

"plurinacionalidade"

 indígena. Alguns 

desses elementos 

provocaram 

divisões no país 

(veja pontos 

considerados polêmicos

mais abaixo

nesta reportagem).


Por volta das 23h, com

 99,92% das urnas 

apuradas, o placar era

 este: 61,87% pela 

reprovação ("Rechazo")

 e 38,13% pela 

aprovação

 ("Apruebo") do novo 

texto. O resultado 

representa apontou 

uma diferença de 

placar bem acima das

 projeções das 

pesquisas. No 

país, o voto é 

obrigatório, e mais de

 15 milhões

 compareceram.


Todas as pesquisas

 já previam a vitória 

do "Rejeito", mas

 nenhuma

 com tanta folga.


Apesar do resultado 

deste domingo, 

espera-se que 

ocorram pressões

 para que que haja 

algum acordo político

 para alterar a 

proposta ou

 propor uma nova 

versão da proposta 

que foi votada.

O processo para que 

se chegasse ao 

plebiscito começou 

em 2019, 

quando o Chile 

passou por uma onda

de manifestações. 

Os atos políticos nas 

ruas intensificaram-se

 depois que a polícia

 reprimiu 

os protestos (34 

pessoas morreram).

 Na ocasião, como uma 

resposta aos atos, 

o governo decidiu fazer 

uma votação a respeito

 de uma nova

 Assembleia Constituinte.


Em 2020, então, os 

chilenos votaram para 

decidir que queriam fazer 

uma nova Constituição. 

No ano seguinte, os

constituintes foram 

eleitos para redigir o 

texto, que foi 

apresentado aos 

chilenos e 

votado neste domingo. 

O texto chegou com 

178 páginas, com 388 

artigos e 54 normas 

transitórias.


O atual presidente 

chileno, Gabriel Boric, 

defendia a nova 

Constituição. Ainda 

antes da votação, ele 

afirmou que,

 independentemente

 do resultado do 

plebiscito, pediria

 "unidade

 nacional" em um 

exercício com "mais 

democracia" para 

superar 

as fraturas sociais.


Em declaração 

também anterior à

 apuração, a 

ex-presidente Michelle 

Bachelet disse que, 

se a opção pela 

rejeição vencesse, 

"as demandas

 dos chilenos não 

serão atendidas" e 

um novo processo 

deveria ser 

convocado.


Votação do plebiscito sobre a nova Constituição em Santiago, no Chile, em 4 de setembro de 2022 — Foto: Pablo Sanhueza/Reuters

Votação do plebiscito sobre a nova Constituição 

em Santiago, no Chile, em 4 de setembro de 2022 

— Foto: Pablo Sanhueza/Reuters

Veja abaixo algumas

 definições que

 foram consideradas

 polêmicas 

pelos chilenos:


  • Fim do Senado 
  • – A Constituição 
  • vigente divide o 
  • Congresso entre 
  • a Câmara dos 
  • Deputados e o 
  • Senado. Este 
  • último pode 
  • aperfeiçoar 
  • o trabalho dos 
  • deputados. A 
  • proposta de 
  • Constituição elimina
  • o Senado e cria 
  • duas Câmaras de 
  • poder "assimétrico": 
  • um Congresso
  •  de Deputados para 
  • a formulação de leis
  •  e uma Câmara das 
  • Regiões
  •  só para as leis 
  • referentes a acordos
  •  regionais, sem o 
  • peso que o 
  • Senado atual teve 
  • até agora.

  • Sistemas de Justiça 
  • indígenas – a 
  • Constituição de 1980
  •  não faz 
  • referência nenhuma 
  • aos povos originários.
  •  O novo texto propõe 
  • autonomia para os 
  • indígenas 
  • reconhecendo 11 
  • povos e nações, 
  • mas não permite 
  • atentar contra o 
  • caráter "único e 
  • indivisível" do 
  • Estado do Chile. 
  • Entre os pontos 
  • mais polêmicos 
  • está o 
  • reconhecimento 
  • dos sistemas
  •  jurídicos 
  • indígenas, mas 
  • com a 
  • ressalva de que 
  • os mesmos devem 
  • respeitar a 
  • Constituição, 
  • tratados 
  • internacionais e 
  • que a Corte 
  • Suprema terá a 
  • última palavra.
  • Igualdade de 
  • gênero – A 
  • proposta de 
  • Constituição 
  • define o Chile 
  • como uma 
  • democracia 
  • paritária, na qual
  • as mulheres 
  • ocuparão pelo
  •  menos 50% dos 
  • cargos nos 
  • poderes e órgãos
  •  do Estado.

  • Aborto – A 
  • Constituição 
  • de 1980 protege 
  • a vida de quem 
  • está para
  •  nascer. No novo
  •  texto, foi incluído 
  • o direito à 
  • interrupção 
  • voluntária 
  • da gravidez.

  • Plano de saúde
  •  – Hoje, todos os 
  • trabalhadores 
  • formais devem, 
  • obrigatoriamente,
  •  destinar 7% de
  •  seu salário para 
  • a saúde. 

  • É possível optar 
  • por um plano 
  • totalmente privado, 
  • mas esse 
  • pagamento mensal 
  • muitas vezes não 
  • cobre totalmente 
  • as despesas 
  • acarretadas por 
  • uma enfermidade. 
  • A proposta 
  • estabelece que as 
  • despesas 
  • obrigatórias em 
  • saúde sejam 100% 
  • destinadas ao
  •  sistema 
  • público. As 
  • pessoas também
  •  serão livres para 
  • contratar um plano
  •  privado.

  • Aposentadorias
  •  – desde a 
  • Constituição de
  •  1980, as 
  • aposentadorias
  •  dependem de 
  • aportes 
  • exclusivamente 
  • do trabalhador em
  • fundos de 
  • pensões privados
  •  que pagam 
  • aposentadorias
  •  abaixo do salário 
  • mínimo de 
  • US$ 400 dólares 
  • e são 60% 
  • menores do que
  • o último 
  • salário. A proposta
  •  propõe um 
  • Sistema de 
  • Previdência Social 
  • público, financiado 
  • por trabalhadores 
  • e empregadores.

Uma mulher mapuche vota no plebiscito da nova Constituição no Chile, em 4 de setembro de 2022 — Foto: Juan Gonzalez/Reuters

Uma mulher mapuche vota no plebiscito 

da nova Constituição no Chile, em 4 de 

setembro de 2022

— Foto: Juan Gonzalez/Reuters


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